Violência contra a mulher ainda é grande

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O Dia Internacional da Mulher foi celebrado na última quinta-feira, dia 8. Mas atualmente, a cada 7.2 segundos, uma mulher é vítima de violência física no Brasil. A cada 2.6 segundos, uma mulher é ofendida, insultada e humilhada no país. A cada 2 minutos, uma mulher é vítima de arma de fogo. Dados como estes escancaram a brutalidade que é praticada diariamente, minuto a minuto contra as mulheres no país, conforme o site relógios da Violência, mantido pelo Instituto Maria da Penha. Vargem Grande do Sul também está inserida nesse padrão. As vítimaS que procuram ajuda, encontram na Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), um lugar de acolhida e orientação, onde podem começar o difícil caminho para uma saída.
A delegada Anna Valéria Annunziata Gabricho explica que a DDM, que existe em Vargem há 26 anos, realiza um trabalho de atendimento prioritário e imediato de mulheres que sofreram violência física, sexual e moral. Porém, ela comentou à Gazeta de Vargem Grande que percebe que muitos dos casos atendidos são reincidências. Em muitas situações, as mulheres não conseguem se desvencilhar por não terem suporte financeiro, jurídico, emocional para se desvincular do agressor. Ela também afirmou que essa violência afeta também os filhos desse casal.
De acordo com a delegada, em muitas das situações, a mulher não possui um alicerce que a permita se desvencilhar dessa situação. Quando ela tiver uma renda própria, o conhecimento do amparo legal a que tem direito, quando se sente empoderada, ela tem mais condições de dar um basta a essa violência.
Anna Valéria ponderou que a cidade deveria aproveitar o fato da discussão da violência, do abuso, do assédio, estupro estar em evidência e dar um passo à frente. Em sua avaliação, uma proposta positiva poderia ser a criação de um Centro de Referência da Mulher (CRM) em Vargem Grande do Sul. Para a delegada, é preciso aproveitar este momento e pensar em montar este centro de referência, empregando as instituições que atuam na própria cidade, como o Centro de Referência de Assistência Social (Cras), Centro de Referência Especializado em Assistência Social (Creas), Conselho Tutelar, Ministério Público, OAB Mulher, para fazer um trabalho além, visando uma qualidade de vida melhor para esta mulher e seus filhos.
Em Araraquara, por exemplo, existe um CRM que acolhe as vítimas de violência e realiza todo acompanhamento psicológico e dá suporte durante a comunicação do caso à polícia. A equipe do Centro de Referência realiza a chamada busca ativa, mapeando os boletins de ocorrência registrados para entrar em contato com as vítimas e oferecer apoio, acolhimento e acompanhamento.
Além disso, um plantão 24 horas por dia (inclusive aos sábados, domingos, feriados e durante a madrugada) fica à disposição das mulheres para atender as denúncias.

Em Vargem

A DDM de Vargem elaborou um total de 331 boletins de ocorrência em 2017. Com relação à violência doméstica, foram 35 sobre lesão corporal, 119 de ameaça, 31 de brigas com agressões e 63 de crimes contra a honra, sendo um total de 249 ocorrências. Ao todo, foram necessárias a aplicação de 36 medidas protetivas.
Ainda em 2017, foram 18 casos em flagrante, sendo 6 de ameaças, 10 de lesão corporal, um estupro de vulnerável e um de desobediência. Também foram registrados 26 atos infracionais relacionados a menores de 18 anos, seis estupros de vulnerável e um de assédio sexual.

Vítima de violência precisa de apoio

A psicóloga Michele Anadão, da Associação de Conscientização e Enfrentamento à Violência Contra a Mulher (Superação), atua como voluntária na DDM de Vargem Grande do Sul há mais de dois anos, antes ainda de seu trabalho junto à ONG. Nesse período, trabalhou no acolhimento e orientação de muitas vítimas de violência doméstica na cidade.
De acordo com Michele, por mais que muitas mulheres procurem ajuda, a maioria ainda não denuncia os abusos. “Existe uma pesquisa que avalia que a cada uma violência falada, há outras quatro caladas”, disse.
À Gazeta, ela explicou que trabalhou tanto com as mulheres vítimas como em alguns casos, com os homens supostos agressores. “Tento entender o que aconteceu, a frequência, se é a primeira situação”, observou. No entanto, ela ponderou que é muito difícil a vítima procurar a DDM logo no primeiro episódio, na maioria das vezes, já há um histórico de violência física, moral, patrimonial, sexual. De acordo com ela, muitas mulheres demoram em procurar a DDM por medo, insegurança e também por acreditar que o fato não irá se repetir.
Assim, quando recebe o encaminhamento de uma vítima, Michele ressaltou que seu trabalho não é o relacionado à terapia e sim acolher e orientar, encaminhando em seguida para a rede de assistência existente no município. Ela observou que em muitos casos, as vítimas não possuem informação sobre onde conseguir o amparo na própria cidade, como assistência jurídica, na saúde, o apoio oferecido pelo Creas, entre outros.
Michele ressaltou que em seu atendimento, visa trabalhar a questão da autoestima e também do empoderamento da mulher vítima das agressões. “Você percebe que muitas estão envolvidas no ciclo da violência”, observou. Em muitas situações, a mulher acredita que é ela quem proporciona aquilo

Riscos

A psicóloga afirmou que a violência doméstica é um potencializador do suicídio entre as mulheres. Consumo de drogas, dificuldades financeiras, ciúmes, potencializam a violência doméstica. Michele ponderou que as mulheres precisam ficar atentas a esses fatores e sempre ter em mente que uma agressão em um relacionamento não é normal e não pode acontecer.
Ela comentou quando uma mulher procura ajuda psicológica nos casos de violência doméstica, um dos pontos trabalhados é a reconstrução da percepção de relacionamento.

Dificuldades

Michele apontou ainda que quando a mulher começa a compreender que está em um relacionamento abusivo, violento, percebe que está sozinha. Sua rede de contatos de amigos está rompida, pois teve de se afastar deles por ciúmes, por exemplo. Seus familiares se afastaram, pois não aceitavam aquela situação.
Michele orienta as mulheres a conversar sobre a situação com alguém e quem ouvir deve ajudá-la a procurar amparo. “A mulher nunca deve parar de procurar ajuda. Quando não se sente bem acolhida, ela tem o direito de procurar outra ajuda. Muitas vezes, a mulher em situação de violência se sente incapaz até de entender a primeira orientação que recebe. Ela está com uma ferida muita grande, mas não tem força para falar, tem vergonha, dificuldade de reconhecer que é violência”, disse.

Homens

Homens também são atendidos. Eles recebem orientação sobre a rede de assistência social da cidade. Em muitas situações, são orientados a procurar ajuda junto aos Alcoólicos Anônimos, por exemplo. De acordo com Michele, alguns apresentam dependência emocional, vêm de um histórico de abandono, violência familiar. Além disso, ela ressaltou a questão cultural, observando que o machismo ainda é muito forte.

Contato

Para entrar em contato com a ONG Superação, basta acessar a página no Facebook facebook.com/superacaosjbv ou pelo email superação_contato@outlook.com

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