A Romaria não tem só 44 anos

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Márcia Iared, diretora de Cultura e Turismo, fala ao público durante o início da Romaria em 2017. Foto: Gazeta

Márcia Iared

Difícil explicar quais as Romarias que mais me tocaram, porque a Romaria é o evento mais antigo da cidade e por certo deixou em cada um que dela participa ou que faz questão de vê-la passar, momentos inesquecíveis. Quer pela beleza ou pela curiosidade ou pela emoção ou lembranças que dela despendem, sem nem mesmo precisar o ano.

Me lembro bem do meu irmão Celso narrando por anos a Romaria que dirigia, sempre saudando os antigos pioneiros de curiosos nomes Zé do Olinto, Artuzim, Ditão, Cidinho Osseti, Rubão, Tião do Lela, Tião Capitão, Milica, Toninho Rabicó, João do Deco, entre outros. Difícil também esquecer do ano em que meu pai desfilou num carro de boi, da emoção estampada em seu rosto pelas lembranças da infância longínqua, filho que era de meu avô Antônio fazedor de carros.

Me lembro ainda de sua voz engasgada quando falava saudoso o nome dos bois Palácio e Boa Vista e outros que perdi na memória, já vítima do tempo, contando do precioso serviço que prestavam, livrando as cargas dos atoleiros.

O estandarte de Sant’Ana apontando e o choro dos carros agora vindos de Minas carregando a Padroeira, Aparecida, São Joaquim e Santo Antônio é o que mais me aperta o coração. Outro grande momento que não se apaga, é a lembrança das tropas de mulas traiadas com seus peitorais reluzentes, sempre guiadas pela mula madrinha, como faziam os  antigos tropeiros que por aqui passaram rumo a Goiás.

Ah… as comitivas bem trajadas, que vêm de tantos lugares, ou a singeleza do homem simples, muitas vezes sobre um velho pangaré, orgulhoso de poder desfilar para homenagear a Padroeira. Me enchia os olhos  também, nossas amazonas estilistas que com elegância sobre seus cavalos, carregavam seus lindos trajes produzidos por suas mãos de fada.

Porém, onde mais chorei com certeza, foi naquela Romaria em que na praça, os cavaleiros tiraram seus chapéus, diante da multidão que em silêncio se postou de pé, para receber a bênção da Mãe Peregrina, protetora dos cavaleiros, que trouxemos de Aparecida para aquele grande dia.

Mas, durante 11 anos, em que presidi esta Romaria junto à nossa sempre dedicada Comissão o que mais marcou por certo, chego a concluir, foram as muitas entrevistas e dedos de prosas salpicadas de emoção, com as pessoas “do ramo”, que na sua simplicidade traziam a Romaria na alma e que faziam brotar da memória longas e lindas histórias regadas de saudade, do velho pai, dos velhos costumes da roça, da lida diária com os animais, das traias, dos velhos tempos que não voltam mais.

O mais triste foi constatar ao rabiscar estas lembranças que os homens de hoje, engolidos pelas máquinas, pela tecnologia, pelas redes sociais, parecem não ter mais  tempo para sentir SAUDADES.

Márcia Iared, diretora de Cultura e Turismo, fala ao público durante o início da Romaria em 2017. Foto: Gazeta

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