Os cavaleiros de Sant’Ana: uma expressão de fé

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Padre Ricardo Alexandre, durante a bênção aos romeiros, em 2017. Foto: Gazeta

Pe. Ricardo Alexandre Camargo da Silva, Vigário paroquial da Paróquia Sant’Ana

O trotar dos cavalos homenageando Sant’Ana padroeira de nossa querida Vargem Grande do Sul não só marcam as ruas calçadas de nossa cidade, mas também as nossas ruas interiores que, perpassadas pelas memórias e sentimentos se cruzam com a fé. Uma expressão popular e religiosa que unem o passado e o presente em vista de um futuro melhor.

O cavaleiro montado em seu cavalo é, sem dúvida, a manifestação visível de fé de todo temente a Deus. Ele, não apenas se paramenta e paramenta seu cavalo para uma cavalgada, mas sim para uma romaria. Fazer romaria é fazer-se peregrino, isto é, alguém que busca sentido para sua vida. São Paulo escreve à comunidade de Éfeso dizendo: “Tomai, portanto, a armadura de Deus, para que possais revestir-vos inabaláveis no cumprimento do vosso dever. Ficai alerta, à cintura cingidos com a verdade, o corpo vestido com a couraça da justiça, para anunciar o Evangelho da paz. Sobretudo, embraçai o escudo da fé, com que possais apagar todos os dardos inflamados do maligno. Tomai, enfim, o capacete da salvação e a espada do Espírito, isto é, a palavra de Deus” (Ef. 6, 14-17). Obviamente Paulo narra a partir da realidade bélica o combate espiritual da fé que, para nós cristãos é sobremaneira essencial. Longe de nos igualar ao apóstolo dos gentios, vemos que sua palavra é muito atual e encaixa-se perfeitamente à realidade por nós vivida.

O cavaleiro é aquele que acorda cedo, faz sua prece a Deus por intercessão da Senhora Sant’Ana e outros santos. Veste-se com as vestes de sua batalha, da sua lida, do seu sustento; por vezes rasgadas, sujas e remendadas, porém suas vestes.  Nos pés sofridos pelo tempo e o trabalho as botas de seus antepassados, de suas origens às quais, com determinação e bravura, as fazem pisar no chão de sua existência criando história.  Na cabeça o famoso chapéu de boiadeiro. Ornamento que dá dignidade àquele que monta sobre o cavalo, mas também aquele que traz consigo uma experiência de vida, um aprendizado que, com humildade o retira em reverência quando encontra alguém que se acha  mais importante ou quando se diz sobre algo muito acima dele.

O cavaleiro caracteriza o que todos nós somos. Um povo que desde cedo “acordado” desbravou essas várzeas e dela fez brotar o sustento para suas famílias. Um povo que “ao acordar” se lembrava do Deus Poderoso por meio da singela imagem de Sant’Ana cravada nessa terra. Povo este que vestido para luta enfrentou e enfrenta as batalhas do dia-a-dia. Revestidos de suas vestes batismais testemunham Cristo sendo sal da terra e luz do mundo. Um povo que calçado por sua história respeita o chão que pisa; venera o pó que deu origem às construções arquitetônicas de nossa cidade – uma beleza ímpar que faz jus à expressão “Pérola da Mantiqueira”. Uma porção do povo de Deus que se orna cotidianamente com suas experiências, transmitindo sempre os princípios e valores recebidos de seus antepassados.

Enfim, a Romaria de Sant’Ana está longe de ser um evento municipal e regional. Ela é um acontecimento que marca nossas vidas: do chorado rangido das rodas dos carros de bois aos flashes das câmeras fotográficas e celulares atuais, cruzam várias histórias em uma só. Inúmeras vidas entrelaçadas em uma única prece de louvor e gratidão ao nosso Deus pelas mãos milagrosas de Sant’Ana nossa padroeira.

Que a Senhora Sant’Ana, expressão de fé do povo vargengrandense, do alto de seu nicho continue a velar por todos nós que aqui vivemos. Que seu olhar de “vó” possa nos acompanhar em todos nossos afazeres bem como, enxergar nossas necessidades e levá-las ao coração de nosso Deus.

Padre Ricardo Alexandre, durante a bênção aos romeiros, em 2017. Foto: Gazeta

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