O Racismo e a política

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Gaby Lourenço é Consultora de RH para o varejo e palestrante profissional. Foto: Arquivo Pessoal
Gaby Lourenço é Consultora de RH para o varejo e palestrante profissional. Foto: Arquivo Pessoal

Gaby Lourenço

Eu gostaria de iniciar esse artigo dizendo que o objetivo aqui não é atacar ou defender a direita e a esquerda, até mesmo porque estudando um pouquinho sobre esse assunto é fácil perceber que as ideologias não podem mais ser divididas em apenas dois polos e, principalmente, é notório que esses polos em algum momento de nossas vidas tendem a se misturar, ou seja, estamos constantemente em contato com ações que representam tanto um lado como o outro. E é notório também, que o nosso país está dividido em dois lados, onde um faz ameaças e críticas ao outro o tempo todo, e é com base nisso que deixo a seguinte pergunta para reflexão: até que ponto a divisão entre direita e esquerda é realmente benéfica para o país? E se todos os brasileiros se unissem em torno de um único propósito que seria a busca de soluções que fossem favoráveis para todos?

A esquerda tomou posse indevidamente de algumas pautas importantes, que em minha opinião deveria ser um dever de todos os brasileiros cuidar para que não houvesse discriminações de qualquer natureza no país, e no entanto, o que vemos são incentivos vindos de algumas pessoas que representam o lado que também deveria, em sua totalidade, combater esse mal. Sim, falando exclusivamente sobre o racismo, ele voltou com muita força nos últimos anos, com episódios em shoppings, em redes sociais, por influenciadores, em campos de futebol, e por pessoas diversas. E aos que mostram algumas estatísticas, o racista está representado por diversos estereótipos, e o que tem surpreendido ultimamente é que antes esse racismo era velado, ou seja, as pessoas tinham vergonha de externar um sentimento tão repugnante, mas agora não, parece que ser racista, mesmo que ainda neguem o crime, mas nunca o ato, é uma espécie de senha de pertencimento a determinado grupo. O caso mais cruel e recente foi de um estudante de direito de uma faculdade conceituada de São Paulo, que fazia estágio em um grande escritório de advocacia e que simplesmente disse em um vídeo viral que estava indo votar no então candidato e hoje presidente eleito, e que estava armado e louco para encontrar negros e já matar logo. “Ah Gaby, cadê o seu senso de humor? O menino só estava brincando, coitadinho!” Sim, claro, o Mackenzie, o DDSA Advogados, a OAB, e outros, também só ‘brincaram’ com a carreira dele. É importante que as pessoas tenham mais consciência e saibam que negro não é brinquedo, que existem limites, e que o fato de terem como presidente alguém que se mostrou intolerante em relação ao que ele chamou de minorias, e mesmo que talvez não tenha tido a intenção de expressar essa intolerância, não existe nenhum aval para que o ódio nas pessoas seja externado em forma de violência ou de ataques de qualquer natureza.

Eu tenho uma visão um pouco diferente sobre o racismo, penso que ninguém é obrigado a gostar da minha pessoa por conta do tom da minha pele, mas existe a obrigação de me respeitar e de não permitir que a intolerância seja uma prerrogativa para uma severa discriminação. Morando em Ribeirão Preto há 5 meses, tenho notado o quanto o negro incomoda por onde passa, o quanto a intolerância ainda é grande. Eu estava no shopping Santa Úrsula, onde vou com frequência para fazer minhas refeições, era feriado na cidade, e então fui trajando bermuda, camiseta e chinelos, lembrando que essa é uma vestimenta normal do local que é pequeno e básico, mas que como negra, o direito de ir trajando uma vestimenta que os brancos utilizam com frequência, me foi negado na forma de preconceito. Ao chegar no piso da praça de alimentação, fui constrangida e seguida pelo segurança. Fiz minha refeição, voltei para casa e no dia seguinte entrei em contato com a diretoria do shopping, me identifiquei e relatei o que havia acontecido. Dias depois, fui chamada no local para uma reunião com o gerente geral e o responsável pelos seguranças. Aí teve aquele teatro todo, disseram que não há racismo, que o shopping é acolhedor, e surpreendentemente, com conhecimentos de liderança em nível zero, ele pediu que eu identificasse o segurança que me constrangeu para que ele fosse demitido imediatamente. Eu não preciso nem dizer que como RH eu não fiz isso, mas o fiz engolir seco ao dizer que o treinamento da equipe é debilitado e apontar todas as falhas. É importante deixar claro, que tanto em Ribeirão como em qualquer outro lugar, não são todas as pessoas que são racistas, é obvio que existem pessoas fabulosas e também tenho a sorte de encontrar muitas delas.

Contudo, o racismo é uma herança negativa de séculos passados, mas que em algumas décadas terá o seu fim oficialmente decretado. Não porque as pessoas terão consciência de que somos todos iguais, longe disso, mas com a miscigenação das raças e o clareamento natural das famílias, em algum tempo o racismo também perderá sua força. Porém, enquanto isso não acontece, para hoje, precisamos entender que estamos todos no mesmo barco, que precisamos uns dos outros, e que tornar o Brasil uma economia forte, é dever de todos nós, assim como é dever de todos zelar para que o preconceito não avance. Por isso que eu digo que a guerra entre lados só atrasa o país, demonstra o quanto são iguais em alguns aspectos, e comprova o quanto ainda existe massa de manobra em nosso país.

2 COMENTÁRIOS

  1. Concordo plenamente, é muito bom ver um texto que mete o dedo na ferida sem os clichês da esquerda. Deixando claro que não sou de direita e nem de esquerda, sou Brasileiro e gostaria de ver esse texto sendo reproduzido mais vezes em debates sociais, parabéns.

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