Tecnologia pode afetar desenvolvimento neurológico e gerar obesidade em crianças

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Organização Mundial de Saúde publicou o alerta no final de abril. Foto: Olhar Digital

Crianças de até 5 anos não devem passar de 60 minutos em contato com aparelhos tecnológicos, segundo a OMS

Colaboração: Thaís Barion

Organização Mundial de Saúde publicou o alerta no final de abril. Foto: Olhar Digital

A Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou no dia 24 de abril, recomendações sobre o uso de aparelhos eletrônicos por crianças. O órgão indicou que bebês com menos de 12 meses não devem ter contato com os dispositivos. Já crianças até 5 anos não devem ultrapassar 60 minutos em contato com smartphone, computador ou TV.

“Diante da consolidação das mídias em nossa sociedade é quase impossível imaginar uma infância que não sofra influência da tecnologia em alguma medida. Acredito que o maior problema não esteja no contato com tecnologias e aparelhos eletrônicos na infância, mas sim no excesso e na limitação apenas neste tipo de estimulação”, pontua a psicóloga Carine R. de Oliveira-Franco. Ela é mestra em Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem e Especialista em Análise do Comportamento Aplicada ao Ensino de crianças com TEA.

Os prejuízos do excesso do uso de aparelhos eletrônicos também envolvem questões de comportamento e saúde: sedentarismo, consumismo, imediatismo, distúrbios de sono, entre outros. Em crianças acima de 2 anos, o acesso controlado ao uso de tecnologias e em um curto período pode gerar aprendizagem. O excesso é prejudicial, pois “as demais áreas do desenvolvimento terão déficits: na socialização, desenvolvimento motor, autocuidado, cognição e até a linguagem dependendo do tipo de tecnologia que ela tiver acesso por meio destes aparelhos”, explica Carine.

Isso acontece porque a criança, principalmente na primeira infância, está aprendendo diversas habilidades essenciais para seu desenvolvimento e precisa de estimulação constante e variada. Mas para isso é ideal ainda que haja supervisão e participação ativa dos responsáveis durante estes acessos, pois é necessário que o adulto ajude a criança a associar o que está assistindo com experiências reais.

Além disso, o desenvolvimento neurológico também pode ser influenciado pelo uso dos aparelhos. “O neurodesenvolvimento se inicia aos 17 dias de gestação com o fechamento do tubo neural e só vai se completar por volta de 18 a 24 meses de idade no indivíduo. O excesso de exposição às tecnologias pode neste sentido interferir nas sinapses em formação e prejudicar o desenvolvimento do organismo”, explicou a psicóloga.

O perigo do sedentarismo e obesidade

As orientações da OMS também fazem parte de um projeto da agência da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre sedentarismo e obesidade. Já que o problema afeta um quinto da população infantil, segundo a instituição responsável pelas recomendações.

Isso acontece pois o uso dos aparelhos eletrônicos possui consequências diretas na saúde, decorrente da inatividade. “As crianças preferem estar em frente a um dispositivo eletrônico a estar praticando alguma atividade física. Toda criança deve se exercitar, é importante que ela experimente diversos estímulos considerando suas particularidades fisiológicas e psicológicas. E isso pode ser explorado em qualquer modalidade, desde que seja bem estruturada”, pontuou o bacharel em educação física e personal trainer Diego Santana de Jesus.

Desta forma, o problema é comportamental, já que raramente essas crianças têm disfunções genéticas ou hormonais. Elas estão adoecendo devido aos maus hábitos alimentares e falta de atividades físicas. No Brasil, uma em cada três crianças com idade entre 5 e 9 anos estão acima do peso recomendado. Os dados são da Pesquisa de Orçamento Familiar (POF), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O excesso de peso está associado a problemas graves. Conforme estudos da Unifesp, quando o sobrepeso começa logo cedo, aos 10 anos, a criança já está obesa. Sendo que 80% delas manterão o padrão na fase adulta. “Com o aumento em até 8 vezes da prevalência de hipertensão e dislipidemias, os jovens apresentam quadros que só eram esperados na fase adulta. A diabetes tipo 2 já é um problema em crianças de até 6 anos e crianças obesas apresentam sinais de aterosclerose. O risco de depressão é 40% maior em crianças acima do peso”, explicou Diego.

Além das atividades físicas, a ONU recomenda atividades para que a criança saia das telas e interaja com o mundo real. Entre elas estão leitura e contação de histórias em todas as idades. Para os bebês é interessante estar ativo por meio de brincadeira e incluir pelo menos 30 minutos na posição de bruços ao longo do dia, em vez de sentados em uma cadeira. Para crianças de 1 a 2 anos, pelo menos 3 horas em atividade moderada e elevada. As com menos de 1 ano não deve ter contato com aparelhos eletrônicos, já a partir dos 2 anos o contato não deve ser superior a uma hora. Já as crianças de 3 a 4 anos devem gastar no mínimo 3 horas em atividades físicas, e o tempo em frente às telas deve ser de até uma hora.

O menor contato com aparelhos eletrônicos e um maior tempo de atividades pode diminuir o sedentarismo e evitar problemas futuros. A OMS ressalta que a cada ano morrem 5 milhões de pessoas no mundo por causas ligadas à inatividade. “Os jovens estão cada vez menos aptos fisicamente. Um estudo realizado em 2010 (Runhaar et al.) compararam testes realizados em 1980 e 2006 em mais de 5 mil crianças de 9 a 12 anos e verificaram que os resultados nos testes de força, flexibilidade, agilidade, velocidades, etc. são piores em 2006”, exemplificou o personal Diego.

Uso de tecnologia pelos pais

Os aparelhos eletrônicos são valorizados pela sociedade e fazem parte do cotidiano das pessoas. Desta forma, desde cedo as crianças têm contato com as tecnologias. Conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 69,8% da população, praticamente dois terços, possuem conexão com a internet. O meio mais utilizado são os smartphones, com 97%.

Assim, os cuidadores de crianças em desenvolvimento também estão a todo momento fazendo uso desses aparelhos (seja televisão, smartphones, tablets, babás eletrônicas etc). “Através de um processo de modelação, generalizam e institui o uso destes pelas crianças. Mas seria ideal que estes responsáveis também reduzissem o acesso enquanto estão na presença dos filhos, para participar com eles de outras atividades. Alguns pais estão tendo dificuldades em brincar com seus filhos e a brincadeira é essencial para o desenvolvimento dos pequenos”, apontou a psicóloga Carine.

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