Tempo

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Está chegando? Vai demorar? Mas já acabou!? Não quero ir! E assim vão as crianças se relacionando com o tempo, vão sentindo o tempo. Em uma viagem de avião de dez horas, por exemplo, é normal ouvir a pergunta “Já está chegando” a cada trinta minutos, pois essa costuma ser a tolerância de uma criança, trinta minutos ou menos. A criança deseja estar ou não estar ali, e assim mede o tempo, pelo desejo.

O tempo, em nosso mapa mental moderno e de adultos, é uma linha reta, um trem sem opções de paradas e desvios, sempre abrindo novos terrenos no ponto que divide o presente e o futuro. E deixando para trás o passado sem volta. E esse mapa mental fica mais evidente e sufocante quando nos damos conta de que o tempo passou e deixamos de realizar tarefas do trabalho ou deixamos de aproveitar momentos e companhias especiais. Mas não é bem assim…

As crianças, como sempre, possuem uma visão mais carregada de sentidos sobre as coisas do mundo. Apenas não têm elas a eloquência das palavras para explicar. Se as observarmos, encontraremos sabedorias ocultas. Veja você essa medição do tempo delas pelo sentimento.

Se desejamos acuracidade, como em uma corrida de Fórmula 1, podemos e devemos utilizar os milissegundos para medir o tempo. Já um encontro para um café da tarde com um amigo, o tempo pode ser medido apenas em horas e minutos (dependendo da cultura do país, há ainda a tolerância, ou não, para atrasos!). Na linha do tempo da História, medimos o tempo em anos, às vezes meses. Seja qual for a unidade escolhida e a necessidade, existe aí um padrão, uma construção social de pensarmos o tempo como aquela locomotiva que vai de um ponto A, perdido no passado de nossa gênese, até um ponto B, imaginado no futuro. Mas a medição do tempo, e sua relativização por Einstein, ocorre na vida de uma maneira mais complexa quando nos damos conta de que na verdade nós sentimos o tempo, e não o vemos passar. Não o observamos, mas, sim, estamos inseridos nele mesmo. Ele não está fora de nós para medir, ele age em nós como uma malha de infinitos pontos, em todos os eixos, ao nosso redor. O tempo não é uma linha entre dois pontos, mas sim uma existência com largura, altura e profundidade. O tempo tem volume, não apenas comprimento.

As crianças, adultos, animais, objetos etc sentem o tempo. Mas cada um tem uma reação secundária diferente. Aqueles que já cresceram e passaram pela vida escolar tendem a limitar o tempo a aquela linha imaginária, e assim se confundem em seus sentimentos sem perceber que é o tempo que está agindo sobre si. Uma prova da ação do tempo são os fósseis, que tem sua idade medida exatamente pela ação do tempo, ou seja, para a quantidade de Carbono 14 que ainda há ali nos restos orgânicos, conclui-se a idade do fóssil em centenas, milhares ou milhões de anos.

Se o tempo pode ser medido até por átomos de Carbono, sugiro aqui que treinemos a medir o tempo por sentimentos, assim como as crianças. Algo bom, tende a passar rápido. Algo ruim, demora… em tempos de guerra, dure ela 1 ou 10 anos, o tempo é lento e o trauma é o mesmo. Uma tarde de brincadeiras na rua com os amigos durante as férias passa rápido…! Um trauma ou decepção do passado pode nos acompanhar pela vida toda, e aí sentimos o tempo pesado, lento. Se o tempo tem volume, se o tempo nos envolve como uma malha, será então exatamente essa malha que conduzirá aquilo que vamos atrair e sentir; nesse caso, energias mais pesadas pelo apego à experiência negativa do passado. Revivemos os acontecimentos. Sentimos o tempo nos minar, envelhecemos mais rápido, pois sim, repetindo, o tempo é relativo. Mas quando pegamos o diploma universitário, a felicidade é tão grande que se expande pelo tempo, não apenas trazendo sentido para o presente, mas também esperança para o futuro e relativização às dificuldades das madrugadas a dentro de estudo dos últimos quatro, cinco ou mais anos de faculdade. Toda essa coisa boa que erradia no presente, passado e futuro vem do núcleo de um único fato positivo.

Assim, a experiência positiva é perfeitamente possível, claro! E pode começar agora, no imaginário do ano novo de 2020. 2020 é algo imaginado no mesmo volume de tempo de quando nascemos, de quando fugimos de tigres dente-de-sabre e de quando viajamos em carros voadores. Aquela felicidade inocente de sua infância existe no volume do tempo, e você pode se conectar a ela pela malha de altura, largura e profundidade. Se for para sentir o tempo, que seja positivo, não é mesmo. Vai demorar? Está chegando? Já vai acabar? A maneira que você quer sentir o tempo depende de sua meditação e capacidade de relativizar a realidade. Feliz 2020, que você comece a sentir algo que você sabe sentir e talvez perdeu o hábito.

Ulisses

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