Questão das cirurgias eletivas em Vargem envolve custos

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Câmara já devolveu R$ 150 mil para prefeitura custear cirurgias. Foto: Reportagem

São mais de 300 pacientes na fila de espera de uma cirurgia eletiva em Vargem Grande do Sul. Para sanar o problema, existe uma intrincada rede que envolve médicos, que realizariam os procedimentos, a prefeitura e o Sistema Único de Saúde (SUS), que arcariam com os custos e o Hospital de Caridade, onde as cirurgias seriam realizadas.

Para atender esta demanda, a prefeitura buscou recursos em seu orçamento e para tanto, cortou a realização do Carnaval de Rua neste ano.

Desde 2017, o prefeito Amarildo vinha mantendo contato com o Hospital de Caridade visando realizar as cirurgias eletivas e em 2018, depois de muitas tratativas entre a provedoria e o corpo clinico do hospital, a proposta da prefeitura foi aceita e o município ia repassar 1,5 vezes o valor da tabela de referência SUS por procedimento. Com a aprovação do acordo, o Executivo esperava diminuir consideravelmente a lista de espera.

Transcorreu 2018, veio 2019, cirurgias foram feitas no hospital de Vargem, mas não conseguiu atender a demanda e a prefeitura teve de realizar convênios com hospitais de outros municípios para realizar mais cirurgias.

Nova reunião

Neste início de ano, novamente os vereadores voltaram a questionar a situação e no dia 7 de fevereiro, atendendo ao ofício do presidente da Câmara, vereador Paulo Cesar da Costa (PSB), Amarildo esteve no Legislativo para falar sobre o andamento das cirurgias eletivas no município.

Na Câmara, o prefeito explicou aos vereadores que de fato as cirurgias eletivas no Hospital de Caridade estavam paradas, pois se entre julho a novembro de 2019 foram realizadas 87 cirurgias, em dezembro de 2019 e janeiro de 2020 elas caíram para apenas seis nestes dois meses.

Amarildo disse aos vereadores que no início do ano passado, foi definido em reunião com a provedoria do hospital que o município repassaria uma verba de R$ 150.000,00, que tinha como objetivo cobrir os prejuízos alegados pelo hospital na execução das cirurgias. Mas as operações praticamente pararam de ser realizadas e o prefeito enviou em janeiro deste ano ao provedor do hospital Wagner Vilela Cipola, ofício relatando os fatos e pedindo uma resposta em caráter de urgência.

Corpo clínico

Em resposta ao ofício, o Hospital de Caridade enviou ao prefeito o ofício assinado pelo diretor clínico do hospital, o médico Valdir Cheavegati Júnior, onde o mesmo cita que após reunião realizada pelo corpo clínico em 3 de fevereiro deste ano, que devido ao estudo regional demonstrando a baixa remuneração pelas cirurgias eletivas realizadas em Vargem e a declaração expressa da Mesa Administrativa do hospital pelo não interesse na continuidade da realização das mesmas, devido ao prejuízo apurado na vigência do convênio realizado entre a prefeitura e o hospital – que ia de 22 de maio até 14 de abril deste ano – decidiu o corpo clínico por unanimidade dos seus membros envolvidos, desfazer o acordo entre as partes até que haja uma revisão dos valores.

Baixo custo pago pelo SUS

Com razão, os médicos questionam os valores pagos pelo SUS. Para uma cirurgia de vesícula, o SUS paga R$ 409,23 para o hospital, R$ 248,61 para os médicos – geralmente são três profissionais envolvidos – e para exames e outros procedimentos, que leva o nome SADT, R$ 37,93, totalizando R$ 695,77.

Para uma cirurgia de hérnia, são R$ 295,86 para o hospital, R$ 146,96 para os médicos, R$ 2,69 para exames, totalizando R$ 445,51. Próstata: R$ 544,06 para o hospital, R$ 426,47 para a equipe médica, R$ 31,18 para exames, total R$ 1.001,71.  Varizes: R$ 180,00 para o hospital, R$ 400,40 para médicos, R$ 1,64 para exames e, total R$ 582,04. Hemorroidas: R$ 185,20 para o hospital, R$ 124,84 para os médicos, R$ 5,90 para exames, totalizando R$ 315,94. Fimose: R$ 97,03 para o hospital, R$ 121,40 para os médicos e R$ 0,69 para exames, totalizando R$ 219,12.

Os valores pagos pelo SUS pelas cirurgias são considerados baixos pelos médicos locais. Mesmo com a prefeitura pagando três vezes o valor da tabela SUS, para a realização de uma cirurgia de hérnia, a equipe médica que inclui o cirurgião, o anestesista e um auxiliar,  receberia algo em torno de R$ 440,88, para dividir entre os três profissionais, daí a não aceitação por parte dos médicos em realizar estas cirurgias em Vargem Grande do Sul.

Mas, hospitais e médicos da região estão fazendo esta mesma cirurgia por um valor até menor, visto que a prefeitura já se valeu de acordos semelhantes com unidades de Divinolândia e Caconde. O que poderia resultar num ganho maior tanto para os profissionais como também para o hospital, seria o grande número de cirurgias a serem realizadas. Assim, passariam a ganhar em escala, por exemplo, ao fazerem trinta cirurgias em um mês.

Prefeito busca hospitais da região

Sem acordo com hospital e médicos, o prefeito Amarildo Duzi Moraes tem feito convênio com os hospitais da região, principalmente com o de Divinolândia e também o de Caconde buscando diminuir a fila.

O problema se agravou nos últimos dias, pois passados 90 dias, cerca de 70 pacientes que já haviam feitos todos os exames e passados pela avaliação dos cirurgiões e anestesistas, só faltando a cirurgia, corriam o risco de perder todos os procedimentos, uma vez que não eram chamados pelos médicos de Vargem para realizar as cirurgias.

Diante dessa situação, a prefeitura de Vargem entrou em contato com o Hospital Regional de Divinolândia e os médicos daquele hospital estão fazendo um mutirão para atender os pacientes de Vargem. Segundo apurou o jornal, cerca de 50 pacientes passaram pela avaliação e oito cirurgias já haviam sido feitas nesta quinta-feira.

Além destes 70 pacientes, uma relação contendo cerca de 300 pacientes que estão na fila foi encaminhada ao Hospital de Divinolândia para avaliação, sendo que trinta já realizaram a cirurgia e outros 270 estão sendo avaliados. O prefeito acredita que a maior parte destas cirurgias deverá ser feitas em Divinolândia.

Também objetivando atender a demanda, foi autorizado pela secretaria de Saúde do governo do Estado, um mutirão de cirurgias eletivas para todos os municípios da região, cujo valor a ser pago é o dobro da tabela SUS. Os custos ficariam para a secretaria da Saúde, sendo que não houve interesse do Hospital de Vargem em participar do projeto.

Neste sentido, está sendo negociada pela diretoria de Saúde de Vargem com a provedoria do hospital de Caconde, a realização de cerca de 50 cirurgias eletivas, pois o valor liberado pela secretaria de Saúde do Estado é de apenas R$ 50 mil para o município de Vargem.

Eliminando a fila da catarata

Além das cirurgias eletivas, outro grave problema de saúde que o município está investindo é para acabar com a fila de espera dos pacientes que sofrem com a catarata. A prefeitura está efetuando um mutirão pago, fora da cota SUS, também junto ao Centro Oftalmológico de Divinolândia, onde mais de 300 cirurgias de cataratas estão sendo realizadas com verbas da prefeitura municipal, fora as consultas e procedimentos. Além destas cirurgias, mais 150 estão sendo feitas pelo SUS.

Prefeitura repassa R$ 1,4 milhão para o hospital

A prefeitura continua repassando verbas para o Hospital de Caridade. Em 2016, o valor era de R$ 900 mil e quando a atual administração assumiu, foi aumentando estando hoje em R$ 1,4 milhão por ano. A nova lei de fomento teve início em abril de 2018, foi renovada em 2019 e vence em abril de 2020.

Os gestores do hospital local buscam o reajuste, mas o prefeito Amarildo está relutante devido ao problema envolvendo as cirurgias eletivas. Ele afirmou à Gazeta que esperava que no hospital de Vargem fossem realizadas pelo menos 30 cirurgias eletivas por mês, mas isso não aconteceu. Segundo apurou a reportagem do jornal, o prefeito questionou a diretoria do hospital qual a garantia que a prefeitura teria se houvesse aumento de repasse para que as cirurgias fossem realizadas.

Obteve como resposta, que a direção do hospital não poderia dar esta garantia, pois dependia dos médicos envolvidos. Diante deste fato, é quase certo que a prefeitura não aumentará o repasse que faz ao hospital local.

Resposta

Na quinta-feira, a Gazeta de Vargem Grande enviou várias perguntas ao provedor do Hospital de Caridade e também o diretor do corpo clínico do hospital para a realização desta matéria, mas ambos informaram que responderão as perguntas na semana que vem, tendo em vista que eram várias as perguntas e que seriam ainda feitas algumas reuniões onde o tema seria discutido entre as partes.

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