Duas mil vezes Gazeta

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Eva Vilma da Silva Rodrigues
Chegar a um marco de 2000 edições, é um grande feito para um jornal pequeno de cidade do interior. Chegar com uma grande credibilidade, é um feito maior ainda. Porque até hoje, quando surge um assunto na nossa cidade, para confirmar sua veracidade as pessoas dizem: “Saiu na Gazeta?”
Antigamente você teria que esperar até sábado para chegar o jornal impresso, mas hoje, com a modernidade, a velha Gazeta também se atualizou, tem um site e constantemente lança no ar assuntos do momento. Mas ainda circula aos sábados com seu semanário impresso em papel jornal, pois muitas pessoas, como eu, ainda adoram manusear o jornal, sentir o cheiro do papel e da tinta, virar e revirar no colo os exemplares.
Mas lá em 1981, quando a Gazeta começou a circular em setembro, fruto do sonho do casal Fátima e Tadeu, a notícia tinha que esperar a impressão e o suspense era grande. Nada como manusear o jornal e ler os “últimos” acontecimentos e dizer na roda de conversa: “A lá!!! Num falei para vocês!! Saiu na Gazeta!” Ver os aniversariantes, as curiosidades, o esporte, classificados, página policial e, é claro, a política.
Em 1991, eu comecei a trabalhar na Gazeta por indicação do meu querido mestre, professor Flávio Iared. E lá fiquei por mais de 10 anos e participei do sonho do Tadeu e da Fátima, que além do jornal, tiveram quatro lindas filhas que cresceram dentro da Gazeta. Tínhamos ainda o trabalho e as orientações do querido vô Belinho, pai da Fátima que dobrava jornal com todos e vendia na feira. Os lanchinhos deliciosos da vó Glória, mãe da Fátima; das visitas da Lúcia e da Maria irmãs do Tadeu; dos cafezinhos do Tadeu na casa dos primos Rosinha e do Waldemar. Quando ainda trabalhava no jornal me casei, tive meu primeiro filho; fiz amigos para vida toda. Um lugar cercado de família.
Com mais de 20 anos aguentando firme, a Gazeta viu concorrentes chegarem e irem embora e ela se mantém, enfrentando muita coisa. Só nos 10 anos que estive ali, passamos por vários perrengues, já que numa cidade pequena notícias ruins ferem os brios de alguns envolvidos que não querem ver suas lambanças estampadas nas páginas do jornal e, como a função do jornal é levar aos seus leitores os fatos, a gente não escapava de uns xingamentos, ameaças, explosões de raiva, e etc.
Diga-se de passagem, que no etc a Polícia precisou intervir algumas vezes. É, não é só glamour não! Eu sai em 2002, embora ainda muitos me chamem de Eva da Gazeta (tenho orgulho disso); sei que ainda acontecem algumas encrencas por lá quando a notícia esquenta. Ah! Quando disse que fiz amigos para vida toda, também fiz alguns inimigos… Fazer o quê, né?
Além de nós, que trabalhávamos em constância na Gazeta, tinham os cronistas, infelizmente muitos dos que trabalharam comigo, hoje já estão no andar de cima, como d. Lygia de Freitas, dr. Nicolau Zarif e o fantástico Benedito Bedin, sr. Benê. Um senhor que era a memória viva da história da nossa cidade.
O leitor deve imaginar que tenho muita história para contar. E tenho mesmo, muitas! Boas, ruins, tristes, alegres. Histórias que sempre mexem com nossas emoções. Mas escolhi aqui, em homenagem ao meu querido Benedito Bedin, contar a nossa aventura da caça a criatura que assombrou a região, o Chupa Cabra… Huuuuu aquilo foi assustador.
Para cobrir os misteriosos casos de animais que apareciam mortos com marcas no pescoço, eu e o sr. Benê saímos pela região com seu possante Del Rey (era um carro maravilhoso) e fomos a diversas cidades onde haviam os relatos da aparição do tal bicho.
Fomos durante o dia, claro, o Tadeu não pagava a gente tão bem assim kkkkkkkk. Nossa andança chegou num sítio nos confins do bairro da Cascata, onde três agricultores juraram ter visto a fera à noite. Tipo cachorro muito grande, peludo, rápido, olhar assustador, dentes afiados que saiu correndo pela terra arada em direção à mata quando viu as luzes se acenderem e tiros foram disparados.
Os agricultores fizeram questão de nos guiar pelo caminho que a coisa fez, mostrando cada detalhe, o pelo deixado no arame farpado que ele atravessou; as marcas de patas e garras na terra arada e os arranhões nas árvores quando chegávamos próximo à mata.
De repente, um barulho começou a surgir na mata como um galope. Os arbustos começaram a se mexer. “Pronto! Agora vou conseguir fotografar o bicho”, pensei confiante na presença dos três agricultores ao nosso lado. Mas logo ouvi: “Corre!!! Sai daí!!!!!!” e os caras já estavam pulando a porteira e eu sr. Benê olhamos um pro outro quase que se despedindo, porque se o Chupa Cabra muda a dieta dele ali naquela hora, estávamos fritos, vitimados pelo Chupa Cabra, pois só tínhamos a velha Nikon (máquina fotográfica pesadinha até) como arma. Íamos morrer juntos, virar história, sair na primeira página!!!
Mas, eis que surge da mata um grande pastor alemão mestiço e passa por nós correndo atrás de um coelho, ou sei lá que pobre vítima era aquela. Não sentia nem as pernas naquela hora. Olhamos um para o outro desfazendo a cara de pânico e caímos na risada… de alívio. E nossos valentes amigos agricultores que carregaram enxadas e outro uma carabina, vieram de encontro e disseram: “Ceis são corajosos, mas tiveram sorte!” Graças a Deus, as pessoas não podem ler pensamentos, pois aqueles três foram por mim xingados de uma tal maneira que me surpreendi com os palavrões que corriam pela minha mente kkkkkkkkkkkk.
Foi uma aventura. Depois de ouvir tanta coisa sobre aquela criatura cruel, quase dar de topa com ela foi aterrorizante. Mas foi motivo de muitas histórias e boas risadas. Falamos até com uma equipe de ufólogos que veio para região fazer uma pesquisa, achando que era um ET. Bom, as histórias continuam e a lenda do Chupa Cabra ganhou fama lá fora e virou até filme.
E assim a Gazeta se faz, cheia de fatos, de histórias, mostrando o lado bom e ruim da humanidade. Dentro da nossa cidade dando as informações dos dois lados da história, para que o leitor possa ler, refletir e tirar suas conclusões…. Daí a contribuição para a formação dos cidadãos, de uma cidade melhor para o futuro.
Parabéns a todos que hoje aí trabalham, ao Tadeu e a Fátima pelo seu legado e a Lígia Ligabue e a Sara Ligabue, filhas do casal que seguiram sua vida profissional na Gazeta.
Se eu faria tudo de novo? Se 2000 mil encarnações eu tivesse, 2000 queria passar de novo pelo trabalho no Planeta Gazeta de Vargem Grande. Obrigada!

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