Dando um tempo em Vargem, escritora Carol Rodrigues fala sobre literatura e quarentena

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Carol Rodrigues é autora de “Sem Vista para o Mar”. Foto: Reportagem

A escritora Carol Rodrigues, 35 anos a ser comemorados neste mês de julho, que está passando uns dias em Vargem Grande do Sul, deu entrevista à Gazeta de Vargem Grande e falou sobre seu livro de contos “Sem Vista para o Mar”, Selo Edith, 2014, ganhador dos prêmios Jabuti e da Fundação Biblioteca Nacional (Prêmio Clarice Lispector). Também comentou sobre os efeitos da quarentena a que está submetida desde 15 de março em um apartamento em São Paulo, de onde saiu para passar uns dias no interior.
Formada em Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos, a escritora é natural do Rio de Janeiro, nascida no bairro da Tijuca e disse que esta vinda para Vargem Grande do Sul foi muito boa. Emocionou-se ao ver um tucano sobrevoando a residência em que está e disse que estava com saudade de pisar na terra e olhar o céu.
Comentando sobre o livro que contém 21 contos curtos, falou que todos têm uma trama onde os personagens estão sempre se deslocando, fugindo para o interior do Brasil. “São várias histórias com tipos de fugas diferentes. Peguei o mapa rodoviário de São Paulo e fui brincando com as estradas, os locais, os nomes das cidades, até chegar no limite deste mapa. Inventamos para criar”, ressaltou a respeito da sua criação literária.
O livro foi lançado por uma editora pequena, as pessoas que o liam eram mais próximas de Carol, mas com a premiação houve mais visibilidade e a escritora começou a receber mensagens de todo o Brasil. “Leitores me contando as impressões do livro foi a parte mais gratificante de tudo”, afirmou.
O Prêmio Jabuti é o mais tradicional prêmio literário do Brasil, concedido pela Câmara Brasileira do Livro e foi criado em 1959 com a finalidade de premiar autores de várias categorias literárias que mais se destacassem a cada ano.
“Sempre escrevi, mas nunca me imaginei sendo escritora, algo distante, inatingível”, comentou. Para Carol, o que a influenciou a escrever foi a oficina de escrita criativa da qual ela participou em São Paulo junto com o escritor Marcelino Freire. “Quando compartilhamos mais nossas escritas, vamos nos sentindo mais incentivados e ganhamos mais segurança para escrever e publicar”, disse.
A opção pelo conto no seu primeiro livro, segundo a escritora, não foi planejada. “Na oficina fazemos exercícios de textos curtos e sempre fui leitora de contos, que é um gênero intenso, não pode ser frouxe e isso me atraiu”, explicou.
Carol Rodrigues lançou um segundo livro, um romance no fim do ano passado intitulado “O melindre nos dentes da besta” pela Editora 7 Letras. O livro tomou forma depois que ela fez uma residência na Bahia, em Itaparica e versa sobre uma ilha onde as pessoas não falam. Quando chega no local um estrangeiro ele vai descobrindo porque isso acontece. “Gostei, achei completamente diferente”, falou sobre a experiência de escrever um romance.
Trabalhando atualmente como curadora de eventos de literatura na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo, disse que quando possível, pretendia conhecer a biblioteca de Vargem, que leva o nome do cineasta Lima Barreto.
Ainda muito ciosa com os cuidados que a covid 19 exige, usando sempre máscara mesmo estando em casa, aos poucos Carol Rodrigues começa a se desvencilhar das clausuras que a doença impõe a todos, se permitindo a alguns passeios pela cidade. “Quando pisamos a terra, relaxamos, descarregamos muitas energias. Estou bem acolhida, parece que estou de férias de um pesadelo”, comentou.
Com toda tranquilidade que a pequena cidade do interior oferece, mesmo nestes tempos de pandemia, ela torce que não venha uma onda da doença para cá, pois ainda tem receio da contaminação e carrega um pouco dos traumas de quem vive numa cidade grande como São Paulo, onde o coronavírus faz tantas mortes.
Indagada sobre como vê o futuro, acredita que a vida vai mudar. “Vamos ainda demorar algum tempo até a vacina ser produzida e ter seus efeitos. Acho difícil ver novamente uma sala cheia de pessoas. Acredito que os eventos pela internet vieram para ficar”, lamentou a autora de “Sem Vista para o Mar”.

O último rinoceronte branco

por Carol rodrigues
Cecília não quer mais falar com humanos. E não quer mais ver enquanto ver for o oposto de tocar. Cecília vai ao jardim. Os pingos da chuva deixaram um buracão na terra, fundo como o rastro da pata do último rinoceronte branco. Poderia contemplar a sua ausência no molde do barro. Mas Cecília precisa tocar. Mete os cinco dedos. Espera que alguma mensagem chegue neles como o raio conversa com a árvore. Sente passando pelo polegar uma coisa viva e mole e gelada. Minhoca tem rosto? E se tiver, como é? Cecília espera num sorriso cego. A minhoca agora toca o indicador. Cecília faz uma promessa: se a minhoca tocar o pai de todos vai ser o grande sinal, Cecília vai parar de procurar porque terá encontrado o seu novo sistema de convívio. Quase pode ouvir o zumbido dum inseto muito raro, o mais raro de todos. Quanto tempo mais? Chove de novo. E de novo para de chover e a minhoca ainda não tocou no pai de todos. É noite. Cecília continua de cócoras e os dedos desfeitos na terra. Até que foram poucas as câimbras. Passaram tatus e aranhas. Sentiu tremores e pensou em vulcões. A lua puxa a grande nuvem como um cobertor ou ainda um letreiro, só que sem aviso nenhum. E num soluço ela sente, é agora, uma carninha molenga toca mesmo a ponta do seu dedo maior. Não quer pensar mas pensa que: pode não ser a mesma minhoca, pode ser outra minhoca. Pode ser ainda uma cobra e assim não vai valer. Vai ter que recomeçar o novo sistema de convívio, mas amanhã. Cecília se levanta, os joelhos estalam, vai à cozinha, lava a mão e olha, olha muito a própria palma de mão recém-colhida sob a luz amarela de uma lâmpada só. Cecília não quer ver a linha da vida, nem do amor, é outra coisa.

 

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