O papel do vice-prefeito na política de Vargem Grande

0
709

Tadeu Fernando Ligabue
Sempre que as eleições vão chegando, com os políticos se preparando para disputá-las, uma vez definido quem vai ser candidato a prefeito, a escolha do vice vira uma verdadeira novela. Se o candidato a prefeito está bem na fita, o vice torna-se um problema, pois muitos vão cobiçar o cargo e dependendo da escolha, pode ou não afetar uma candidatura já bem posta.
Se o candidato a prefeito não está tão popular assim e com poucos votos, numa situação com chances grandes de perder o pleito, a escolha do vice também é muito importante, pois se o escolhido for alguém que consegue puxar votos, as chances do candidato a prefeito aumentam consideravelmente.
Embora seja cantado em prosa e verso que quem escolhe o vice são os partidos, a coligação, os companheiros, etc e tal, na verdade quem bate o martelo é o próprio candidato a prefeito, é ele quem sabe quais são suas reais chances e o estrago ou benefício que o vice escolhido vai proporcionar à sua candidatura. Portanto, a palavra final é dele, que geralmente já tem em mente quem será seu vice e trabalha nos bastidores para que seus comandados o apontem ou votem nele na hora da escolha.
O cargo de vice está assegurado no artigo 79 da Constituição Federal que versa sobre o papel do vice-presidente da República, estabelecendo que o vice sucede definitivamente o presidente quando este morre, renuncia ou é removido do cargo. O mesmo vale para o cargo de vice-prefeito. A Lei Orgânica Municipal no seu art. 58 afirma que cabe ao vice-prefeito, substituir o prefeito nos casos de impedimento e licença e suceder-lhe no caso de vaga e também poderá auxiliar o prefeito na administração pública sempre que por este convocado. O vice-prefeito pode ser nomeado para a função de secretário municipal, desde que opte por uma das remunerações a que tem direito.

Eduardo Taú é candidato a vice na chapa de Rossi PSD. Foto: Divulgação

Questão dos vices atuais
Nas recentes convenções realizadas pelos dois candidatos a prefeito de Vargem Grande do Sul no próximo dia 15 de novembro, novamente veio à baila o problema da escolha do vice. Rossi, candidato a prefeito pelo PSD desde que começou a trabalhar sua candidatura, já pensava certamente no seu vice e buscou entre lideranças políticas, empresariais, vereadores, quem poderia assumir o papel e lhe proporcionar mais votos.
Não obteve muito sucesso num vice ideal para ele, como seria por exemplo, o vereador Fernando Corretor, bem popular nos bairros ou um empresário de envergadura na cidade que pudesse dar peso e confiabilidade na sua candidatura.
Acabou por definir o jovem empresário Eduardo Gonçalves Taú, praticamente desconhecido na política, o que pode ser um benefício, pois não teria um passado na política que lhe pode causar algum constrangimento, mas, também por ser novato, não seria tão conhecido e consequentemente, não acrescentaria tantos votos ao candidato Rossi. Há de ressaltar a formação de novas lideranças políticas com tal atitude.
Já a questão envolvendo o vice de Amarildo foi mais polêmica. O atual prefeito, candidato à reeleição, tinha em mãos dados que lhe davam uma certa folga no embate eleitoral que se avizinha e a questão do vice deveria ser bem encaminhada.
A possibilidade do ex-prefeito Celso Ribeiro também vir a disputar o pleito era uma questão relevante para não dividir os votos de Amarildo, pois ambos tinham o mesmo perfil do eleitorado. Uma divisão beneficiaria a candidatura de Rossi.
Tanto que meses atrás, já teria havido uma conversa entre ambos sobre as possibilidades das eleições deste ano, conforme noticiou a Gazeta de Vargem Grande na edição do dia 4 de abril, na sua coluna Painel.
Segundo o Painel, Amarildo teria procurado Celso que dias depois esteve no seu gabinete e certamente a questão das eleições municipais foi objeto das conversações entre os dois.
No mesmo dia 4, a edição do jornal noticiou que Celso Ribeiro tinha se filiado no partido Podemos e ele afirmou na ocasião que “a filiação tem como objetivo se colocar à disposição para que nas próximas eleições municipais tenham um bom time para enfrentar as dificuldades que vem pela frente”. Indagado na ocasião se seria candidato a prefeito neste ano, ele desconversou e disse que naquele momento o principal era a saúde das pessoas, devido ao coronavírus e aos problemas sociais e econômicos que poderiam advir depois da quarentena.

Celso Ribeiro (PODEMOS) é o candidato a vice na chapa de Amarildo PSDB

Celso colocou um bode no meio da sala
A questão do vice de Amarildo começou a tomar outros rumos, com vários candidatos se colocando e a indefinição se Celso seria ou não candidato a prefeito estava no ar. Pressentindo que havia dificuldade em ter seu nome como vice bancado por Amarildo, numa jogada política, o ex-prefeito Celso Ribeiro deu entrevista ao jornal Gazeta de Vargem Grande ao ser entrevistado sobre as convenções municipais, afirmando que seria candidato a prefeito pelo Podemos, conforme manchete da edição do dia 29 de agosto.
O jornal cumpriu sua função de informar aos seus leitores, pois afinal, o ex-prefeito foi taxativo que seria candidato a prefeito e não competia ao jornal questionar sua atitude.
No jargão político, a atitude de Celso Ribeiro é tida como alguém que “coloca o bode na sala” para ver o que acontece. Ao afirmar ao jornal que era candidato a prefeito, Celso conseguiu polemizar a questão e certamente preocupar o prefeito Amarildo e seu entorno com a questão, pois todos sabiam que o ex-prefeito teria condições de disputar o pleito e mesmo que com uma candidatura assumida de última hora, Ribeiro seria um oponente respeitável.
Amarildo não gostou nada da ideia de Celso Ribeiro lançar sua candidatura, mas o bode já estava dentro da sala e o negócio era retirá-lo. Muitas conversações foram realizadas, Celso certamente sentiu que sua candidatura poderia dividir os votos e beneficiar Rossi, amigos e correligionários de ambos se manifestaram pela união dos dois e foi sacramentada a chapa Amarildo prefeito pelo PSDB e Celso Ribeiro como vice pelo Podemos, com o bode finalmente saindo de cena, ou da sala.

José Roberto Rotta é atual vice-prefeito de Vargem Grande do Sul

O atual vice Rotta
Uma das principais lideranças políticas a surgir nos últimos anos em Vargem Grande do Sul, foi eleito vereador em 2012 pelo PMDB com 2.087 votos, uma das maiores votações obtidas por um vereador no município, fez um excelente trabalho no Legislativo, o que lhe possibilitou ser candidato de Amarildo na eleição passada, se elegendo como vice, ambos obtendo 19.372 votos, ou 87,67% do total dos votos válidos, sendo que o oponente, o então prefeito Celso Itaroti obteve mesmo com a máquina na mão, tão somente 2.724 votos.
Tudo indicava que Rotta teria um bom espaço no governo de Amarildo, podendo até assumir uma diretoria ou outra função não remunerada, pois tinha qualificações e vinha de relevantes serviços prestados à comunidade, podendo citar como exemplo, o cargo de provedor do Hospital de Caridade.
Porém, não foi isso que aconteceu e não se sabe o porquê ele não deslanchou no cargo de vice, cumprindo apenas formalidades nos últimos anos do atual governo. Quando indagado a respeito, Rotta lembra a Constituição e afirma que o papel do vice de acordo com a lei é para substituir o prefeito na sua falta. Como Amarildo até hoje não se licenciou do cargo ou pelo que se tem conhecimento, não o convocou para auxiliar na administração como fala a Lei Orgânica, a figura política de Rotta não encontrou espaço para se deslanchar, o que o deve ter influenciado a nem se cogitar a sair novamente vice de Amarildo no atual quadro de reeleição do prefeito.

Celso Ribeiro como vice
Se Amarildo vencer as eleições em novembro, não se sabe qual o papel que Celso Ribeiro terá na sua administração. Se vai somar forças e contribuir com o prefeito, uma vez que traz uma grande bagagem junto à administração pública municipal, pois já foi prefeito da cidade por duas vezes, ou se vai ter o mesmo destino de Rotta.
Resta ainda a possibilidade de Amarildo buscar alçar outros voos políticos, como o de pleitear ser candidato a deputado nas eleições de 2022 ou ser convidado para assumir algum cargo junto ao governo estadual e Celso Ribeiro assumir o cargo de prefeito de Vargem. Tudo são conjecturas, pois antes, ambos têm de vencer Rossi no pleito de novembro próximo.

Ser vice é importante para chegar a prefeito?
Sem dúvida que o cargo de vice é almejado pela maioria dos políticos que buscam chegar no topo da administração municipal. Mas, na recente história política do município, apenas José Reinaldo Martins, que foi vice-prefeito de José Carlos Rossi, conseguiu se eleger prefeito em 1993. Sendo certo que apesar das qualidades do candidato, quem o elegeu foi o poder político que Rossi ostentava na época.
Houve tentativas como o vice de Homero Correia Leite, o empresário Anísio Abdalla que tentou ser prefeito na gestão seguinte e não conseguiu. Também o conhecido Zé da Kibon, que foi vice de Celso Ribeiro na gestão de 2001/2004 e tentou o Executivo na eleição seguinte, mas foi derrotado. José Ricardo Buosi, voltou novamente a ser vice de Celso Itaroti e depois se candidatou a vereador, mas não foi eleito.
Há o caso do vice Francisco Maldonado João, o Kiko, que foi vice na segunda gestão de Celso Ribeiro, em 2005/2008, e quando Celso tirou licença por apenas um mês, assumiu o cargo e hoje seu nome consta como um dos prefeitos do município de Vargem Grande do Sul.
Já houve casos na história política local, onde depois de ser prefeito, o político volta a ser vice em outra chapa, como hoje o ex-prefeito Celso Ribeiro é de Amarildo. Foi o caso do industrial Nestor Bolonha que foi prefeito de Vargem entre 1964/69 e foi vice do então candidato a prefeito Huber Braz Cossi que foi eleito em 1973/77. O hoje candidato a prefeito José Carlos Rossi também já se elegeu vice na chapa que compôs para disputar o pleito em 1997, quando sua então esposa Maria Denira Tavares Rossi saiu na cabeça da chapa e foi eleita a primeira prefeita mulher de Vargem Grande do Sul.
Enfim, a figura do vice é bem emblemática na política brasileira e há até questionamentos se de fato é necessário no país a figura do vice, pois num país pobre como o nosso, se somarmos os salários dos vice-prefeitos, vice-governadores e vice-presidente da República, chega-se a uma soma nada desprezível, afinal são mais de 5.500 municípios brasileiros e cada um ostenta um vice-prefeito.
Segundo o deputado Vicente Cândido (PT-SP) que como relator da reforma política no ano passado propôs o fim do cargo de vice, ele é ocupado hoje por 6 mil políticos e custa meio bilhão de reais por ano. A proposta do deputado foi derrotada.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor insira seu comentário
Por favor insira seu nome aqui