Cíntia, 31 anos, nome fictício, contou à reportagem da Gazeta de Vargem Grande como o vício no Jogo do Tigrinho, em menos de um ano, consumiu suas finanças, sua saúde física e mental e a levou a um estado de autodestruição profundo. “Eu tentei tirar minha vida três vezes”, disse. Em recuperação, ela relatou que ainda não parou de jogar completamente, mas tem vivido dias melhores e faz um alerta. “Nunca tente a primeira vez. Não aperta o botão”.
O primeiro contato com o jogo ocorreu em janeiro de 2025. “Sempre fui centrada em relação a dinheiro, odiava qualquer tipo de aposta.” Apesar disso, já havia baixado aplicativos de jogos, mas não se interessava por não entender como funcionavam. A mudança aconteceu quando o então marido lhe mostrou uma suposta estratégia. Com um depósito inicial de R$ 10,00 ela ganhou R$ 30,00. “Fiquei muito feliz. Achei que tinha aprendido como o jogo funcionava”. A pequena vitória criou a ilusão de controle e tornou as apostas mais atraentes.
O cenário piorou quando veio o desemprego. Sem renda fixa, Cíntia tentou retomar antigas atividades comerciais, vendendo material escolar e tênis, mas teve a mercadoria roubada. Sem dinheiro e com muito tempo livre em casa, voltou a jogar. Em fevereiro, conseguiu uma sequência de apostas que resultou em um prêmio de R$ 3 mil. “Eu não tinha visto o quanto eu já tinha depositado. Só fazia o Pix e ia jogando. Quando subiu para R$ 3 mil, foi um sonho. Pensei que ia resolver minha vida”. Ela sacou metade do valor e deixou o restante no jogo, acreditando que poderia ganhar ainda mais.
A partir daí, passou a buscar novas plataformas, retirando e redistribuindo o dinheiro entre elas. “Depois disso, foi ladeira abaixo”, admitiu. O vício atingiu um ponto crítico quando Cíntia utilizou, sem perceber, o dinheiro do irmão aposentado, que ela administrava. Todo o montante foi usado em apostas. “Fui fazer um Pix e deu saldo inválido. A conta tinha R$ 20 mil. Quando vi que não tinha nada, entrei em desespero”. Sem recursos para devolver o valor, mergulhou ainda mais fundo no jogo, ela voltou a usar drogas, após um histórico anterior de dependência química.
“Eu pesava 60 quilos e perdi 20”, contou. Todo dinheiro que entrava na conta era imediatamente destinado às apostas. “O desespero era tão grande de devolver os R$ 20 mil que qualquer valor que caía eu depositava”. Para ela, o funcionamento do jogo se aproveita do estado emocional do jogador. “É jogo de azar. A máquina percebe que você está em desespero e nunca mais te paga.” Mesmo assim, Cíntia continuava. “Eu apertava o botão e entrava em pânico. O dinheiro da internet, da casa, tudo já tinha ido”, recordou.
Com o passar dos meses, o vício passou a dominar completamente sua rotina. Ela parou de comer, quase não dormia e perdeu vínculos afetivos com amigos e familiares. “Eu fechava o olho às 7h e às 9h já acordava em desespero para tentar recuperar o dinheiro”. Ela fazia trabalhos como motoboy, mas usava o dinheiro das corridas para jogar. “Eu mentia, dizia que meu filho estava doente. As pessoas confiavam em mim”, contou. O celular se tornou uma prisão. “Eu não escutava ninguém. Andava com o celular 24 horas. Parei de tomar banho. Meu dente era perfeito, hoje está todo quebrado.”
O fundo do poço veio com as tentativas de tirar a própria vida. “Eu só não consegui porque cheguei na minha mãe”. A família foi essencial para Cíntia. “Eles sabem o que é um vício. Me apoiaram, cuidaram de mim”, disse, Apesar de prometer que não jogaria mais, a falta de perspectivas e o desemprego a levaram a recaídas. Por duas vezes, contraiu empréstimos com agiota. “Estou pagando o triplo”, afirmou.
Hoje, Cíntia reconhece os danos causados, especialmente para a mãe e para o filho, de 6 anos. “Os planos que eu tinha foram por água abaixo”, lamentou. Ela conseguiu um emprego e afirma que não faz mais depósitos nas plataformas. “Não passo noites em claro. É um dia após o outro. Não estou 100% liberta, mas 90% eu estou”. Ainda assim, admite que continua jogando com os bônus disponibilizados pelos jogos.
O alerta de Cíntia é de alguém que conheceu o poder de destruição do jogo online. “O Tigrinho me dominou de uma forma que eu não consigo explicar. Foi a pior coisa que conheci”, disse. E seu apelo é para todos: “Não começa. Não aperta o botão”.












