
A Gazeta de Vargem Grande procurou a prefeitura para saber como anda a procura pelos serviços públicos por pessoas que relatam ter vício em jogos. A psicóloga e coordenadora de Saúde Mental da prefeitura, Priscila Rita Massini Lupianez Manzoni, respondeu ao jornal, explicando a questão da ludopatia e como o Sistema Único de Saúde pode ajudar.
“O crescimento acelerado das apostas online no Brasil trouxe à tona um problema de saúde pública ainda pouco discutido: o Transtorno do Jogo ou Ludopatia, que é uma dependência comportamental caracterizada pelo impulso incontrolável de apostar. Essa compulsão pode ser comparada com dependência química. O que começa como entretenimento pode evoluir para comportamento compulsivo (difícil de controlar), com graves impactos na saúde mental, na vida familiar, no trabalho e na situação financeira das pessoas”, observou.
“O vício em apostas é reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um transtorno mental, caracterizado pela perda do controle, pela necessidade de apostar valores cada vez maiores e pela persistência no comportamento mesmo diante de prejuízos evidentes. Ansiedade, depressão, endividamento, conflitos familiares e, em casos mais graves, ideação suicida, são consequências frequentemente associadas”, disse.
“Um fator preocupante é que as apostas online estão disponíveis 24 horas por dia, com forte apelo publicitário, promessas de ganho fácil e mecanismos que estimulam o uso contínuo, acessível a todos. Jovens, pessoas em sofrimento emocional, desempregadas ou em situação de vulnerabilidade social tornam-se ainda mais expostas a esse risco”, pontuou a psicóloga.
O papel do SUS
Segundo Priscila, nos serviços de Saúde Mental do município, tem sido recebida uma demanda bastante significativa de pessoas que estão tendo problemas com o vício em jogos.
“O cuidado às pessoas com sofrimento psíquico relacionado ao vício em apostas é realizado no CAPS e no SASP. Nesses serviços, os usuários encontram acompanhamento multiprofissional, com escuta qualificada, atendimento psicológico e atendimento psiquiátrico, além de grupos terapêuticos que ajudam no fortalecimento da autonomia e na reconstrução dos vínculos sociais”, informou.
“O tratamento não se limita à simples interrupção do comportamento de apostar. Ele envolve: identificação de causas emocionais associadas ao vício; fortalecimento da rede de apoio familiar e social; manejo de transtornos associados, como ansiedade e depressão; e ações de redução de danos e prevenção de recaídas”, comentou.
Prevenção, informação e responsabilidade coletiva
“Falar sobre o vício em apostas é essencial para quebrar estigmas e ampliar acesso ao cuidado. O CAPS e o SASP, juntamente das UBS’s atuam no tratamento e na promoção da saúde e prevenção. É fundamental compreender o transtorno do jogo é um quadro que se apresenta com frequência nos dias de hoje e exige acolhimento e tratamento adequado para a saúde mental das pessoas”, disse.
A psicóloga pontuou ainda que entre as recomendações para os jovens e famílias para reflexão e alerta estão: Desconfie de promessas de dinheiro fácil: apostas não são investimentos. As plataformas são feitas para que a maioria perca. Cuidado com o “só mais uma vez” – a sensação de quase ganhar estimula a continuar apostando e pode levar à compulsão. Não aposte para aliviar ansiedade, tristeza, tédio – apostar para esquecer problemas aumenta o risco de dependência e sofrimento emocional.
Também orienta: Evite apostas online frequentes e solitárias – quanto mais tempo sozinho conectado, mais risco de perder o controle. Se percebeu perda do controle, procure ajuda – conversar com alguém, buscar uma UBS ou CAPS pode evitar problemas maiores. Destacou também que é importante conversar sobre isso, abertamente, em famílias. “Escuta e diálogo aproximam e protegem”, afirmou.
A especialista também elencou sinais de alerta: Dívidas repentinas ou pedidos frequentes de dinheiro; Mentiras sobre gastos ou tempo de celular; Quedas no rendimento escolar ou profissional; Normalização de apostas como lazer inofensivo.
“O vício em apostas é um problema de saúde mental que pode afetar qualquer pessoa que se exponha a estes comportamentos com frequência. Informação, diálogo e acesso ao cuidado são as melhores formas de prevenção”, disse.











