Longe de casa, trabalhadores rurais enfrentam desafios na safra

Reprodução Internet

Todos os anos, a safra de inverno da batata que ocorre de julho a outubro, traz a Vargem Grande do Sul trabalhadores de diferentes estados do Nordeste em busca de oportunidades de emprego. Longe de casa e da família, eles ajudam a movimentar uma das principais atividades econômicas do município, que é conhecido nacionalmente pela produção do tubérculo.
São mais de oito milhões de sacas de batata de 50kg a serem colhidas na região de Vargem durante a safra de inverno e a participação destes trabalhadores é fundamental para que isso ocorra. Além de colher as batatas, eles também trabalham no beneficiamento do produto, oferecendo uma mão de obra cada vez mais escassa no município e na região. São centenas de trabalhadores que todos os anos aportam na cidade para esta finalidade.
Neste ano, porém, o Super El Niño impactou as lavouras. As chuvas prejudicaram a colheita e diminuíram a oferta de serviço principalmente no final da safra, tornando ainda mais difícil a rotina de quem depende da safra para garantir o sustento.
Mesmo com a adversidade deste ano, segundo apurou a reportagem do jornal junto ao Condomínio dos Produtores Rurais de Vargem Grande do Sul presidido por Lenoir dos Santos, produtor de batata e responsável pela administração da entidade, em setembro foram injetados cerca de R$ 500 mil por semana, pago a aproximadamente 650 trabalhadores da safra registrados no Condomínio, sendo que destes, 50% vieram de outros estados e 50% são de Vargem Grande do Sul.
O dinheiro, cerca de R$ 2 milhões por mês só de folha de pagamento, circula na cidade e ajuda a movimentar a economia do município. A média salarial destes trabalhadores é de R$ 3.100,00 por mês, quando tudo corre bem, mas os mais experientes chegam a tirar entre R$ 1.600,00 a R$ 1.700,00 por semana, o que pode elevar o salário para mais de R$ 6.000,00 por mês.
Além destes vencimentos, no final da safra há o acerto entre os catadores de batata, o que inclui 13º salário, Fundo de Garantia e 1/3 das férias, proporcionais aos meses trabalhados, cerca de 100 dias em média. Com este dinheiro, os trabalhadores gastam na cidade para sua manutenção, muitos fazem suas reservas monetárias para quando voltarem para seus lares e levam muitas compras como roupas, celulares e eletrodomésticos para suas famílias.
O plantio hoje da batata em Vargem e região está totalmente mecanizado, segundo apurou o jornal, bem como o carregamento das sacas, que antigamente usava muito a figura do ‘chapa’, função hoje praticamente inexistente. Porém, a colheita continua sendo manual, mas já avança para a colheita mecanizada, havendo na região cerca de 10 colheitadeiras já trabalhando, com uma máquina suprindo a necessidade de 40 trabalhadores.

Trabalhadores contam suas experiências

Natural do Pernambuco, Cícero Silvino dos Santos deixou a família para trabalhar na safra da batata.
fotos: Gazeta de Vargem Grande

A reportagem da Gazeta de Vargem Grande procurou ouvir a história destes trabalhadores rurais. É o caso de Cícero Silvino dos Santos, de 48 anos, natural de Pesqueira, município localizado no agreste de Pernambuco. Esta é a nona safra em que ele vem a Vargem Grande do Sul para trabalhar. Desde julho, divide um alojamento no Jardim Ferri com outros 11 colegas, enquanto a esposa, os três filhos e os pais permanecem em sua cidade natal. “A gente tem que trabalhar para arrumar alguma coisa para sobreviver”, resume.
Neste ano, a expectativa do lavrador em conseguir uma boa renda durante a temporada esbarrou nas condições climáticas. De acordo com Cícero, as chuvas prejudicaram a colheita e reduziram os dias de trabalho. Neste final de safra, devido às chuvas que proporcionam muitas vezes serviço em apenas um dia da semana, ele já planeja voltar para Pernambuco em breve. “No meu ponto de vista, a safra deste ano está fraca”, avalia.
Ele explica que pretende viajar assim que tiver a baixa na carteira de trabalho. “Não dá para nós ficarmos aqui com uma safra desse jeito. Só chovendo e nós trabalhando apenas um dia da semana não dá não!”, afirma.

EMPREGO E HOSPITALIDADE

A experiência acumulada nas nove safras também permitiu a Cícero comparar a realidade de Pesqueira com a de Vargem Grande do Sul. Embora considere sua cidade natal um bom lugar para viver, ele destaca a dificuldade de encontrar emprego por lá. “Lá, o serviço é pouco. Aqui é melhor”, diz.
Além das oportunidades de trabalho, Cícero elogia a receptividade do povo vargengrandense e também a qualidade de vida do município. “Aqui é uma cidade boa de morar. Tem pessoas boas e muito respeito. O pessoal daqui é muito bom”, destaca.

“AQUI TEM SERVIÇO”

Francisco Lucas Rodrigues da Silva veio do Ceará e divide
alojamento com colegas de outros estados.
fotos: Gazeta de Vargem Grande

Aos 28 anos, Francisco Lucas Rodrigues da Silva também faz parte do grupo de trabalhadores que deixou sua terra natal para buscar emprego na safra da batata em Vargem Grande do Sul. Natural de Pedra Branca, no Ceará, ele é casado e está na cidade pela segunda vez para trabalhar nas lavouras.
Apesar das dificuldades provocadas pelas chuvas, o lavrador avalia que a safra está boa e afirma que foi possível ganhar dinheiro com o trabalho no campo. Contudo, ele reconhece que o clima atrapalhou a colheita e trouxe desafios à rotina dos trabalhadores.
Com cerca de 40 mil habitantes, Pedra Branca tem população semelhante à de Vargem Grande do Sul, que soma pouco mais de 41 mil moradores, segundo dados do último Censo. Apesar da proximidade no número de habitantes, Francisco aponta diferenças entre os dois municípios, principalmente em relação às oportunidades de emprego. “É diferente, né? Aqui tem serviço, lá não tem”, conta.

RESILIÊNCIA

As histórias de Cícero e Francisco representam a realidade de muitos trabalhadores que percorrem longas distâncias para participar da safra da batata. Em busca de renda para suas famílias, eles enfrentam a saudade, dividem alojamentos e dependem das condições do campo para permanecer empregados. Neste ano, as chuvas acrescentam mais um obstáculo a essa jornada, mostrando que, por trás da produção que movimenta o município, existem pessoas resilientes e que, mesmo com as dificuldades enfrentadas, ainda estão dispostas a buscarem novas oportunidades e, consequentemente, impulsionar o desenvolvimento da bataticultura vargengrandense.

 

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