Ana Luiza Loyola
A cozinha estava tomada por um aroma delicioso que avisava ter alguma coisa muito gostosa estava sendo assada ali. Matilde, a empregada da casa, tentava fazer com rapidez a retirada das entranhas de dentro de um peru, pois era véspera de Natal e a preparação da ceia era um trabalho que tinha de ser feito com certa rapidez, já que eram muitos os pratos especiais que ela sempre preparava para a ocasião.
Matilde estava com as mãos no peru, mas a sua atenção estava no
forno. Sua preocupação eram as rosquinhas assando. Tinha pavor destas rosquinhas. Elas exigiam um tempo certinho de forno e se deixasse passar um minuto que fosse, a coisa ia “pro beleléu”, ou como dizia a sua patroa: “ficava intragável, portanto cuidado!”
A patroa era exigente, mas Matilde gostava do trabalho e de cuidar da casa e cozinhar. Nem mesmo o enorme trabalho que o Natal causava, tirava o ânimo dela. No Natal passado fora assim, mas neste Natal havia algo errado.
“Gente!!! Que loucura! Outro Natal…só que agora já não tenho mais o pai para comer o almoço de Natal comigo. Coitadinho dele… foi morrer logo da tal da amaldiçoada Covid… mas é bom eu não fica aqui matutando…pensando nele…desse jeito, se eu ficar agarradinha na tristeza, deixo as rosquinhas queimarem. Deus me livre e guarde! Mas, a vontade que sinto é de sentar nessa cadeira aí e chorar, chorar… Ia deixar sair muita lágrima…é um rio de saudades que está dentro de mim… como me pesa este rio de tão cheio d’água…. já fez um mês que ele morreu e eu não deixei o rio escapar, desaguar pra fora de mim…bom, eu estou no trabalho e não posso agora, né? Deixa de besteira, uai…vou usar o tempo de serviço pra chorar, vou? Num faço isso, de jeito nenhum!!! Tenho coisas demais pra fazer: vou ter que amassar a massa, descascar batata, cenoura, beterraba e mais coisas… limpar, temperar e assar este bendito peru… Não vou pensar mais nele. Vou deixar de besteira e de querer chorar… Eita! …não se pode usar o tempo de serviço para chorar, a patroa paga pouco mas é gente boa… no Natal passado, deu um frango para eu fazer no meu almoço de Natal com o pai e ainda deu um tanto de rosquinha para eu levar…ai, minha Nossa Senhora! Por que fui lembrar do almoço do Natal do ano passado? Ai, ai…foi um Natal feliz…um franguinho que fiz com tanto amor…meu pai comeu com gosto…riu quando dei as rosquinhas e contei o quanto tinha ódio delas porque elas podiam queimar se não vigiasse cada minuto. Não vou pensa mais nele, não vou. Não posso pensa mais nele. Já foi, já passou. Todo mundo morre, não morre? A mãe acabou morrendo, também se foi…e eu nem cheguei a conhecer, morreu quando nasci…o pai que me criou. Pai levava eu quando ia trabalhar. Tadinho! Ia comigo para o seu trabalho de “boia-fria” e me contou que eu era bebezinha ainda. Ele, enquanto trabalhava, me deixava enroladinha debaixo de uma árvore. Quando eu ia ficando um pouquinho longe, ele vinha de volta e pegava o “seu embrulhinho” e levava para mais perto dele. “Seu embrulhinho” era como os amigos dele brincavam de me chamar porque ele me embrulhava toda…pai ia me colocando mais perto dele se ficasse longe. Ô!!! Por que ele se foi? Se o tempo pudesse voltar… Por que a gente morre??? Este Natal vou dar o frango para minha vizinha, nem quero lembrar mais e chorar mais. Não vou pensar mais nele, ele era bonito, não casou de novo porque não quis mesmo! Agora já estava velhinho, isto é verdade, mas não velho para morrer. Isto não!!! Era forte como um touro. Por que a gente morre?
Por que é que a gente tem que morrer??? Por quê, meu Deus??? Ele podia ficar lá, velhinho, quietinho, eu fazia tudo que ele precisasse…eu ia almoçar amanhã com ele, um franguinho frito…”
- Matilde!!! Você enlouqueceu!!! A cozinha tá que é só fumaça e você sentada chorando??? As rosquinhas viraram carvão! Está despedida, agora, já!
Ana Luiza Loyola, professora literatura portuguesa/brasileira. Atualmente,
cursa psicologia de forma presencial e psiquiatria à distância












