Tadeu Fernando Ligabue
Acredito que esta é a sexta vez que vou pescar tucunaré-açu no Rio Negro, na Amazônia. Sempre fui com os companheiros em um barco grande, que acomoda mais de dez pescadores que depois saem nas ‘voadeiras’ com os guias de pesca para bater os maiores tucunarés do planeta, o cichla temensis.
O ponto de partida geralmente é a cidade de Barcelos, intitulada a ‘Capital internacional da pesca esportiva’ e construída às margens do Rio Negro. Cidade pequena, que foi a primeira capital da província do Amazonas antes de ser transferida para Manaus.
Hoje, pescar nos grandes barcos ficou meio que proibitivo para mim, os custos se elevaram muito e a alternativa foi fazer uma pescaria mais raiz, pescando e acampando ao longo do Rio Negro, principalmente em alguns de seus afluentes e nos lagos que se formam no meio da mata.
Já tinha conhecido o Bigode antes, na última pescaria que realizamos juntos no Rio Alegria e depois de ficarmos um bom tempo trocando ideias, marcamos uma pescaria onde ele seria o guia, pois é profundo conhecedor da área e iríamos no seu barco de cinco metros e um motor Mercury de 30hp, uma senhora aventura em se tratando de pesca na Amazônia.
Para baratear os custos, fui até Manaus de avião e peguei o barco expresso de Manaus a Barcelos, uma viagem que dura em torno de 12 horas. Saí de Vargem na terça-feira, dia 9 de janeiro com destino a Manaus, via aeroporto de Campinas. Pousei na capital amazônica e na quarta-feira de manhãzinha tomei rumo a Barcelos, onde cheguei ao anoitecer.
Na quinta-feira, 11 de janeiro, já iniciamos a pescaria. O planejado era que o guia Francisco Moraes Carneiro, 45 anos, o popular Bigode, iria tocar o máximo possível até o primeiro ponto de pesca, pescaríamos, almoçaríamos e o pernoite seria numa das praias de areias branquíssimas que se formam ao longo do Rio Negro. Dito e feito.
Os primeiros açus já começaram a pipocar na hélice High Roller que tanto o Bigode como eu, passamos a lançar nos lagos. Era uma maratona de jogar a isca artificial entre as galhadas, junto à barranca e também no meio, onde o guia experiente avistava as filhoteiras e a pancada era certeira quando encontrava o açuzão.
Como o combinado, iríamos pescando e acampando até chegarmos em Santa Isabel do Rio Negro, outra região famosa pelos grandes açus, onde chegamos no sábado, depois de pegarmos uma boa quantidade de tucunarés, a maioria açus, medindo mais de 70cm. Ainda foi possível capturamos no meio de um lago, dois açus com cerca de 80cm, um feito, pois já é um peixe diferenciado pelo seu tamanho e briga. Pegamos na isca de superfície T20, a famosa ‘joão pepino’.
Chegamos em Santa Isabel no sábado, eu me recuperando de uma indisposição. Preferimos ficar em uma pousada e todo dia de manhã sair para pescar e voltar a noite. Fizemos boa pescaria na região, permanecendo por três dias. Os tucunarés continuavam saindo, mas não na quantidade que esperávamos.
Terça-feira, dia 16, começamos a retornar. A distância de Santa Isabel a Barcelos é de 240km, que tínhamos de vencer no barco com um motor de 30hp, tempo que o Bigode calculava em três dias. Logo que amanhecia, o Bigode já fazia o café, cozinhava e fritava uns ovos, que comíamos com pão e partíamos para a pesca.
O amanhecer nas praias do Rio Negro é algo indescritível, só estando lá mesmo para vivenciar toda a maravilha daquela natureza. A imensidão do rio, a solidão de não se ver ninguém, embrenhar-se nas matas, buscando os lagos, é uma aventura e tanto. Sozinhos naquele ermo, sem internet, sem avistar ninguém, não é para qualquer um, tem de ter muita vontade de pescar. Só a pancada do açu na isca de superfície e a briga que se desenrola, é capaz de justificar tal ousadia.
Pescávamos até o entardecer, quando então pegava um peixe menor para fazer assado ou frito. Eu fazia o arroz e o vinagrete, o Bigode assava o peixe e depois montávamos acampamento, escolhendo uma bela praia. Eu dormia em uma barraca e meu guia na sua rede, acostumado que estava. As noites são incríveis. Sem a claridade das cidades, o céu no Rio Negro quando escurece, nos presenteia com uma infinidade de estrelas que brilham com todo o esplendor, mostrando inúmeras constelações que não conseguimos avistar nas nossas cidades. Algo que ficará imorredouro na minha mente.
Houve muitas histórias. Do peixe que arrebentou a minha linha e o Bigode conseguiu ainda capturar. Um belo açu de quase 80cm. Da isca que foi-se embora com a linha partida, dado o tamanho do bruto. Da luta contra o boto, para não pegar o tucunaré cansado que tínhamos de soltar e qualquer vacilo, o boto pegava. Do cansaço de ter arremessado tanto e já sem expectativa ao recolher a isca e vem o ataque não se sabe de onde, deixando a adrenalina a mil.
Pesquei até no sábado, 20 de janeiro, onde consegui alguns bonitos troféus na parte da manhã, já mais próximo de Barcelos. Fisgava, brigava com o peixe, filmava, fotografava e soltava com muita alegria. Assim é a pesca esportiva. Nada trouxemos de peixes, deixamos tudo lá para que outros possam também desfrutar deste esporte tão nobre. Só as inesquecíveis lembranças.
Já cansado, podia até pescar mais, no sábado à tarde e no domingo, mas estava cansado e realizado. Aproveitei um pouco a bonita praia de Barcelos, cheia de pessoas no sábado. Tomei umas cervejas, acompanhado do Bigode e mais amigos e fiquei aguardando até na segunda-feira, quando peguei novamente o barco expresso Lady Luiza para voltar a Manaus e embarcar para Campinas, chegando em Vargem na noite de quarta-feira, dia 24 de janeiro.
Foi uma das melhores pescarias que já realizei no Amazonas, não só pela vivência, como também pela quantidade e qualidade dos peixes. Abriu-se para mim, uma nova possibilidade de pesca naquele paraíso da pesca esportiva e se Deus quiser, ano que vem promete.

















