Gabi Lourenço – escritora e palestrante, atuando no universo do conhecimento há mais de 20 anos
No último domingo, dia 2 de março, o Brasil fez história ao ganhar um Oscar pela primeira vez em noventa e sete edições. O filme responsável pelo feito inédito na categoria Melhor Filme Internacional foi o impecável “Ainda Estou Aqui”, dirigido por Walter Salles e estrelado por Fernanda Torres e Selton Mello. Baseado no livro homônimo, escrito por Marcelo Rubens Paiva, o filme conta a história de sua mãe, Eunice Paiva, uma advogada que se tornou ativista política após a prisão e desaparecimento do seu marido Rubens Paiva pela ditadura militar brasileira.

A história de Eunice Paiva
Maria Lucrécia Eunice Facciolla Paiva nasceu em São Paulo, mais precisamente no bairro do Brás, no dia 7 de novembro de 1929. Sua paixão pela leitura a levou para a universidade Mackenzie, quando passou em primeiro lugar no vestibular para o curso de letras. Entretanto, chegou a brigar com seu pai pelo direito de estudar.

Em 1952, Eunice casou-se com Rubens Paiva, com quem teve 5 filhos. Rubens, que era formado em Engenharia Civil, foi eleito deputado federal em 1962, porém, com a chegada do regime militar em 1964, teve seu mandato cassado e seu destino foi o exílio na Iugoslávia. Quando retornou ao Brasil, no ano seguinte, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, no bairro do Leblon, quando atuava como diretor-gerente em uma empresa de engenharia e fundações. Em 1971, Rubens Paiva foi sequestrado e torturado até a morte por agentes do regime militar, porém, seu corpo nunca foi encontrado, o que impossibilitou que Eunice lhe prestasse suas homenagens.

A prisão de Eunice Paiva
Após a detenção de Rubens, Eunice e sua filha Eliana, que tinha apenas 15 anos, na época, também foram detidas. Por ser menor de idade, Eliana permaneceu sob custódia por apenas 24 horas, enquanto a prisão de sua mãe durou 12 dias e só teve fim por conta da exposição do caso Rubens Paiva através da fatídica carta escrita por Eliana e endereçada ao então deputado federal Pedroso Horta, que integrava o Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana na época.

No dia 2 de janeiro de 1971, o caso teve repercussão internacional, ao ter uma reportagem publicada pelo jornal norte-americano The New York Times, com base na carta de Eliana. Após essa publicação, outros veículos internacionais também divulgaram a história, e após tanta pressão, no dia 12 de fevereiro os militares soltaram Eunice Paiva. E sobre Rubens, que constava como desaparecido, até então, a família só conseguiu sua certidão de óbito, no ano de 1996, 25 anos após o seu desaparecimento.

A trajetória como ativista
Após a morte de Rubens Paiva, Eunice cursou Direito aos 47 anos e se dividia entre a faculdade e a atenção aos 5 filhos. Ao se especializar em direito indígena, no ano de 1987 ela contribuiu para a fundação do Instituto de Antropologia e Meio Ambiente (Iama), uma organização da sociedade civil voltada à defesa e autonomia dos povos indígenas que atuou até o ano de 2001.
Em 1988, Eunice foi consultora da Assembleia Nacional Constituinte, que promulgou a Constituição Federal brasileira. Também teve atuação expressiva na promulgação da Lei 9.140/1995 que “reconhece como mortas pessoas desaparecidas em razão de participação ou acusação de participação, em atividades políticas, no período de 2 de setembro de 1961 a 15 de agosto de 1979.

Eunice Paiva teve papel fundamental na proteção dos povos indígenas, especialmente os habitantes da Terra Indígena Zoró (TIZ), no Mato Grosso, que estão entre os últimos que foram contatados por não indígenas no Brasil, e passaram por invasões, conflitos, disputa por terras e até mesmo o aparecimento de doenças, até então desconhecidas por eles e que provocaram muitas mortes. A ativista e advogada, foi essencial para o processo de demarcação da Terra Indígena Zoró (TIZ). Eunice também foi pioneira ao defender a importância das populações indígenas, especialmente na preservação ambiental.
Eunice faleceu no dia 13 de dezembro de 2018, aos 86 anos, em São Paulo, após viver 14 anos com Alzheimer.












