O papel da Maçonaria na condução do Hospital

Antônio Coury assumiu como provedor do Hospital em 1965, dando início à participação da Maçonaria nos destinos do hospital. Foto: Arquivo Gazeta

Durante mais de meio século, a Loja Renascença II de Vargem Grande do Sul desempenhou um papel fundamental na condução dos destinos do Hospital de Caridade. Tudo teve início em 1965 quando assumiu como provedor o sr. Antônio Coury, que era venerável mestre da principal loja maçônica da cidade.
Muito respeitado não só na Maçonaria, como em toda a sociedade vargengrandense, desfrutava de grande amizade com o então pároco monsenhor Celestino C. Garcia, da paróquia de Sant´Ana, foi através de Antônio Coury e tendo o apoio dos membros da Loja Renascença II, que muitas obras foram realizadas no Hospital.
Conforme consta de sua biografia, ele dirigiu o Hospital durante cerca de 15 anos, no período de 1965 a 1980, realizando grandes obras, como a construção da maternidade, do centro obstétrico, da pediatria, reelaborou o estatuto da entidade e legalizou sua situação para que pudesse receber verbas estaduais e federais.


Se pegarmos a relação dos provedores do Hospital após a entrada de Antônio Coury, em 1965, vamos notar que a maioria era de maçons provenientes do quadro da Loja Renascença II. Assim temos como provedores maçons após a gestão de Antônio Coury, os senhores Alceu Morandin (1980/81), Elpídio Bignardi (1983 a 1988), Paulo Eduardo Bedin Ferrari (1989 a 1994), Antônio Paulo de Jesus Ribeiro (1995 a 1996), João Batista Garcia 1997 a 2003), Jair Spósito Gabricho (2003 a 2006, 2012 a 2014 e 2023 a 2024), José Roberto Rotta (2007 a 2012), Wilson Roberto Secco (2018 a 2020) e Wagner Vilela Cipola 2021 a 2022).
Tendo como um dos seus pilares a filantropia, a Maçonaria de Vargem através da Loja Renascença II, proveu durante décadas, os principais membros da mesa diretora do Hospital de Caridade, até o encerramento do ciclo que se deu com o último provedor maçom sendo eleito, o empresário Jair Gabricho, em 2 de janeiro de 2023, que permaneceu no cargo até o dia 31 de janeiro de 2024, quando por falta de pessoas da sociedade vargengrandense para compor uma nova chapa de diretoria, foi necessário a intervenção da prefeitura municipal que com o prefeito Amarildo Duzi Moraes na época indicando como primeiro interventor do Hospital de Caridade, Valmir Costa.
Foi um período de grandes dificuldades enfrentadas pelos provedores e os membros das suas diretorias, principalmente com o grande déficit que o Hospital de Caridade começou a acumular com o atendimento através do Sistema Único de Saúde-SUS, cuja verba envidada pelo governo federal, nunca foi suficiente para cobrir os gastos que o Hospital tinha no atendimento aos pacientes do SUS.
Foi necessário muito trabalho e espírito de fraternidade para manter o Hospital de Caridade cumprindo com sua missão. Quando Paulo Eduardo Bedin Ferrari assumiu a provedoria (1989/94), ele foi o responsável pela criação do Plano Hospital Saúde, essencial para o equilíbrio das contas do hospital. Também em sua administração teve início a Festa do Chopp, que até hoje são realizadas e os resultados ajudam a cobrir o déficit orçamentário do Hospital de Caridade.
Na entrevista que concedeu ao jornal em 26 de setembro de 2015, quando foi abordado os 90 anos do Hospital de Caridade, o empresário Jair Gabricho que tinha sido provedor durante muitos anos da instituição, falou da imensa dificuldade que teve ao assumir a entidade em 2003, dado o enorme déficit acumulado. “Essa situação era tão grave que se fosse uma empresa comum e não um Hospital, há muito já estaria fechado”, afirmou na ocasião.
Para combater a situação, Jair e sua equipe, a maioria proveniente de membros da Loja Renascença II, implantou inúmeras reformas administrativas, que possibilitaram aumentar as receitas e diminuir as despesas. A boa gestão conseguiu evitar o estado de falência e tornar o Hospital na época, uma referência regional.
Outro maçom que também ficou muito tempo à frente do Hospital de Caridade, foi José Roberto Rotta (2007/2012). Na entrevista dada na época, a questão do déficit devido ao pagamento insuficiente do SUS também foi abordado por Rotta, que lembrou que a partir de 2001 este problema só foi agravando.
“Na época era provedor da entidade o empresário João Batista Garcia, o conhecido João Bambu. O qual chegou a dar em garantia seu patrimônio particular para levantar recursos para a entidade, na expectativa de que esta seria socorrida pelo poder público, o que não aconteceu”, recordou Rotta, lembrando que a dívida na ocasião chegava a R$ 974 mil.
A dívida foi liquidada, o equilíbrio voltou, muitas obras foram realizadas, equipamentos substituídos, mas novos problemas surgiram devido à inflação e a estagnação dos pagamentos efetuados pelo Ministério da Saúde e o déficit com o SUS só aumentando.
Rotta lembrou que as verbas através das emendas parlamentares e as subvenções que a prefeitura municipal dava, “se revestiram de fundamental importância para o Hospital”, declarou na ocasião.
As dificuldades cada vez maiores em tocar o Hospital de Caridade, o déficit constante e as responsabilidades que o cargo de provedor requer, como o de colocar o patrimônio do mesmo como garantia, caso algo de errado aconteça, foi fazendo que aos poucos os membros da Loja Maçônica Renascença II ficassem cada vez mais cautelosos em assumir cargos na diretoria do Hospital.
Assim o fizeram os maçons Wilson Roberto Secco (2018/20) e Wagner Vilela Cipola 2021/22), que deram sua contribuição dirigindo o Hospital e depois de muito apelo do prefeito na ocasião, assumiu o empresário Jair Gabricho que dirigiu o Hospital de Caridade de 2023 a 2024, encerando a participação dos membros da Loja Maçônica Renascença II, como membros da diretoria do Hospital de Caridade de Vargem Grande do Sul após mais de meio século contribuindo diretamente com os destinos da maior instituição de saúde do município.

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