Editorial: Mais chuvas, mesmos problemas

A chuva do último sábado, dia 17 de janeiro, que acumulou 78,5 milímetros em poucas horas, voltou a expor um problema antigo de Vargem Grande do Sul: os alagamentos recorrentes em ruas e pontos sensíveis já conhecidos da população e das autoridades. Não se trata de um fenômeno inesperado ou isolado. Desde que a Gazeta de Vargem Grande começou a circular, em setembro de 1981, os locais afetados são praticamente os mesmos, o que mostra que o problema atravessa décadas sem solução efetiva.
Parte dessa realidade está diretamente ligada ao crescimento urbano que praticamente não seguiu nenhum planejamento ao longo dos anos. A cidade avançou sobre áreas que, por milhares de anos, funcionaram como várzeas naturais, responsáveis por absorver o excesso de água nos meses mais chuvosos. Nesses pontos, o verde foi substituído pelo concreto, com a pavimentação das ruas o solo tornou-se impermeável e os cursos naturais de drenagem não foram levados em consideração. O resultado é uma cidade – e um país inteiro – cada vez mais vulnerável a eventos climáticos.
Os dados nacionais confirmam que esse cenário tende a se agravar. Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), os episódios de chuvas intensas e concentradas têm se tornado mais frequentes no Brasil. O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) aponta que, apenas em 2023, mais de 1.100 municípios brasileiros registraram algum tipo de desastre relacionado a eventos hidrológicos. Já o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) alerta que cidades mal preparadas sofrerão impactos cada vez maiores com o aumento da intensidade das chuvas extremas.
Com os efeitos das mudanças climáticas se agravando, o poder público municipal precisa assumir o comando e adotar ações para proteger a população. Cabe à prefeitura investir em planejamento urbano, drenagem eficiente, recuperação de áreas verdes e políticas de adaptação climática. A Câmara Municipal também tem papel fundamental ao elaborar, revisar e aprovar leis que orientem um crescimento urbano mais sustentável, além de fiscalizar a execução dessas políticas.
A população, por sua vez, não pode se eximir da sua responsabilidade. O descarte irregular de lixo, a ocupação de áreas de risco e a falta de consciência ambiental agravam esse problema. Tornar Vargem mais resiliente às mudanças climáticas vai exigir uma ação conjunta, visão de longo prazo e decisões corajosas agora, para que episódios como o do último domingo deixem de ser rotina para os moradores da baixada do Rio Verde e das áreas de suas margens, para quem vive na região da rua Dona Maria Cândida e tantos outros pontos que bastou chover um pouco mais para verem suas casas invadidas pelas águas.

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