Uma mulher que aceitou falar ao jornal, contou em condição de anonimato à Gazeta de Vargem Grande que ela e o marido começaram com as apostas em 2024. Atualmente, ambos estão desempregados, com filhos pequenos e buscando reconstruir a vida. Ainda devendo a familiares, eles contam que conseguiram quitar dívidas com agiotas, mas sabem que o caminho é longo.
Ela relatou que a primeira aposta foi feita em 2024. “Ele depositou R$ 20,00 e ganhou R$ 7 mil”, recordou. “Aí ele divulgou para a família toda, distribuindo Pix do dinheiro que veio fácil, para os parentes tentar a sorte. E cada vez fazendo apostas mais altas”, comentou. Rapidamente, R$ 7 mil viraram R$ 4 mil. “Ainda assim foi motivo de muita alegria para ele e eu, pois era um dinheiro que não estávamos esperando. O plano era comprar mercadorias para nossa loja online de roupas, loja que acabou, por motivos de dívidas”, lamentou.
Mas a ganância de ganhar dinheiro pelo celular foi tanta que o marido resolveu apostar em um investimento arriscado. Ela recordou que sem contar para a família, o companheiro apostou em bitcoins, após ver uma proposta de lucros bem acima do praticado pelo mercado. “A promessa era que os R$ 4 mil virariam R$ 20 mil ou mais”, comentou ela. “Passava o dia todo conversando com o golpista que, com meia dúzia de promessas, conseguiu tirar dele os R$ 4 mil e logo em seguida o bloqueou”, disse.
Devastado com o golpe que sofrera, ele foi tomado pela urgência de recuperar o dinheiro perdido. “Naquele dia, eu notei que ele ficou decepcionado com ele mesmo e dali ele começou a sempre querer tentar ganhar alto novamente”, comentou.
Mas, o vício em aposta ganhou ainda mais força quando começou a ter contato com drogas. A adrenalina, juntamente com a sensação de prazer em ganhar dinheiro fácil, tornou a combinação perfeita do caos e destruição. “Nessa época eu também me envolvi muito com os jogos. Nunca tive um ganho alto, de mais de R$ 1 mil por exemplo, mas já ganhei R$ 700,00”, recordou, contando que esse dinheiro foi usado para que passassem uns dias no litoral.
Mas o ganho traz uma ilusão perigosa. “Essa viagem ao céu que não te oferece paraquedas, vai te levando cada vez mais longe”, explicou. Assim, ela também começou a jogar compulsivamente. “Vou depositar R$ 20,00 para ganhar R$ 50,00. Mas você perde. Aí vai depositar mais R$ 20,00 para recuperar os R$ 20,00 perdidos. E assim vai uma imensa bola de neve onde você não percebe, mas já está enterrado até o pescoço”, disse.
Com imagens coloridas e sons marcantes os jogos prendem suas vítimas nesse ciclo vicioso, a cada dia que passa. “Atrasou uma conta de força? Já sei. Vamos jogar os R$ 50,00 para virar R$ 100,00 e pagar a força, e lá se vão os R$ 50,00”, lamentou.
Mas a situação, que já estava ruim, foi se agravando. Durante um período de separação do casamento destruído pelos vícios e sob efeitos de drogas, ele chegou a pegar R$ 700,00 reais com um agiota e jogou tudo em uma noite. “Os R$ 700,00 viraram R$ 1.400, com juros”. Quando ele recebeu o salário do emprego que mantinha, tirou R$ 1.400 para o agiota. “E aí adivinha? Ficou sem pagamento. E assim, a nossa família ia se afundando cada dia mais”, recordou.
Recentemente o aparelho celular dele quebrou e, com medo de uma recaída, decidiram não consertá-lo. “E eu vivo uma luta diária contra vício, depressão e ansiedade”, disse ela. “As madrugadas em que eu pedi dinheiro, foi tudo no desespero, de pagar conta e cartão, força. Era onde eu ficava me humilhando, tentando arrumar dinheiro emprestado para apostar, devolver o que a pessoa me emprestou e ficar com o lucro e 90% das vezes deu errado e eu fiquei devendo ainda”, disse. “Eu nunca menti sobre para que era o dinheiro, se era para jogo eu falava que era pra aposta sim, nunca fui de mentir”, afirmou.
Atualmente, ela disse que segue lutando para ficar distante do jogo. “Com muita oração e autocontrole, eu consigo me manter longe. Mas basta um gatilho, como uma força atrasada, um freezer sem mistura, um filho sem fralda ou leite, que já logo vem a ideia: ‘por que você não joga?’”, disse. Ela contou que o companheiro também se esforça para se manter fora disso. “Hoje em dia ele está lutando para viver longe dos jogos, que apesar de pagar algumas vezes, te tira mil vezes mais”, contou. “Tira a dignidade, a paz e tudo que uma família precisa para se manter de pé”, afirmou.












