Dívidas, depressão e famílias em ruínas: relatos mostram danos do Jogo do Tigrinho em Vargem

Mesmo irregular no Brasil, Jogo do Tigrinho tem causado sério impacto na vida de muita gente. Foto: Divulgação

O que começou com um Pix de R$ 10,00 ou R$ 20,00 e a promessa de dinheiro fácil levou a dívidas impagáveis, isolamento, depressão e até tentativas de suicídio. Relatos colhidos pela Gazeta de Vargem Grande junto a moradores que vivem o vício em plataformas na internet, muitas delas irregulares, como o Jogo do Tigrinho – Fortune Tiger, Tigre Sortudo e Tigre Sortudo 1000, etc -, mostram como esses jogos utilizam ganhos iniciais, estímulos e recompensas pontuais para prender jogadores em um ciclo de dependência que atinge famílias e compromete a saúde mental dos envolvidos.
Histórias como as trazidas nesta edição da Gazeta revelam um padrão recorrente: o primeiro ganho traz a sensação do prazer e da recompensa e cria uma ilusão de controle. O jogo passa a ser visto como saída para dificuldades financeiras e, quando as perdas se acumulam, o desespero vira combustível para apostas cada vez mais altas. No fim, o dinheiro some junto da saúde, a culpa se instala e o celular deixa de ser entretenimento para se tornar uma prisão.
Entrevistada pela Gazeta, a psicóloga Isabela Bedin Bernardelli observou que o rápido poder de dependência dos jogos de apostas online está diretamente ligado à forma como essas plataformas são estruturadas para estimular o cérebro humano. A especialista explicou que a alternância entre perdas frequentes e ganhos ocasionais cria uma falsa sensação de esperança, levando o jogador a acreditar que a próxima aposta trará a recompensa esperada. Esse mecanismo ativa a liberação de dopamina, substância associada ao prazer e à motivação, principalmente na expectativa da vitória, e não no ganho em si, o que reforça a compulsão. Somado a isso, o fácil acesso pelo celular, a falta de regulamentação clara e a intensa divulgação nas redes sociais contribuem para normalizar o comportamento e agravar o isolamento social, tornando o vício um problema de saúde mental que exige acompanhamento profissional.

Problema nacional
Dados levantados pela Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (Uniad) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) mostram que quase 11 milhões de brasileiros com mais de 14 anos fazem uso arriscado de apostas. Esse número corresponde a 6,8% da população nessa faixa etária. O estudo também apontou que a população mais vulnerável a esse tipo de vício são os jovens, especialmente aqueles com ganhos de menos de dois salários mínimos.
O estudo ainda mostrou que um em cada oito daqueles “jogadores de risco” tem o chamado “transtorno do jogo”. Uma doença caracterizada pelo desejo incontrolável de jogar mesmo frente aos inúmeros prejuízos, conforme reportagem da CNN Brasil.
Dados do Ministério da Saúde também indicam um crescimento do vício em jogos devido às bets, que são regulamentadas. Os atendimentos ambulatoriais via Sistema Único de Saúde-SUS em todo o país, considerando os registros relacionados a doenças classificadas como “jogo patológico” e “mania de jogos de azar”, subiram de 65, em 2019, para 1.292 em 2024, conforme reportagem do Intercept Brasil.

Leia mais:

Em menos de um ano, uma vida destruída
Casal vive o drama de perder tudo no jogo
Apostas on-line no Brasil são regulamentadas desde 2025
Quando o jogo deixa de ser diversão e vira adoecimento
Psicóloga fala sobre o vício em jogos e orienta a procurar ajuda

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor insira seu comentário
Por favor insira seu nome aqui