O esporte, quando analisado além da competição, é uma ferramenta eficiente de inclusão social e desenvolvimento humano. Em Vargem Grande do Sul, o trabalho desenvolvido pelo Departamento de Esportes e Lazer, em conjunto com o Departamento de Educação, tem mostrado resultados significativos na formação de crianças, especialmente aquelas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), por meio de atividades físicas pré-esportivas, como o Mini Handebol.
De acordo com o professor de Educação Física Juliano Garcia, de 39 anos, que atua tanto na rede municipal de ensino quanto no departamento de esportes, o modelo tradicional do esporte competitivo tende a ser naturalmente seletivo. “Quando falamos em competição, pensamos nos melhores, no rendimento. Isso acaba sendo segregador. Já a atividade física pré-esportiva tem outro papel: integrar, socializar e preparar a criança para diferentes vivências”, explicou.
Um dos exemplos citados pelo professor é o do aluno Gustavo, criança com TEA que hoje atua como goleiro titular da equipe de handebol que representa o município em competições. O caminho até esse estágio, no entanto, foi construído de forma gradual. Gustavo iniciou no Mini Handebol, modalidade voltada a crianças de 5 a 10 anos, que prioriza o caráter lúdico, a experimentação de posições e a participação livre, sem cobranças técnicas ou competitivas.
Vargem Grande do Sul conta atualmente com dois polos oficiais de Mini Handebol, reconhecidos pela Confederação Brasileira de Handebol, conquista obtida há alguns anos. Nesse ambiente, Gustavo pôde vivenciar diferentes funções dentro do jogo, brincar, errar, acertar e, principalmente, se sentir pertencente ao grupo. Foi nesse processo que ele se identificou com a posição de goleiro e decidiu seguir na modalidade.
A transição para o handebol competitivo aconteceu aos 10 anos de idade, de forma cuidadosa. No primeiro ano, Gustavo atuou como goleiro reserva, acompanhando treinos, jogos e viagens, sem a pressão de ser o titular. Segundo Juliano, esse período foi fundamental para que ele entendesse a dinâmica do esporte competitivo, as cobranças naturais do jogo e a possibilidade de errar e evoluir. No ano seguinte, com a mudança de categoria do então goleiro titular, Gustavo assumiu a posição principal da equipe.
“Atualmente, ele entende que pode ser destaque em um jogo, mas também sabe que existe disputa, que pode ir para o banco se outro atleta estiver melhor. Isso ajuda não só no esporte, mas na formação para a vida. O esporte simula muito o cotidiano: pressão, responsabilidade, convivência em grupo”, ressaltou o professor.
Além de Gustavo, há um outro aluno com TEA, estudante da rede municipal e participante do Mini Handebol. Diferente do colega, Pedro apresenta um perfil mais tímido, com maior dificuldade de interação com adultos, característica observada desde os primeiros anos escolares. Sua permanência na atividade esportiva está fortemente ligada ao aspecto social, à convivência com amigos da escola e ao ambiente menos ruidoso e menos intenso do Mini Handebol.
Juliano destaca que cada criança reage de forma diferente ao esporte. Ele relata o caso de um aluno que tentou ingressar diretamente no handebol competitivo aos 11 anos, mas desistiu após apenas um treino, incomodado com o barulho da quadra, do apito e da intensidade da atividade. “Por isso não existe fórmula pronta. É caso a caso. O Mini Handebol permite essa adaptação, respeitando o tempo e o limite de cada um”, afirma.
Segundo o professor, quando a iniciação acontece antes dos 10 anos, a maioria das crianças não enxerga o esporte como obrigação ou competição, mas como brincadeira, convivência e diversão. Esse vínculo inicial, muitas vezes mediado pela amizade, é o que sustenta a permanência na atividade e possibilita, para alguns, o avanço para o esporte competitivo no futuro.












