A trajetória de Claudemir Borges Nicolo, conhecido em todo o Brasil como “Trovão”, é marcada por desafios, recomeços e perseverança. Proprietário de uma empresa especializada em peças para veículos antigos em Vargem Grande do Sul, ele construiu uma história que começou longe do sucesso que desfruta atualmente.
O apelido surgiu ainda na infância, dado pelo pai, o conhecido empresário Luís Brunetti Nicolau, já falecido, que costumava dizer que o filho fazia muito barulho, mas tinha um bom coração. “Como um trovão, que faz muito barulho, mas não faz mal”, explicou o empresário durante entrevista ao Guia do Motorista da Gazeta de Vargem Grande. Embora tenha rejeitado o nome por muitos anos, Claudemir acabou transformando o “Trovão” em uma marca reconhecida nacionalmente.

Após a morte do pai, que mantinha uma loja de móveis, ele e os irmãos assumiram os negócios da família. Com o passar do tempo, a sociedade chegou ao fim, e Claudemir passou a trabalhar com compra e venda de sucata e veículos para desmanche. Atualmente, sua loja está localizada na Rua São Pedro, nº 127, no Centro, em Vargem Grande do Sul.
A fase seguinte foi marcada por dificuldades financeiras. Ele relata ter perdido praticamente tudo em negócios malsucedidos. Em um dos momentos mais difíceis, fez uma oração pedindo apenas uma oportunidade de trabalho. Pouco tempo depois, durante um encontro de carros antigos em Águas de Lindóia, um dos maiores do país, ajudado por um amigo, realizou a venda de uma peça mecânica, um câmbio antigo, que considera o início de sua nova trajetória. Também relata a venda de um carro antigo, um Ford Del Rey, e que a partir desta venda, há cerca de 30 anos, passou a ter dinheiro no bolso.

A partir dali, começou a comercializar peças usadas em feiras de antigomobilismo. Sem conhecimento aprofundado sobre o mercado, aprendeu na prática o valor dos componentes e passou a investir cada vez mais no segmento. O que começou com algumas caixas de peças transformou-se em um negócio em constante expansão. Descreve o primeiro evento de carros antigos que participou e que vendeu R$ 1.200,00 em peças, como lucro, comprou um ônibus antigo e passou a rodar com ele em eventos nas cidades de São Pedro e Águas de Lindoia, comercializando peças antigas.

O próximo passo foi comprar uma carreta antiga, e passou a frequentar outros eventos em cidades como Olímpia, Franca, esteve no Rio de Janeiro, os negócios começaram a ir bem e ele iniciou a fazer um estoque. Cita que passou a conhecer o valor das peças, a estudar sobre o assunto e colecionar livros sobre o ramo de trabalho. Por esta época, passou a conhecer mais gente do meio, incluindo outros vendedores e colecionadores.
Ao longo dos anos, enfrentou novos obstáculos. Passou por problemas de saúde que chegaram a comprometer sua visão, enfrentou prejuízos, assaltos e períodos de extrema dificuldade, principalmente na cidade de São Paulo. Ainda assim, manteve a atividade e ampliou sua atuação pelo país, participando de eventos e formando uma ampla rede de clientes, colecionadores e restauradores. Afirma que hoje comanda “a maior empresa de auto peças voltada a carros antigos da América Latina”.

Hoje, aos 64 anos, Claudemir afirma estar há mais de três décadas no ramo de peças para veículos antigos. Seu estoque reúne milhares de itens raros, procurados por colecionadores, oficinas especializadas e museus. Entre as peças mais valiosas que passaram por suas mãos estão acessórios originais de veículos clássicos, placas antigas, bombas de ar da década de 1960 e componentes difíceis de encontrar até mesmo no exterior.

Conta a história de um relógio de bolso que apareceu em suas mãos vindo de São Paulo, muito procurado por um colecionador que buscava a peça havia anos para completar a restauração de um carro raro, um Bugatti. Também menciona peças raríssimas guardadas, incluindo uma lanterna de vidro original de um Cadillac de 1942, que segundo ele só existe em sua coleção, nem nos Estados Unidos.
Fotos: Reportagem
Garimpar peças antigas no início de sua carreira, percorrendo diversas cidades da região, de Minas Gerais, foi lhe dando bagagem e conhecimento, ao mesmo tempo que o tornava conhecido no meio. “Hoje em dia já não preciso fazer tanto este trabalho, fiquei muito conhecido, inclusive pelos vídeos no YouTube e as pessoas passaram a me procurar pessoalmente”, afirmou.

Com clientes espalhados por diversos estados, ele atribui boa parte do crescimento à confiança construída ao longo dos anos. Segundo ele, grande parte das vendas é realizada sem burocracia excessiva, baseada na credibilidade conquistada junto aos compradores. Relata viagens frequentes à Bahia, especialmente Feira de Santana, onde tem amigos e clientes fiéis. “Vargem Grande do Sul se tornou uma cidade conhecida neste ramo em todo o Brasil. Temos clientes que vem nos visitar de São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Brasília e Goiânia, atrás de peças”, contou.
Diz possuir hoje cerca de 18 carros antigos, todos destinados à venda, e que já vendeu coleções completas para instituições como o Museu de Tiradentes (MG), e o Museu de Blumenau (SC). São carros antigos vendidos a colecionadores de marcas como Mercedes, Studebaker e Fusca. Atualmente conta com cerca de 12 funcionários trabalhando em sua loja, incluindo a filha e outros colaboradores fixos, além de mão de obra extra contratada eventualmente.

Além da atividade empresarial, Claudemir destaca a fé, o trabalho voluntário e o desapego material como pilares de sua vida. Relata que a experiência de enfrentar o câncer, cujo tratamento foi feito em Barretos, onde conviveu com pessoas em situação de vulnerabilidade mudou sua forma de enxergar o mundo. “Esta experiência me ensinou a valorizar mais a vida e a agradecer, deixando-me mais fortalecido espiritualmente”, afirmou ao Guia do Motorista da Gazeta de Vargem Grande.
O mundo dos carros antigos o levou a conhecer e frequentar a casa de muitas pessoas, algumas de renomes, famosas conhecidas em todo o Brasil, seja como artistas, ou no ramo em que atuam. Cita por exemplo, o cantor Sérgio Reis. “Tenho contato com autoridades e empresários conhecidos, mas prefiro não divulgar publicamente estas relações por discrição e respeito à amizade”, informou.
Ressalta que a vinda de clientes a Vargem Grande do Sul, muitas vezes acompanhados com suas esposas, fortalece o comércio local, pois elas geralmente compram alguma coisa e o casal também usa os restaurantes da cidade, contribuindo com o progresso do município.

Mesmo após alcançar estabilidade financeira, continua alimentando novos projetos. Entre eles está o sonho de criar, na região de Vargem, um grande centro comercial voltado ao universo dos carros antigos, reunindo comércio, lazer e cultura automotiva.
Orgulhoso de suas origens, Trovão afirma que procura levar o nome de Vargem por onde passa. Para ele, o maior patrimônio construído ao longo da vida não está nas peças raras ou nos veículos colecionáveis, mas nas amizades, na confiança dos clientes e na possibilidade de ajudar outras pessoas.














