A psicóloga vargengrandense Beatriz Helena Camargo Nicolo disputou no último final de semana, em Paraty (RJ), uma prova da Ultra-Trail du Mont-Blanc (UTM) World Series, o maior e mais prestigiado circuito de corrida de trilha e montanha do mundo, que desafia os participantes em provas de resistência e velocidade ao redor do planeta. Beatriz Helena ficou em oitavo lugar em sua categoria, na prova dos 58 quilômetros.
Mas para chegar ao final desses 58 quilômetros, o trajeto de Beatriz começou bem antes. Sua primeira prova foi a tradicional Corrida Pedestre da Independência em Vargem Grande do Sul. Seu primeiro teste pessoal de trail running foi tentar percorrer o Caminho da Fé correndo. Prova após prova, a cada desafio superado, ela ia amadurecendo a prática esportiva, sua técnica e intensificando a busca por novos desafios.
Fotos: Arquivo Pessoal
Traçando um objetivo
A etapa de Paraty é a única prova da franquia UTMB realizada na América do Sul, sendo um dos eventos de trail running, uma modalidade de corrida praticada em ambientes fora do asfalto, como montanhas, florestas, praias, morros e estradas de terra, mais importantes do continente. “A UTMB é a maior e mais respeitada marca de trail running do mundo, e saber que haveria uma etapa no Brasil, em Paraty, virou uma chave em mim. Quando vi os atletas falando sobre a prova em setembro de 2025, decidi na hora: ‘eu vou fazer essa prova’. Em fevereiro de 2026 garanti minha inscrição e, em março, dei início ao ciclo de treinos específicos”, contou Beatriz à Gazeta.
Segundo ela, a preparação foi extremamente rigorosa. “Uma vez por mês, eu fazia um treino de uma maratona, de 42 km, no trajeto da Via Crucis, saindo de Vargem Grande do Sul, passando por São Roque da Fartura e chegando a São João da Boa Vista. No dia seguinte corria mais 20 km de volta. Nos outros finais de semana, as rodagens variavam de 20 km a 30 km nas trilhas. Durante a semana, a rotina era intensa: corrida de rua, natação de segunda a sexta, musculação e as vezes pedaladas, além de provas menores usadas como treino”, explicou.
Desafios e evolução ao longo dos anos
Questionada sobre os desafios para uma prova tão intensa quanto essa, Beatriz contou que a preparação é diferente. “Em distâncias ultralongas não treinamos apenas a corrida, mas o estômago. É preciso ensinar o corpo a fazer a digestão em movimento, ingerindo os nutrientes certos no tempo correto para não ‘quebrar’ na montanha. Foram seis meses e duas semanas de dedicação total, mas vale ressaltar que para encarar 58 km na montanha, o corpo precisa de anos de preparação”, reforçou
Ela revelou que o que a motivou a engajar nessa modalidade foi o Caminho da Fé. “Eu comecei a correr na rua em busca de qualidade de vida, percebendo que precisava de algo além do trabalho. Nessa busca, resolvi desengavetar alguns sonhos antigos, e o Caminho da Fé era o principal deles. Comecei a treinar para fazer o percurso correndo, embora ainda não tivesse base alguma. Fui com a cara e a coragem: corri 30 km no primeiro dia, 42 km no segundo e, no terceiro dia, após 16 km, sofri uma lesão. Mas não desisti: terminei o restante do percurso caminhando”, disse.
“Quando voltei dessa jornada, uma amiga me convidou para uma prova de montanha em Águas da Prata, a Prova Guará. As distâncias eram 10 km, 25 km e 35 km. Escolhi os 35 km porque, para quem tinha acabado de encarar o Caminho da Fé, parecia uma distância viável. Eu fui, me apaixonei e soube na hora que aquele era o meu esporte. Correr na montanha ao som da floresta e no silêncio da alma é, para mim, uma verdadeira transcendência”, explicou.
À Gazeta, ela contou que sua primeira prova de rua foi em Vargem Grande do Sul, na Corrida Pedestre da Independência, em 2022. “Fui uma das últimas a chegar e estava feliz a ponto de querer continuar mesmo pensando que jamais poderia correr como as outras”, lembrou.
Conquistas
Ela aproveitou esse desejo de continuar e passou a disputar outras competições, assim, seu desempenho foi melhorando e as conquistas aumentando. Quando perguntada sobre quais considera seus melhores resultados, ela ressalta não apenas a colocação final, mas a superação do desafio. “Considero que em todas as minhas provas tive bons resultados, porque sempre dei o meu melhor”, garante. Mas ela elencou as que mais a marcaram, como o 1º lugar geral (35 km) na Prova Guará de Montanha em 2025; o 2º lugar geral (42 km) na Prova Guará de Montanha em 2026; o 1º lugar na categoria (52 km) na Ultra do Vulcão; o 1º lugar na sua categoria (21 km) no Ataque ao Pico; o 2º lugar na categoria da Prova UD em Santa Rita do Passa Quatro, quando correu com uma lesão e mesmo assim superou a dor; além dos pódios em Multisport, como 1º e 2º lugares em provas de triathlon e aquathlon.
Preparação física e mental
Ao decidir participar de uma prova, Beatriz explica que a preparação é técnica, física e mental. “Além de estudar minuciosamente cada trecho do percurso e planejar a estratégia de nutrição (levo até uma ‘colinha’ no bolso), tudo em uma prova ultra precisa ser calculado. Sem estratégia, dificilmente você termina. Para se ter uma ideia, só na categoria feminina da UTMB, 28 mulheres não conseguiram finalizar”, comentou.
“A parte mental é tão decisiva quanto o físico. No meio da Mata Atlântica fechada, muitas vezes sozinha, enfrentamos o risco de quedas, de se perder, a exaustão e a solidão. Essa edição do UTMB foi apontada pela organização como a mais difícil de todas por conta da chuva: o percurso tinha lama densa, neblina e chuvisco constante que dificultava a visão. A lama deixava a passada pesada a ponto de quase arrancar o tênis do pé, e fiz a prova praticamente inteira com os pés molhados ao longo das 13h44min”, recordou. “Nessas horas, o mental precisa estar afiado. Ter a certeza interna de que você está preparada e de que vai vencer cada adversidade do caminho é fundamental. Se a confiança falhar, a ansiedade te tira da prova”, afirmou.
Conquistando a etapa da UTMB
Concluir uma prova de nível tão alto e intenso quanto uma etapa da UTMB foi especial para a atleta. “O resultado tem um significado gigante para mim justamente pelo tamanho e pela relevância da UTMB. Estamos falando da etapa brasileira do circuito da Ultra-Trail du Mont-Blanc, marca da prova de Chamonix, na França, que é a ‘Olimpíada’ da corrida de montanha no mundo”, afirmou.
“E por isso a prova em Paraty reuniu atletas de altíssimo nível, inclusive profissionais e elites da modalidade, porque todos estão ali buscando pontos no ranking mundial para tentar a vaga em Chamonix. Para se ter uma ideia da grandeza do evento, cerca de 25% dos inscritos eram estrangeiros. Tinha americanos, franceses, italianos, peruanos, equatorianos, muitos argentinos, além de corredores de todos os cantos do Brasil”, comentou. “Estar no meio desse pelotão internacional, em uma prova com esse nível de competitividade, e conseguir o 8º lugar na minha categoria, sendo a 5ª brasileira da faixa, mostra que todo o esforço e a dedicação valeram a pena. É um resultado muito expressivo diante da dimensão global do evento”, ressaltou.
O esporte e um convite às mulheres
Encerrando o bate papo com a Gazeta, Beatriz Helena deixou uma reflexão. “Ao contrário do que muitos pensam, o corpo humano não foi feito para ficar parado e ele não estraga com o uso, pelo contrário, quanto mais nos movimentamos, mais fortes, resistentes e saudáveis nós nos tornamos.
Como psicóloga, afirmo que o esporte é um potente aliado da saúde mental, atuando como um antidepressivo natural. O exercício físico estimula a liberação de neurotransmissores como dopamina, endorfina e serotonina, trazendo motivação, disposição e sensação de bem-estar para enfrentar a rotina. E ninguém precisa correr buscando medalhas ou performance extrema. Na minha primeira prova de 5 km, fui uma das últimas a cruzar a linha de chegada, mas a realização interior foi um momento mágico”, disse.
Ela observou que o trail running ainda tem uma presença feminina pequena. A estimativa de que apenas cerca de 20% dos praticantes na modalidade sejam mulheres, muito pelo receio de treinar em trilhas, encarar a mata fechada ou treinar sozinhas. “Como atleta da região, coloco-me totalmente à disposição para conversar, ensinar, incentivar e até acompanhar os primeiros treinos em trilha de quem quiser começar”, afirmou.
Próximos desafios
Ela comentou que ainda vai disputar algumas provas em 2026, uma de natação em piscina neste final de semana, uma corrida de 10 km no dia 10 de outubro em São João da Boa Vista. “As provas que irei focar mesmo são a Travessia do Canal de Ilhabela, com 3.800 metros de natação, a Prova Poliana Okimoto Aquathon, em São Sebastião. E no trail running, o próximo passo é fazer um trecho do Caminho de Santiago de Compostela correndo”, afirmou.














