45 anos da Gazeta e o enfrentamento ao deserto de notícias
Neste sábado, dia 26 de setembro, Vargem Grande do Sul completa 152 anos e a Gazeta de Vargem Grande completa 45, datas que caminham juntas desde que Fátima e Tadeu Ligabue fundaram o jornal, em setembro de 1981. Não é coincidência de calendário, é a prova de que uma cidade e o jornal que a acompanha crescem, envelhecem e se transformam.
Os números do Atlas da Notícia, mapeamento de veículos jornalísticos coordenado pelo Projor em parceria com o Volt Data Lab, ajudam a entender por que essa longevidade é cada vez mais rara e por que vale a pena celebrá-la. Segundo o relatório de 2025, 2.504 municípios brasileiros, cerca de 45% do total, não têm nenhum veículo jornalístico, o que o Atlas classifica como “desertos de notícia”. Outros 1.808 municípios, ou 32,5% do país, têm apenas um ou dois veículos, os chamados “quase desertos”. Somados, mais de três quartos dos municípios brasileiros vivem sem cobertura jornalística consistente sobre a prefeitura, a câmara, a própria saúde pública, por exemplo.
Só 1.258 municípios, 22,6% do total, contam com três ou mais veículos e podem ser considerados “não desertos” e é nesse grupo restrito que uma cidade do porte de Vargem Grande do Sul consegue se manter, graças em boa parte à permanência de um jornal impresso local. O dado é ainda mais expressivo quando se olha para São Paulo: o estado tem 310 municípios classificados como desertos de notícia, o segundo maior número do país, atrás apenas de Minas Gerais.
O cenário para o jornalismo impresso, especificamente, é de retração acentuada. Do total de 16.269 veículos jornalísticos mapeados no Brasil, o impresso responde por apenas 2.852, ou 19,3%, atrás do online, que soma 38,6%, e do rádio, com 33,7%. E o ritmo de fechamentos de veículos vem se acelerando ano a ano: o Atlas registrou 331 fechamentos acumulados em 2021, número que saltou para 1.460 em 2025, um aumento de 518 veículos só no último ano medido, alta de 55%. Cada um desses fechamentos costuma significar um município que perde a única voz que cobria sua rotina.
Nesse contexto, os 45 anos da Gazeta ganham outro peso. Manter um jornal impresso familiar funcionando por quatro décadas e meia, sustentado pelo mesmo compromisso com que foi fundado, é hoje uma exceção estatística. Enquanto redações inteiras fecham por falta de sustentação financeira ou de sucessão, a Gazeta seguiu noticiando acontecimentos, decisões da Câmara, campanhas de saúde e as pequenas histórias que retratam uma cidade. Esse é o tipo de cobertura que, segundo o próprio Atlas, simplesmente desaparece quando um veículo local fecha as portas.
Jornais regionais como a Gazeta não competem com a grande imprensa, eles cumprem uma função que ela não alcança, porque só quem mora e trabalha na cidade sabe qual rua precisa de reparo, qual posto está sem médico, qual bairro precisa de atenção.
Neste sábado é dia de festejar Vargem e a Gazeta e a resistência de uma cidade que atravessou gerações e a de um jornal que, mesmo diante do encolhimento do impresso em todo o país, escolheu continuar contando essa história, edição após edição. Que os próximos aniversários, os da cidade e os da Gazeta continuem a ser comemorados juntos, no mesmo dia 26, como prova de que o jornalismo segue tendo lugar em Vargem Grande do Sul.












