Há 110 anos, Pe. Donizetti assumia Paróquia em Vargem

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Banda 7 de Setembro, criada pelo padre

Fotografia de Virgílio Forlin consta como sendo a primeira do Padre Donizetti em Vargem. Na imagem, ele está acompanhado do irmão Verdi e de Arthus D’Avila Ribeiro, Francisco Ribeiro da Costa e Dr. Alcino. A imagem é uma reprodução da publicação do jornal A Imprensa de setembro de 1974

 

Padre que foi beatificado nesta semana, tomou posse como vigário na paróquia de Sant’Ana no dia 18 de abril de 1909

A comunidade católica de todo Brasil celebrou nesta semana o anúncio feito pelo Vaticano de que o Venerável Servo de Deus Padre Donizetti Tavares de Lima será beatificado. Em Vargem Grande do Sul, uma das primeiras cidades em que o padre atuou, na próxima quinta-feira, dia 18, completa-se 110 anos da sua posse como vigário, na Paróquia de Sant’Ana.

Vargem tinha apenas 35 anos de história e ainda não tinha sido elevada à categoria de município, o que só aconteceu em 1822, quando o padre Donizetti Tavares de Lima foi nomeado para ser vigário na cidade. A nomeação conta em mandato episcopal datado de 3 de abril de 1909. Padre Donizetti foi empossado no dia 18 de abril daquele ano, conforme o livro “Paróquia Sant’Ana – 120 anos de Amor e Fé”, de Denise Ap. Canal Merlin.

Na época, Vargem tinha como subprefeito, Lúcio Bernardino Costa. Padre Donizetti chegou à cidade com as obras da igreja matriz em andamento. A construção foi iniciada pelo padre João Rulli em 1907. A inauguração da nova Matriz ocorreu em setembro de 1915, mas ela foi dada como terminada apenas em 1922.

Em 1917, ele dá início à limpeza do terreno, arborização e fechamento do Largo São Benedito, antigo cemitério. Em 1922, ele pede autorização ao bispo D. Alberto José Gonçalves para a aquisição da Casa paroquial e no mesmo ano, Padre Donizetti obtém permissão para construir a Capela de São Benedito. Em 1926 ele é transferido para Tambaú e em seu lugar, assume Padre Manoel Antônio Pinto Villela.

Padre amado pelo povo

Banda 7 de Setembro, criada pelo padre

Mais do que as construções e a expansão da paróquia, padre Donizetti foi um verdadeiro líder na comunidade vargengrandense. Incentivador da cultura e defensor da igualdade social, Padre Donizetti fazia de tudo para que a classe trabalhadora tivesse acesso a uma série de coisas que na época, eram consideradas exclusivas da elite. Foi assim com o futebol, o cinema, a música.

Havia uma equipe de futebol, onde jogavam apenas pessoas de alto poder aquisitivo na cidade. Padre Donizetti então montou um time, o São Luiz, para reunir os trabalhadores. Havia também uma banda onde tocava músicos de famílias abastadas. Ele criou então a Banda Sete de Setembro. Montou também um cinema destinado à população. Como os filmes eram mudos, a banda tocava ao lado de fora do cinema.

Há relatos que Padre Donizetti, quando havia circo na cidade, levava grupos de crianças para assistirem ao espetáculo e ainda organizava ele mesmo algumas exibições para o público.

Padre Donizetti também incentivava os trabalhadores a pleitearem melhores condições de trabalho, numa época em que a Crise do Café, que atingiu o país na década de 1920, se avizinhava. Esse posicionamento ia de frente contra os fazendeiros que dirigiam a cidade na época.

Carismático, humilde e muito culto, padre Donizetti seguia atraindo cada vez mais fiéis na cidade, levando uma quantidade cada vez maior de devotos para suas celebrações e oferecendo à população o acesso à cultura. Ele era um verdadeiro fenômeno de popularidade, o que também pode ser visto em seu trabalho em Tambaú.

Em fevereiro deste ano, a diretora de Cultura, Márcia Iared, e o assessor do Departamento Municipal de Cultura, Lucas Buzato, foram a Tambaú, onde se encontraram com o atual Diretor de Turismo da cidade, Adilson Anastácio de Faria, para reunirem informações sobre a saída do padre de Vargem e mais dados sobre sua biografia.

Em entrevista à Gazeta, Márcia e Lucas destacaram que ao contrário do que se propagou durante muitos anos, não há evidências oficial histórica de que houve uma exigência por parte de famílias de Vargem para a saída do padre do município. A maneira como Padre Donizetti trabalhava o colocava batendo de frente, em conflito com o modelo social da época e também com a diocese.

Pedido de perdão

Túmulo dos pais do padre Donizetti, Francisca e Tristão, está no Cemitério da Saudade

Os relatos obtidos por Márcia e Lucas dão conta que perto de sua transferência para Tambaú, as missas que padre Donizetti celebrava atraíam um número muito grande de fiéis, que não cabia mais na pequena igreja matriz da época. Assim, eram celebradas missas campais, que eram acompanhadas também pelos fazendeiros da cidade, que buscavam saber o teor das palavras do padre.

A decisão da transferência veio do bispado e sua última missa na cidade foi acompanhada por muitos devotos. No entanto, pouco depois da saída do Padre Donizetti, passou a circular na cidade uma série de boatos, como o que o padre teria sido transferido pela discórdia com essas famílias. Esses fazendeiros então organizaram uma comitiva que foi até Tambaú pedir perdão ao Padre Donizetti e a suas bênçãos, no que foram prontamente atendidos.

Retribuindo essa visita, Padre Donizetti presenteou Vargem Grande do Sul com uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, santa de sua fervorosa devoção, que ele mesmo benzeu e que se encontra atualmente na Igreja Matriz de Sant’Ana

Testemunhos continuam

Dona Dayse junto a um de seus bisnetos

Muitas pessoas atribuem graças alcançadas à intercessão do Padre Donizetti e os relatos continuam chegando em Tambaú, onde estão centralizados os estudos sobre o religioso. Mas, durante esta semana, a Gazeta de Vargem Grande foi procurada por Vera Lúcia Borges Caldas Valente, moradora de Jundiaí, que pediu para compartilhar a história de sua mãe, que foi a Tambaú acompanhar uma missa do Padre Donizetti e teve uma graça alcançada.

“Minha mãe se chama Daisy Borges Caldas, tem 95 anos, e mora em São João da Boa Vista. Eu soube do Padre Donizetti através da minha mãe, que sempre comentava e agradecia o milagre que alcançou. Depois, quando morei em Vargem Grande do Sul, fiquei sabendo da história do Padre Donizetetti e sempre tive vontade de contar sobre minha mãe, mas não achei onde registrar este milagre”, disse.

“Não sei como minha mãe soube do Padre Donizetti. A história que sei e que ela sempre contava, foi que ela tinha minha irmã e eu crianças e começou a ter problemas no ouvido. Vazava muito, tinha cheiro muito forte e desagradável. Tratou muito tempo e não resolvia. Até que o médico falou que era um tumor, que ele não sabia o tamanho, mas que teria que operar. Porém, não garantia o resultado. Ela poderia ficar surda, ter algumas consequências”, contou.

“Ela, com medo, resolveu ir até Tambaú, de ônibus, assistir à missa e pedir um milagre, já que sempre ia muita gente de São João para lá. Ela conta que me levou com ela e que o ouvido não parava de escorrer. Colocou uma toalha, mas já estava toda molhada. Chegando lá, tinha muita gente para assistir à missa, então ela sentou embaixo de uma árvore bem perto da igreja e lá, sentiu um calor muito forte no ouvido. Ficou parada um tempo ouvindo a missa, assistindo à bênção que ele dava”, relatou Vera. “Quando deu por ela, o ouvido não vazava mais. Voltou para São João sem pingar uma gota”, disse.

“Ela foi ao médico e ele perguntou quem a tinha operado, pois ela tinha uma cicatriz no lugar do tumor. Aí, ela teve certeza que tinha conseguido um milagre do Padre Donizetti e contou para o médico. Nunca mais teve problemas no ouvido”, afirmou. Vera não soube precisar quando isso teria ocorrido, mas acredita que foi em 1955. Segundo ela, sua mãe Dayse já está um pouco senil, mas quando se recorda de alguns fatos, ela comenta este milagre.

Ligado à Cultura

Os pais do Padre Donizetti, Francisca Cândida Tavares, que era professora, e Tristão Tavares de Lima, advogado, sempre incentivaram os filhos nos estudos. Todos foram muito ligados à música, recebendo nomes de compositores famosos, como o do italiano Gaetano Donizetti. Os corpos de Francisca e Tristâo estão enterrados no Cemitério da Saudade.

Logo após ter sido ordenado, em 12 de julho de 1908, em Pouso Alegre, teve uma passagem pelo Mosteiro de São Bento, na capital paulista, conhecido pelo canto gregoriano. Apesar da formação musical clássica, Padre Donizetti também apreciava música popular e também às modas de viola, conforme comentaram Márcia e Lucas.

De acordo com a diretora de Cultura, há meses o departamento prepara um acervo que contará a história da criação da Via Crucis no trecho de Vargem Grande do Sul do Caminho da Fé, e também do monumento à Aparecida. “Uma vez que esta conquista nasceu da ideia de que assim como o Padre Donizetti, nos 200 anos, deixou o legado da Igreja de Aparecida, também os voluntários se agregaram com força e fé para que em nove meses esses monumentos estivessem nos 12 km do nosso Caminho da Fé e se transformassem em um marco religioso que vem comprovado pelo nítido aumento de peregrinos, que procuram em nome de Nossa Senhora Aparecida que era a quem o Padre Donizetti em sua humildade, atribuía todas suas obras. Assim sendo, histórias, fatos, testemunhos e curiosidades atribuídas à intercessão de Padre Donizetti estão sendo compilados para esta exposição”, comentou Márcia.

A mostra vai exibir, entre outros, a imagem do busto do Padre Donizetti, que está sendo esculpida por Marta Aliendi, a pedido da diretora de Cultura, Márcia Iared.

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