Tadeu Fernando Ligabue
Estes tempos natalinos, mechem um pouco comigo. Trago boas lembranças de meus natais e mesmo com o passar dos tempos, com nosso amadurecimento e também um certo endurecimento que a vida nos dá, procuro nesta época trabalhar mais meu lado espiritual, fico mais emotivo também.
A presente crônica foi trabalhada em meus pensamentos durante a semana. Fui acometido de um descolamento da retina, cuja operação foi muito bem sucedida, mas requereu uma convalescência rigorosa, tendo de ficar praticamente cabisbaixo o dia todo.
Matutando muitas coisas, fiquei a observar a tomada do morro do Jardim Morumbi, uma formação que sempre me chamou atenção desde minha juventude. Quando estudava em São Paulo e retornava para Vargem, a primeira coisa que avistava quando próximo da cidade, era a bela montanha toda esverdeada, cheia de árvores que existia no hoje denominado Jardim Morumbi.
Terras altas pertencentes à Família Zampar, minha mãe sempre me falava que nestes locais, plantava-se muito café e bananeiras. Também o morro do Zampar ficou famoso mundo afora por ter sido nele filmado a clássica cena dos cangaceiros cantando Mulher Rendeira. Filmado na década de 50 em Vargem Grande do Sul, várias tomadas do filme foram feitas no morro, salvo engano de minha parte.
Mas, aos poucos da janela de minha casa vejo as árvores morrendo e o morro definhando, agora com máquinas cortando o mesmo e no local num futuro não muito distante, só haverá casas e concreto, nada mais restando do icônico morro. Na minha cabeça desocupada, sempre achei que o morro deveria ser tombado pela prefeitura.
O local para quem vai visitá-lo é deslumbrante, com uma vista magnífica da cidade, principalmente à noite. Sempre achei que deveria ser preservado e que todos poderiam ter a oportunidade de desfrutar da bonita vista. Havia uma tênue esperança, pois o platô que se forma em cima do morro, era de propriedade da Paróquia de Sant’Ana e sempre se comentou que no local seria erigida uma capela.
Então, nos meus pensamentos, provavelmente seria construída uma capela e também uma pequena praça, tornando o local acessível a todos os vargengrandenses. Recentemente, fiquei sabendo que a igreja católica desistiu do local, vendendo a área que lhe foi doada, provavelmente pela Família Zampar e irá construir a igreja em um local de mais fácil acesso a todos seus fiéis. Assim, ficamos sem uma área pública num dos locais mais privilegiados da cidade.
Ficar cabisbaixo e dormir só de um lado é um transtorno. Não se consegue dormir, bate a insônia e os pensamentos afloram. A noite deste segunda-feira foi algo assim. Junta a isso a dor no ombro que sustenta todo o peso do corpo, ombro este que vinha se recuperando de um tombo que levei há uns tempos atrás. Coisas da idade.
Foi nesta noite que entre devaneios, sonhos e momentos de lucidez, que me veio à mente o Padre Donizetti. Por que não construir no local uma praça e um monumento dedicado ao padre, agora beato e faltando muito pouco para se tornar um dos santos brasileiros, que viveu durante quase 20 anos, de 1909 a 1926 em Vargem Grande do Sul, onde certamente criou todo um arcabouço de vida que o levaria à santificação, com inúmeros milagres relatados?
Todos sabemos que em Vargem fortaleceu no padre Donizetti sua opção para os mais pobres e desvalidos. Que por defender os mais oprimidos, teria sido expulso da cidade pelos donos do poder vigente na época, ou seja, os grandes proprietários de terras, os capitães e coronéis do café. O hoje quase santo pela Igreja Católica, na época era tido pela nossa oligarquia como comunista ou nos ditos atuais, um esquerdista, por se voltar aos pobres.
Nada contra estes coronéis e capitães. Eles viviam o contexto social, econômico e político da época e estão entre os principais homens que forjaram o que hoje é Vargem Grande do Sul. Mas acho que o padre Donizetti precisa ser melhor estudado e ter o devido lugar resguardado na história do nosso município. A Igreja está dando um grande passo neste sentido ao homenageá-lo com o nome da Praça da Conciliação e a colocação de seu busto em frente à Igreja Matriz.
No sonho ou devaneio que tive na noite de insônia, o santo padre me aparece e me diz que não precisa de nada disso, que é contra qualquer tipo de idolatria, mas que se os bens aventurados homens e mulheres de Vargem quisessem homenageá-lo, não se oporia. Deu até a receita. Junte um grupo de pessoas, onde as vaidades serão todas deixadas de lado. Nada de sentimentos como os de orgulho, poder, soberba, ostentação, todos trabalhando em prol do bem comum. Crie uma comissão composta por alguns vereadores, um que já ajudou na construção da imagem do Cristo Redentor seria importante, outro que consegue muitas verbas para a cidade, seria essencial. Conversem com o padre e o bispo, sem os quais não se dá um passo à frente.
Chame o prefeito, mostre o local e o quanto seria interessante no local construir uma pracinha singela, bem simples, igual à do Cristo Redentor na Vila Polar. Pede para ele no início determinar de utilidade pública um terreno no alto do morro, assim, mesmo que não venha a desapropriar, evitará que se construa no local, preservando o mesmo para a finalidade proposta.
Chame os devotos da cidade para ajudar na tarefa, aqueles que já alcançaram graças, tente arregimentar os jovens, utilize de instrumentos como a internet e crie uma conta para as doações necessárias. Façam campanhas, rifas, bazares beneficentes, leilões, procure os poderosos da cidade, sem os quais nada se faz.
Construa além da praça e do monumento, uma capelinha singela e nela introduza a imagem de Nossa Senhora Aparecida. A capelinha tem de estar aberta a todos, sem portas, apenas com um banco para quem for orar. Os vândalos hão de respeitar e se depredarem, nada de valor material haverá e será fácil reconstituir.
Converse com o pessoal da Cultura, torne o local um ponto de visita para os peregrinos do Caminho da Fé. De lá poderão avistar a cidade do alto, descansar e orar. Depois podem prosseguir a viagem, pois o caminho fica logo em frente. A cidade também irá se beneficiar. Por fim, faça um bom plano, um planejamento sólido e mãos à obra.
Meio atônito acordei, será mesmo que foi um sonho ou pura imaginação de minha parte, passei a me indagar. E se os políticos não abraçarem a questão? E se o padre e o bispo não quiserem nada disso e tiverem outros planos e urgências? Se os homens de bem, os poderosos não se tocarem? Se o pessoal da Cultura não achar tudo isso uma boa ideia? Pus-me a pensar.
Quando então ecoou uma voz poderosa que me fez acordar de vez. “Então, faça tudo sozinho, homem de pouca fé!”. Estou sem dormir até agora, com tudo isso dando reviravoltas em minha mente. Será que foi mesmo o santo padre Donizetti que falou comigo? Não teria tudo passado de um sonho meio maluco? Será que o santo padre merece que Vargem Grande do Sul lhe dê as devidas honras e repare uma injustiça que já dura quase um século?
Então, uma doce calma me apossa e vejo a imagem de padre Donizetti Tavares de Lima lá no alto do morro do Zampar com o seu gesto característico de quem faz o sinal da cruz, abençoando Vargem. Encosto a cabeça no travesseiro e um sono profundo toma o meu ser e durmo em paz.














