Derrota de Bolsonaro leva manifestantes a interditar rodovias por todo país

Em Vargem, movimento aconteceu em frente ao Tiro de Guerra. Foto: Reprodução Redes Sociais

Em Vargem e região houve bloqueio de estradas e pedidos de intervenção em frente ao Tiro de Guerra

No Brasil, o início da semana foi marcado por bloqueios em rodovias por causa de manifestações contra o resultado das eleições, que teve Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como vencedor na disputa pelo Planalto. Em todo o país, os manifestantes adotavam um discurso golpista, uma vez que pediam intervenção militar, o que atenta contra o Estado Democrático de Direito. Os atos tiveram início na noite de domingo, dia 30, logo após a derrota de Jair Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições presidenciais, mas a paralisação chegou à região de Vargem Grande do Sul na tarde de segunda-feira, dia 31.
No início da tarde de segunda, um grupo de manifestantes bloqueou os dois sentidos da Rodovia SP-344, que liga São João da Boa Vista a Aguaí, no início da tarde. Também houve bloqueio entre Leme e Pirassununga, na SP-330, e em Mococa e Mogi Mirim, na SP-340.

Houve queima de pneus em São João. Foto: Reprodução notícias policiais

Primeiro dia de paralisação
Na noite de domingo, dia 30, após o anúncio da eleição de Lula, manifestantes fizeram bloqueios na Rodovia Washington Luís (SP-310). Segundo a Polícia Rodoviária, houve interdição feita por caminhoneiros no km 267, em Araraquara, que causou um pequeno congestionamento.
Também houve bloqueio na altura de São Carlos, no km 230, nos dois sentidos da pista. Os caminhoneiros queimaram pneus para impedir o fluxo de veículos, mas rapidamente o fogo foi controlado. Segundo a Polícia Militar, o tráfego na pista ficou 1h50 minutos parado por causa da manifestação que, segundo a concessionária Eixo, causou um congestionamento de menos de um quilômetro.

Segundo dia
Em São João da Boa Vista, o protesto foi organizado por caminhoneiros que fecharam os dois lados da pista, a partir do km 223, no início da tarde de segunda-feira, dia 31. Embora o protesto tenha sido defendido como uma manifestação pacífica, os participantes colocaram fogo em pneus, mas as chamas foram controladas pelo Corpo de Bombeiros de São João.
De acordo com a concessionária Renovias, o protesto começou às 13h45 e apenas caminhões estavam sendo retidos. Os carros estavam tendo passagem livre, mas, mesmo assim, o congestionamento ficou extenso nos dois sentidos e a entrada para Aguaí foi bloqueada.
A Rodovia Anhanguera (SP-330) também estava com pontos de paralisação, entre eles no km 188, entre Leme e Pirassununga, por manifestantes pró-Bolsonaro. Segundo a concessionária Arteris Intervias, a interdição foi parcial, dos dois lados da pista.
Houve também interdição em Limeira. Equipes da concessionária trabalharam para realizar a sinalização das estradas e orientação aos motoristas. Em Mococa, a interdição aconteceu no sentido sul da SP-340, a partir do km 272, desde às 14h53. O bloqueio foi total.
A Rodovia Engenheiro João Tosello (SP-147), que liga Limeira a Mogi Mirim, também registrou bloqueio pelos manifestantes. Bem como a SP-340, em Mogi Mirim. Até a noite de segunda, foram mais de 300 bloqueios em estradas de 25 estados e no DF. Na Grande São Paulo, houve pontos de bloqueio nas rodovias Anhanguera, Bandeirantes, Castello Branco e Raposo Tavares.

Terceiro dia
Na terça-feira, dia 1º, mais estradas haviam sido bloqueadas por manifestantes pró-Bolsonaro. Na região, rodovias em São João da Boa Vista, Casa Branca, Mococa, Aguaí, Mogi Mirim e Marco Divisório ficaram bloqueadas. A rodovia de Vargem Grande do Sul também foi bloqueada.
A concessionária do Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, informou que 25 voos foram cancelados entre segunda e terça por causa de uma manifestação na rodovia Hélio Smidt. As rodovias Anhanguera, Castelo Branco, Raposo Tavares, Régis Bitencourt, Anchieta, Imigrantes, Dutra, Fernão Dias, Mário Covas e Bandeirantes estavam paralisadas, bem como a SP-258, a SP-340 e a SP-344.
Na região, a Rodovia Governador Adhemar de Barros (SP-340) ficou paralisada em Mogi Mirim (km 156), Casa Branca (km 237) e Mococa (km 272). Em São João da Boa Vista, a paralisação aconteceu na SP-344 no km 223, que liga a cidade a Aguaí. A SP-350 também foi bloqueada no km 260, em São José do Rio Pardo.
No Marco Divisório em Poços de Caldas, na divisa de Minas Gerais com o Estado de São Paulo, grupos também fecharam a rodovia nos dois sentidos entre Poços de Caldas e Águas da Prata. Também houve paralisação nas divisas de São Paulo com Minas em Uberaba e Rifaina. Na rodovia Anhanguera, houve bloqueio no km 148 na altura de Limeira, no km 104 na altura de Campinas e no km 53 na altura de Jundiaí.
Na noite de terça, um bloqueio começou a se formar em frente ao Tiro de Guerra 02-092, de Vargem Grande do Sul, a partir das 17h.

Desbloqueio imediato
O governador Rodrigo Garcia determinou, na terça-feira, dia 1º, que as forças de segurança de São Paulo atuassem para o imediato desbloqueio de rodovias em todo estado. Conforme o informado, as ações priorizariam o diálogo e as negociações, mas em casos de resistência, poderia haver uso de força. A determinação do governador foi para que seja garantido o cumprimento da ordem do Supremo Tribunal Federal (STF) para fim dos bloqueios em vias públicas.
Rodrigo Garcia fez o anúncio durante entrevista coletiva no Palácio dos Bandeirantes. Também estavam presentes o secretário de Segurança Pública do Estado, general João Camilo Pires de Campos, a procuradora geral do Estado, Inês Maria dos Santos Coimbra, e o procurador-geral de Justiça de São Paulo, Mário Sarrubbo.
A decisão do governador visava atender à determinação do ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, para que as forças de segurança tomem medidas imediatas para impedir as ações de bloqueio nas rodovias de todo o país. A decisão de Moraes foi referendada pelo STF durante sessão virtual extraordinária realizada na madrugada da terça.
Os manifestantes que descumpriram as determinações do STF e resistiram às ações da Polícia Militar, poderiam ser multados e presos. A multa prevista foi de R$ 100 mil por hora para cada veículo que realizar a obstrução de vias.
Ainda na terça, o governador destacou que as negociações estavam tendo êxito, com dispersão de vários pontos de manifestações, entre eles o da Rodovia Hélio Smidt que havia bloqueado o acesso ao aeroporto internacional de Guarulhos.

Fala de Bolsonaro
Na terça-feira, dia 1 de novembro, depois de quase 48h sem se manifestar a respeito do resultado das eleições, o presidente Jair Bolsonaro (PL) fez um pronunciamento por volta das 16h40 da terça-feira. Leia na íntegra a seguir:
“Quero começar agradecendo os 58 milhões de brasileiros que votaram em mim no último dia 30 de outubro. Os atuais movimentos populares são frutos de indignação e sentimento de injustiça de como se deu o processo eleitoral. As manifestações pacíficas sempre serão bem-vindas, mas os nossos métodos não podem ser os da esquerda, que sempre prejudicaram a população, como invasão de propriedades, destruição de patrimônio e licenciamento do direito de ir e vir. A direita surgiu de verdade em nosso país, nossa robusta representação no congresso mostra a força dos nossos valores: Deus, pátria, família e liberdade. Formamos diversas lideranças pelo Brasil. O nosso sonho segue mais vivo do que nunca. Somos pela ordem e pelo progresso. Mesmo enfrentando todo o sistema, superamos uma pandemia e as consequências de uma guerra. Sempre fui rotulado como antidemocrático e, ao contrário dos meus acusadores, sempre joguei dentro das quatro linhas da constituição. Nunca falei de controlar ou censurar as mídias e as redes sociais. Enquanto presidente da república e cidadão, continuarei cumprindo todos os mandamentos da nossa constituição. É uma honra ser o líder de milhões de brasileiros que, como eu, defendem a liberdade econômica, a liberdade religiosa, a liberdade de opinião, a honestidade e as cores verde e amarela da nossa bandeira. Muito obrigado.”
Em seguida, o ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, falou aos presentes, dizendo que aguardaria a formalização do nome do vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin, para que seja iniciado o processo de transição do governo Bolsonaro para o próximo presidente eleito, Lula (PT).

Quarto dia
Em Santa Catarina, manifestantes realizaram a saudação nazista enquanto o Hino Nacional era entoado na tarde de quarta-feira, dia 2. O Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) informou que os vídeos seriam analisados para identificar as pessoas que fizeram o gesto, que configura apologia ao nazismo, considerada crime no Brasil pela Lei nº 7.716/1989.
O boletim divulgado pela Polícia Rodoviária Federal à noite, indicava 89 interdições de bolsonaristas em 12 estados. Segundo a PRF, 834 bloqueios já haviam sido liberados desde o início da semana.

Em Vargem
A paralisação em frente ao Tiro de Guerra de Vargem, no entanto, prosseguiu no feriado com um maior número de manifestantes que no dia anterior.
Durante a noite, o presidente Bolsonaro publicou um vídeo em suas redes sociais em que pedia a seus apoiadores para liberarem as rodovias que estão obstruídas. “Quero fazer um apelo a você: desobstrua as rodovias, isso daí não faz parte, no meu entender, dessas manifestações legítimas. Não vamos perder, nós aqui, essa nossa legitimidade”, afirmou.
Após o pronunciamento do atual presidente, as rodovias começaram a ser liberadas.

Quinto dia
Na manhã de quinta-feira, dia 3, todas as rodovias da região de Vargem que estavam obstruídas foram liberadas. Na ocasião, caiu para seis o número de estados com bloqueios de rodovias no Brasil. No primeiro boletim da Polícia Rodoviária Federal, eram 11 os estados com mobilizações. De acordo com as redes sociais das PRFs de cada estado, porém, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul e Acre não haviam mais bloqueios.
Na data, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Alexandre de Moraes, afirmou que o resultado da urna é incontestável e que criminosos que atacam o sistema eleitoral serão responsabilizados. O ministro da Justiça, Anderson Torres, disse por meio de uma rede social que houve 37 prisões e foram aplicadas 4.216 multas a motoristas que bloquearam rodovias federais.

Sem manifestações
Na sexta-feira, dia 4, nenhum ponto de paralisação foi informado. No entanto, a Meta, empresa que controla o Facebook e o Instagram, informou ao portal de notícias G1, que começou a remover publicações com pedidos de intervenção militar no Brasil. A empresa afirmou que faz o monitoramento das postagens referentes ao cenário político e que a medida faz parte das práticas de remoção que já existiam anteriormente. No entanto, não informou quantos conteúdos foram retirados do ar nas plataformas.

O reflexo da paralisação em Vargem Grande do Sul

As paralisações pró-Bolsonaro tiveram reflexo direto em Vargem e nas cidades da região. Os universitários de Vargem, que estudam nas faculdades da região, por exemplo, não tiveram aula presencial devido aos bloqueios, que impedia ônibus e vans de chegarem às universidades.
No dia 1º, a Unifeob, de São João, comunicou em suas redes sociais que, devido à paralisação em algumas vias de acesso à cidade, as aulas aconteceriam de forma híbrida. Assim, os estudantes que conseguiram chegar até o Campus tiveram aulas presenciais, já os que não conseguiram, puderam assistir às aulas via on-line. Embora o comunicado oficial tenha sido realizado na terça-feira, na segunda-feira, dia 31, as aulas já aconteceram no modelo híbrido.
Na segunda, as aulas na Unifae foram online e, na terça, dia 1º, a faculdade realizou um comunicado informando que, por razões de segurança de professores e estudantes, as aulas ocorreriam de forma remota entre terça e sexta, dia 4.
Na terça, dia 1º, os ônibus, micro-ônibus e vans da Gabriel Turismo não foram às universidades. O comunicado interno foi enviado aos alunos, devido às aulas online disponibilizadas pelas faculdades.
A Santa Clara Turismo ofereceu o transporte por meio de comunicado interno, na terça-feira, dia 1º, caso algum aluno precisasse comparecer presencialmente às aulas. Algumas vans que também levam os estudantes se posicionaram que, caso os alunos fossem presencialmente, as vans funcionariam.
Além de prejudicar os estudantes que não puderam comparecer às aulas, as paralisações também afetaram os postos de combustíveis, que começaram a ficar sem gasolina ainda na tarde de terça-feira, dia 1º. Na ocasião, apenas os postos Avenida, Maga, São Cristóvão e Redentor ainda tinham combustível.
No feriado, a proprietária de um bar da cidade divulgou em suas redes sociais que a cerveja do estabelecimento já estava acabando, sem previsão de reposição, devido às paralisações das rodovias.

Hospital de Caridade
O provedor do Hospital de Caridade, Jair Gabricho, informou que a paralisação não trouxe grandes prejuízos ao atendimento de pacientes, nem ocasionou o cancelamento de cirurgias, Mas observou que, devido aos bloqueios, houve atraso na entrega de mercadorias. Esse atraso só não trouxe problema para os pacientes, pois o Hospital contava com estoque regulador para cerca de 30 dias.

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