Um novo Natal

Lígia de Paiva Ligabue
Passar a infância assistindo a filmes e desenhos que retratam o Natal do hemisfério Norte, com vilarejos cobertos de neve, meias penduradas sobre lareiras e um Papai Noel gorducho, com as bochechas rosadas, construiu uma memória afetiva muito forte em mim com relação às festas de final de ano. Memórias mais ligadas ao clima criado justamente pela TV e bem diferentes do Natal tropical brasileiro e em especial, ao verão chuvoso de Vargem Grande do Sul.
Ainda assim, memórias de felicidade pura. De família reunida, um entra e sai de gente em casa, movimentação intensa na cozinha, com todo mundo cozinhando para uma ceia que sempre foi farta, com as graças de Deus. As horas que antecediam a ceia eram tão intensas, que ao final do jantar, seja na casa dos meus pais ou dos meus tios, todos estavam exaustos, mas com pique ainda para encarar a sobremesa, lavar a louça e ainda trocar presentes. Me lembro da primeira vez que meu pai me contou que era para escolher um sapato meu e colocar dentro dele um punhado de capim, para que as renas do Papai Noel pudessem fazer um lanchinho antes de seguir a viagem entregando presentes pelo resto do mundo. Obviamente, peguei todos os meus sapatos e rodeei a base da árvore de Natal com sapatos cheios de grama, na esperança de ganhar um presente a mais pela “generosidade”. Algo que quando se tem sete anos de idade parece uma ideia genial, mas que no final, não deu muito certo e fiquei com o meu presente original mesmo.
Os anos se passaram, a vida foi se desenrolando e o Natal foi transformando. Fui ficando cada vez menos ansiosa pelo presente que iria abrir e mais animada pela reunião de pessoas queridas ao redor da mesa. Até que chegou o Pedro, meu filho, e a animação voltou a ser a de criança. A de preparar a casa, enfeitar a árvore, montar o presépio só para ver a alegria dele com os preparativos, com o acender e apagar das luzes do pisca-pisca. Impaciente, ele mesmo pegava os cordões de luz e saía procurando tomadas pela casa para deixar tudo iluminado. Ano passado, quase provocou um curto na casa dos meus pais ao ligar um pisca 110v em uma tomada 220v.
E esse ano, como a vida não é o que planejamos, mas o que Deus quer dela, será nosso primeiro Natal morando na Europa, um Natal como nos filmes, com neve cobrindo tudo e Papai Noel de bochechas rosadas. Aliás, encontramos o Papai Noel e Pedro pediu para ele um carro de corrida azul e um pirata vermelho, tudo traduzido do português para o inglês e entendido pelo Papai Noel dinamarquês. Será um “white Christmas”, como na música cantada por Bing Crosby. Mas não será o Natal frenético, cheio de gente querida falando, rindo e celebrando, exaustivo e maravilhoso que sempre me enche de felicidade. Será um Natal de novas experiências, em um outro continente. Porém, a possibilidade de criar por aqui, nem que seja apenas nesses poucos anos que vamos ficar, memórias tão bonitas quanto essas que tive ao longo dos meus mais de 40 anos, é o que esquenta meu coração nesse frio da Dinamarca. Um Feliz Natal, cheio de boas lembranças a todos.

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