Água de Vargem era barrenta e provocava tifo

Água servida à população atravessa mangueiros de porcos

Histórico do tratamento de água do município

Quando Vargem Grande do Sul comemora seus 149 anos de fundação neste dia 26 de setembro de 2023, a Gazeta de Vargem Grande através desta Edição Especial de Aniversário, enfoca o tratamento de água do município para que os leitores do jornal e também a população tomem conhecimento de como foi o desenvolvimento deste setor vital para a saúde dos moradores do município.


Se nos dias atuais a população ainda reclama da água que lhe é oferecida pelo Serviço Autônomo de Água e Esgoto-SAE, deve-se sentir aliviada em relação ao que os vargengrandenses consumiam até o ano de 1950, quando depois de muita luta dos homens públicos da época, teve início o tratamento da água que era servida à população.


Quase não há nenhum documento oficial que conte a história da evolução do serviço de água da cidade. No atual SAE, praticamente não há registro da sua história. O que se tem é o que podemos pesquisar nos antigos jornais da cidade, principalmente nos exemplares da A Imprensa, primeiro jornal do município de Vargem Grande do Sul, fundada em 1908 por Francisco Otaviano.


Um dos mais preciosos documentos sobre essa época em que a água de Vargem provocava sérias doenças nos vargengrandenses, foi legado pelo saudoso Benedito Bedin, homem de múltiplos talentos que sempre os colocou em prol do desenvolvimento de Vargem e que já foi objeto de matéria do jornal Gazeta de Vargem Grande.


Trata-se da “Documentação sobre a água que abastece a cidade de Vargem Grande do Sul, Estado de São Paulo”, de sua autoria, onde consta como primeira data, a matéria contida no jornal Diário de S. Paulo, de 13 de fevereiro de 1945, do qual Benedito Bedin era correspondente e cujo título “Água com impurezas vem sendo distribuída há muito tempo em Vargem” e mostra e mostra como era a água servida à população há quase oitenta anos atrás.


No levantamento feito pela redação do jornal Gazeta de Vargem Grande, em 1940 a população da cidade era de 10.712 e uma década depois, em 1950, o Censo do IBGE apontava que a população vargengrandense era de somente 10.925 pessoas, um aumento de 213 pessoas em uma década, um crescimento baixíssimo de 0,19% ao ano, podendo ser a qualidade da água um dos motivos deste baixo crescimento.

“Cor de chocolate e cheiro de pé de porco”
Assim foi descrita a água que era servida à população e constava da documentação. Na reportagem do jornal “Diário de São Paulo” de 1945, consta que o município possuía uma fonte de moléstias infecciosas oriunda da água que o abastecia. Quem atestava essa precária condição eram os médicos da cidade, Salvador Iélo, Gabriel Mesquita, Ricardo Landini e Elbio Vaz de Camargo, este último sanitarista.


Dentre as graves enfermidades provocadas pela água sem tratamento eram citadas as dos aparelhos digestivos e urinário, “como consequência de germes conduzidos através da rede de canalização da água”, sendo provavelmente este um dos motivos de Vargem sempre ser muito procurada por médico e farmacêuticos, segundo a reportagem.

Como era a captação da água naquela época
Assim que o município começou a crescer e precisar de uma quantidade maior de água, além das captadas nas cisternas existentes na maioria das casas na época e também em alguns riachos que passavam por dentro da cidade, a maior rede de captação vinha por gravidade do local denominado “Laçadinha” que era uma barragem construída em um córrego que pertencia ao agricultor Dario Marini e que hoje pertence ao sr. José Rotta, pai do ex-vereador José Roberto Rotta, localizado na antiga estrada que ligava a São Sebastião da Grama, logo acima do Bosque Municipal.


Porém, antes de entrar na caixa para abastecer as casas da cidade, sem nenhum tratamento, a água percorria sem proteção e por afluentes, uma extensão de mais de dois quilômetros, passando por brejos e mangueirões de porcos onde estes “se espojam à vontade”.


“Mais acima, no mangueirão de propriedade do sr. Vitório Conselheri, além das sujidades dos suínos, recebe a água outros líquidos e impurezas vindas de uma colônia de lavradores das proximidades. Na estação das águas, a enxurrada que converge para o córrego arrasta consigo, do mangueirão em declive, toda a substância nojenta que encontra”, afirma a matéria de um dos principais jornais do Estado na época.


Assim, a água servida à população passava antes por quatro mangueirões de porcos e na fazenda do sr. Gabriel Alves a água era poluída por detritos da privada da sede daquela propriedade agrícola, que jogava os detritos nas proximidades da cabeceira do córrego. O fazendeiro negou o fato.

Laudo do médico sanitarista Dr. Elbio atesta a péssima qualdiade da água. Fotos: Arquivo Gazeta