José Rotta: “Sofrimento divertido”

José Rotta, de 96 anos, criado em uma família da zona rural com mais 10 irmãos define a época natalina de antigamente como ‘um sofrimento divertido. Foto: Reportagem

José Rotta, aos 96 anos, descreve o Natal como um “sofrimento divertido”, assim como a vida. Criado na zona rural de Vargem, em uma família com mais de 10 irmãos, desde a infância, ele enfrentou as dificuldades impostas pela vida.
“Eu olhava os filhos do patrão com seus brinquedos, e a gente não ganhava nada. Eu perguntava, ‘mas o Papai Noel não trouxe o meu brinquedo?’ E meus pais respondiam, ‘o burrinho quebrou a pata’”.
As renas e os presentes sob a árvore, na tradição da época, eram representados pelos sapatinhos e pelos burrinhos do Papai Noel. Os primeiros eram onde os pais colocavam o presente, enquanto o saco do ‘Bom Velhinho’ era puxado pelos burrinhos.
Assim, a maior expectativa das crianças nascidas no Entre Guerras, como José Rotta, era encontrar um presente nos sapatinhos preenchidos de capim, para alimentar os burrinhos do Papai Noel.
Mas, em uma ocasião, ao encontrar algo entre o capim, a surpresa não foi agradável. “Um ano fui lá ver e tinha uma aranha no capim. Ainda bem que ela não me picou”, comenta bem-humorado.
A mesa de Natal da família Rotta sempre estava cheia: com 11 filhos, o almoço era macarronada, franguinho das galinhas criadas no sítio e guaraná, uma bebida saboreada apenas nesta época. De sobremesa, abacaxi com vinho. “Tudo à lenha, na panela de ferro”, relembra.
Ele também destaca que, aos poucos, as coisas foram melhorando. “Foi indo devagarinho, um ano comprava uma carninha, até comprar o peru.”
Com luta, trabalho e dedicação, Rotta iniciou sua jornada para construir sua vida. Aos 19 anos, mudou-se para a capital, onde conseguiu um emprego como marceneiro. Após morar algum tempo no Paraná, retornou para Vargem e, com o dinheiro que juntou, comprou um sítio e abriu uma loja no antigo Mercadão Municipal.
Apesar da infância difícil, Rotta sempre fez questão de presentear na época natalina. “Para meus filhos, eu dei. Até para o meu neto”.
Quanto ao Natal atual, o aposentado considera que as coisas melhoraram muito em relação ao passado. “Eu acho que é muito bom. O povo é mais alegre. Naquele tempo, o ‘pobrezinho’ sofria muito. Hoje você não vê uma pessoa descalça.”
Rotta também relata que hoje já não comemora o Natal com tanta empolgação. “Agora eu não noto mais nada não.” Nem as Ceias o empolgam. “Fui em algumas ceias, mas não gostei não. É cansativo. Esse negócio de meia-noite não dá certo, a gente não tem mais aquele apetite que tinha”, confidencia.

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