Sérgio A. Scacabarrozzi – Casa Branca/SP
O culto aos livros é uma coisa bastante conhecida pelos que têm na leitura um hábito. Normalmente, quem cultiva a leitura, também costuma ter livros. Uma coisa leva a outra. Entre os que têm a leitura como um prazer, há aqueles que também têm uma biblioteca pessoal. Considera-se uma biblioteca pessoal a reunião de pelo menos mais de uma dezena de livros, em um espaço próprio dedicado à sua guarda, mesmo que a pessoa não considere isso uma biblioteca, mas apenas “meus livros” e nada mais. Essa coleção de livros (ou biblioteca) pode ficar aparente, à vista de todos, ou dentro de algum móvel, de conhecimento apenas do seu dono. São livros, lidos ou não, que, por diversos motivos, permanecem guardados, à disposição de quem os tem: por razões afetivas, para consultas periódicas, etc.
Entretanto, nesse universo de leitores, de pessoas que possuem uma estreita relação com os livros, existem aqueles que, manifestamente, possuem aquilo que denominam a sua biblioteca particular. São leitores que formam um acervo de livros num determinado espaço, constituído por volumes lidos ou a ler. Essas pessoas têm um carinho especial pelos livros, que vai além do simples fato de ler, mas envolve também a apreciação do objeto livro, seja pela forma, pelo conteúdo, ou por qualquer outro atributo ou característica que os fazem mantê-los próximos.
O escritor e intelectual italiano Umberto Eco (1932-2016), um grande apaixonado pelos livros, possuía uma imensa biblioteca particular que ultrapassava facilmente os 50 mil volumes. Igual a ele existiram e existem centenas, milhares de outras pessoas pelo mundo afora que também têm a sua biblioteca doméstica. É praticamente impossível a existência de um intelectual que não possua um vasto acervo particular de livros. O tamanho e a conservação desses acervos dependem muito das condições financeiras de cada um deles. Sabemos de muitos apaixonados por livros que possuem apartamentos, casas ou outros tipos de espaços onde mantêm as suas coleções. Outros, além disso, também possuem pessoas contratadas para cuidar de suas bibliotecas, já que a manutenção de um acervo de livros envolve cuidados constantes, especialmente quanto à limpeza e segurança das obras.
Desde a adolescência sempre fui um leitor contumaz. O livro, a leitura, fazem parte da minha vida desde que me entendo por gente. Era comum, para mim, investir o pouco dinheiro que eu ganhava do meu pai na compra de um livro ou revista em quadrinhos, companheiros inseparáveis de toda a minha vida. Com o passar dos anos, já trabalhando e tendo melhores condições, pude dar prosseguimento ao meu sonho de possuir, também, a minha própria biblioteca que, se não é das maiores nem das mais importantes, reúne os livros que eu amo e que eu desejo ter a meu dispor. É muito comum, diante desse meu hábito de comprar livros, que muitas pessoas se espantem (geralmente as pouco ou nada habituadas a ler) com a quantidade de livros que tenho, e perguntem: mas você já leu tudo isso? Essa pergunta, antigamente, me incomodava um pouco e, muitas vezes, até gerou em mim uma dúvida em relação a ter tantos livros, dentre os quais muitos eu ainda não tinha lido, nem sabia se leria um dia.
A resposta a essa dúvida veio com o próprio Umberto Eco que, certamente, não leu os mais de 50 mil livros da sua imensa biblioteca. Disse ele:
“É tolice pensar que tem de ler todos os livros que você possui ou compra, pois é tolice criticar aqueles que compram ou possuem mais livros do que alguma vez conseguiram ler. Seria como dizer que deve usar todos os talheres ou óculos ou chaves de fenda ou brocas que comprou antes de comprar novos.
Tem coisas na vida que precisamos ter sempre em abundância, mesmo que usemos apenas uma pequena porção.
Se, por exemplo, consideramos os livros como medicamentos, entendemos que é bom ter muitos em casa em vez de alguns: quando se quer sentir melhor, então vai ao ‘armário dos remédios’ e escolhe um livro. Não um aleatório, mas o livro certo para aquele momento. É por isso que você deve ter sempre uma escolha nutricional!
Quem compra apenas um livro, lê apenas esse e depois se livra dele. Eles simplesmente aplicam a mentalidade do consumidor aos livros, isto é, consideram-nos um produto de consumo, um bem. Quem ama livros sabe que um livro é tudo, menos uma mercadoria.”
Diante disso, aquieta meu coração e minha mente o meu hábito de ter livros, ter uma biblioteca particular, ter um carinho especial pelos incontáveis volumes que já li, ou que tentei ler, e que lerei (ou não) um dia.
Li, não sei onde, que uma biblioteca particular diz muito da pessoa que a tem. Através dos livros reunidos num acervo particular é possível ao bom observador deduzir os hábitos da pessoa, seus interesses e as diversas características da sua personalidade.
Há também um ditado popular, bem antigo, que encerra uma verdade imensa: “Uma casa sem livros é um corpo sem alma”. Curiosamente, tenho o hábito de observar, em qualquer casa onde eu vá, se vejo algum lugar destinado a livros, ou se vejo algum livro à mostra, para ter uma ideia se ali existem leitores ou não. Claro que isso não revela se ali existem leitores, pois os livros nem sempre estão à mostra, mas é uma curiosidade minha. Conheci, ao longo de minha vida, incontáveis e maravilhosas bibliotecas particulares. Algumas organizadíssimas, até mesmo luxuosas. Outras, um tanto bagunçadas, onde os próprios donos não sabiam onde estavam seus livros, mas todas, sem exceção, inspiradoras e agradabilíssimas.
Encerrando, ter uma biblioteca pessoal, seja ela do tamanho que for, revela muito da pessoa. A presença do livro, sem dúvida alguma, revela bastante a respeito de quem o tem. Quem lê, certamente, é muito diferente de quem não tem o hábito de ler. Não afirmo que seja melhor, mas com certeza é mais propenso a entender a diferença entre o que é bom e o que é ruim, o que é certo e o que é errado e, certamente, entende também muito mais qual é o seu papel no mundo e nessa curta passagem que temos pela Terra.















