Atualmente morando em Casa Branca, Ivan Parreiras de Carvalho, 85 anos, é bisneto do cel. Francisco Mariano Parreira, considerado por muitos, o homem que de fato criou Vargem Grande do Sul. Se levarmos em consideração que um dos sinônimos do verbo criar é dar existência, Vargem existe hoje graças ao trabalho deste mineiro, nascido em 8 de julho de 1841, na província de Ouro Fino.
Foi seu avô, o capitão Diaulas Parreira, farmacêutico que também morou em Vargem Grande do Sul e mudou-se para Tambaú lá pelos idos de 1900, onde se casou com Mariana Geraldina de Carvalho e deste casamento nasceu Anna Parreira de Carvalho, que hoje está com 108 anos e mora em São Paulo.
Anna Parreira casou-se com o cel. Diaulas Nogueira de Carvalho, que coincidentemente tem o mesmo nome do seu avô Diaulas Parreira e também é de Tambaú. Deste consórcio, nasceu Ivan, descendente direto do cel. Mariano Parreira.
Para falar da importância do coronel Francisco Mariano Parreira para a criação do município de Vargem Grande do Sul, recorremos ao historiador João Alfredo de Souza Oliveira, que escreveu sobre a vida do fundador em artigo para o jornal A Imprensa, que circulou por ocasião do Centenário da cidade, em 26 de setembro de 1974.
Segundo o historiador, após estudar em Minas, em 20 de abril de 1859, ao completar 18 anos, transfere sua residência para São João da Boa Vista. Excelente musicista, organiza a corporação musical com filhos dos fazendeiros e negociantes da cidade e em 7 de janeiro de 1861, casa-se com Maria Cândida Teixeira Godoi.
No período da Guerra do Paraguai (1864/1870), foi o comandante em chefe da cavalaria de São João e sua carreira começa a ascender e em 20 de fevereiro de 1873, vê-se nomeado Juiz Municipal, cargo que ocupou até 1888.
Em 1873, no dia 9 de outubro, começa no Fórum de Casa Branca a segunda divisão da Fazenda Várzea Grande, que daria origem a Vargem Grande, cujo término aconteceu no dia 26 de setembro de 1874 e foi o cel. Mariano que entregou aos louvados (árbitros) Lourenço Ferreira da Costa e Luiz Alvarenga os títulos de doação a Sant’Ana para o julgamento definitivo no juizado de Casa Branca.
Voltando para o entrevistado, indagamos a Ivan Parreiras de Carvalho o que ele sabia do seu bisavô Francisco Mariano Parreira e este falou que o que tinha conhecimento, foi-lhe contado oralmente e também dos arquivos históricos que leu. Indagado o que sentia em ser bisneto de um dos fundadores de Vargem Grande do Sul, afirmou que sentia orgulho pelas ações de seu bisavô, que hoje resultaram em um município com mais de 40 mil habitantes.
Ivan considera seu bisavô o verdadeiro fundador de Vargem Grande do Sul. “Os Garcia Leal tinham as terras, o capital, mas não fizeram nada para a construção da cidade. Tem também os que doaram as terras para a construção da primeira capela, eles têm uma grande importância e devem ser citados, mas também têm aqueles que doaram as terras para o primeiro cemitério, tem os que ajudaram com o dinheiro, mas quem construiu a igreja, o cemitério, regularizou todos os documentos junto ao Cartório de Casa Branca, foi meu bisavô, o cel. Francisco Mariano Parreira”, afirmou.
De fato, a pequena povoação da Várzea Grande que se tornara mais conhecida pelo nome de Bairro da Porteira, era composta de poucas e pobres casas de pau a pique e, nessa época, nos dizeres de João Alfredo de Souza Oliveira, havia apenas a casa de negócio de Bernardo Garcia e a escola particular regida por Joaquim Mariano Parreira, considerado o primeiro professor ou o primeiro mestre escola que surgira naquelas paragens.
Realizada a posse do pagamento (partilha) pela divisão judiciária devido à Padroeira, por doação, conseguiu o cel. Mariano Parreira neste mesmo ano, a licença para a construção da Capela, conduzida a bom termo por comissão de pessoas gradas (importantes) no local onde existia o Cruzeiro, medindo o pequeno templo 30 palmos por 20. Cita o historiador que a primeira missa teria sido celebrada em 1874, mas na casa de João Carneiro (o Boiadeiro), à margem do córrego tributário do Rio Verde (Córrego Sant’Ana), pelo vigário de São João da Boa Vista, padre José Valeriano.
Em 1875, ele constrói a primeira casa coberta de telhas e parte assoalhada e, em 1881, consegue licença para a construção do cemitério, em terrenos onde foi, mais tarde, edificada a capela de São Benedito.
No relato contido nas páginas do jornal A Imprensa, cita o historiador que em 1883, onde hoje é a Praça Cap. João Pinto Fontão, havia apenas três moradias e devido aos esforços do coronel, a pequena povoação em 2 de agosto de 1888, quatorze anos após sua fundação, passou a ser conhecida por Distrito Policial de Sant’Ana de Vargem Grande. “Graças ainda ao seu trabalho persistente, pelo governo estadual do dr. Jorge Tibiriçá, foi criado em 29 de janeiro de 1891, já no período republicano, pela Lei 126, o Distrito de Paz de Vargem Grande.
Seus esforços levam a nova conquista e ele consegue a criação do Curato de Sant’Ana da Vargem Grande em 20 de fevereiro do mesmo ano, com divisas idênticas às do Distrito, sendo nomeado o padre Bernardo Cardoso de Araujo seu primeiro Capelão Cura. Sua esposa d. Maria Cândida foi a doadora da imagem de Sant’Ana ao pequeno templo.
O entrevistado Ivan Parreiras de Carvalho, como erroneamente ele foi registrado, uma vez que o certo seria Ivan Parreira de Carvalho, nasceu em Tambaú onde morou por um bom tempo na Fazenda Matão, que era de seu pai e mudou-se para São Paulo em 1950, quando tinha onze anos. Morou na capital até 1975, quando então veio a residir em Casa Branca, em uma casa ao lado da Igreja Matriz. Casado com Maria Aparecida de Andrade Parreira de Carvalho, é aposentado e trabalhou como técnico em laboratório e foi durante muitos anos, instrutor de judô.
Sem dúvida a arte marcial o fez conhecido não só em Casa Branca, como também na região, onde ajudou a formar centenas de judocas, pois foi instrutor por mais de 30 anos. Em Vargem, Ivan foi professor de um dos primeiros judocas da cidade, o agrônomo e pesquisador Pedro Candido Rytsi Hayashi, além de outros atletas.
Durante a entrevista, Ivan puxa pela memória e cita que seu avô Diaulas Parreira mudou-se para Tambaú e já residia naquela cidade, quando o seu pai, o cel. Francisco Mariano Parreira, então com 90 anos e já adoentado, mudou-se também para Tambaú para ficar sob os cuidados do filho, vindo a falecer no dia 2 de dezembro de 1932, aos 91 anos de idade. Também falou que seu avô Diaulas Parreira, filho do coronel Mariano, em 1911 foi prefeito de Tambaú e foi novamente eleito para administrar a cidade em 1937.
Como construtor do município de Vargem Grande do Sul nos seus primórdios, houve a cessão gratuita em 1881, por José Maciel à administração do Cel. Mariano Parreira, de uma área para a construção do novo cemitério, o atual Cemitério da Saudade. Outro feito que merece destaque, foi a construção da primeira Igreja Matriz de Vargem em 1883, que ficou sob a responsabilidade do coronel.
“Em 1883, por meio de subscrição pública, em Vargem Grande e São João da Boa Vista, conseguiu o incansável realizador a construção da Igreja Matriz, para o que fora nomeado Administrador da Igreja Curada pelo Bispo de São Paulo, D. Lino Adeodato Rodrigues de Carvalho. Media o templo 90 palmos por 60”, escreveu João Alfredo.
Sobre a construção da primeira Igreja Matriz, o professor Gilberto Giraldi escreveu uma bonita matéria intitulada “Vargem Grande de Outr’Ora” na edição especial do jornal A Imprensa, que circulou em 1926 e depois foi reescrita em outras edições do jornal, como a que circulou no dia 26 de setembro de 1974. “Devemos a maioria dos informes dos nossos artigos à nímia gentileza do Exmo. Sr. Cel. Francisco Mariano Parreira – um dos primeiros habitantes de nossa cidade e a quem ela deve muito trabalho, progresso e adiantamento”.
Provavelmente o professor Giraldi entrevistou o fundador de Vargem para compor sua bela matéria que faz uma linda viagem ao passado da cidade, descrevendo os esforços para a construção da primeira Matriz, e também contendo valiosos dados sobre como era a cidade na ocasião.
“Vila pequena, assentada sobre o alto de uma colina. No coração dela, uma capelinha e um cruzeiro a tomarem espaço no largo então existente. As casas debruçadas para as poucas ruas, enfaceiravam-se quase todas para o largo. Construções comuns, beiraes regulares, janelas e portas a quebrarem a monotonia das pinturas de cal que todas as fachadas ostentavam, uma pintura branca e suave, toda batida do sol e que divertiam os olhos, sem cansar a vista. Umas cinquentas casas …”, descreve Gilberto Giraldi.
Em setembro de 1894, deu-se por finda a árdua tarefa de construção da Matriz, com donativos, leilões e esmolas para construí-la. Tinha a igreja, 90 pés por 60, toda construída de tijolos, rebocada, caiada e uma fachada simpática.
No dia da inauguração, não há informes sobre a data exata, só é descrito o mês de setembro de 1894, descreve Gilberto Giraldi que amanheceu um dia decantado, com um céu esplendido de primavera, de um azul ferrete, com uns farrapos de nuvens brancas. Todas as ruas da cidade estavam tomadas e todas as estradas despejavam sempre grupo de pessoas das fazendas e cidades vizinhas. “Trecho de ruas e a entrada da igreja toda enfeitada com arcos de bambus e uma multidão de bandeirolas se balouçavam ao vento”, descreve.
Ao meio dia os sinos repicaram festivamente chamando o povo à Matriz para a missa cantada. Alguns rojões ao ar e a banda de música sob a regência do maestro Aquilino de Melo, abrilhantava a inauguração, com a igreja repleta de pessoas, com senhoras e senhoritas emprestando à festa o ar de suas graças. Toda a elite política da época, estava presente, com suas famílias ilustres, inclusive a do coronel Francisco Mariano Parreira.
A missa foi dita por padre Valeriano de Souza e o sermão coube ao padre Manoel Vicente. Em seguida houve uma procissão, levando a imagem de Sant’Ana, doada por dona Maria Cândida Parreira e outras, que percorreram as ruas ao redor do largo. “Depois músicas e rojões e o povo que se dispersava. Estava terminada a festa”, finaliza Gilberto Giraldi.
O coronel Francisco Mariano Parreira ainda foi eleito aos 55 anos, intendente de Vargem em 26 de outubro de 1896, não chegando a assumir o cargo. Na sua biografia consta que em 15-01-1908, ao surgir o governo das subprefeituras e à passagem de Vargem à categoria de Vila, “afastou-se o cel. Mariano da terra a que dera o melhor de seus esforços, para em São João da Boa Vista, continuar com a vida pública, exercendo o cargo de Juiz de Direito substituto. Em 1910, quando da inauguração da luz elétrica em Vargem, aos 69 anos, o coronel Mariano esteve na qualidade de juiz, representando São João no ato da inauguração.
Em uma carta-testamento, que escreveu a seus filhos em 9 de junho de 1930, quando completava 89 anos, Mariano Parreira relatou com orgulho: “Retirei-me do comércio, da política, do foro, como entrei, sem deixar nódoa que manche o meu humilde nome. Após aposentar-se, foi morar em Tambaú com o filho Diaulas Parreira, onde faleceu em 2 de dezembro de 1932, aos 91 anos. Por coincidência, seu túmulo fica ao lado do jazigo do padre Donizetti Tavares de Lima, outro personagem marcante na história de Vargem Grande do Sul.
Finalizando seu artigo no jornal A Imprensa que circulou no Centenário da cidade, em 26 de setembro de 1974, o historiador João Alfredo de Souza Oliveira escreveu: “Cremos ser já tempo de dedicarmos nossa atenção às homenagens devidas ao sr. Cel. Francisco Mariano Parreira, relegado ao rol do esquecimento pela população hodierna, embora seu nome refuja intensamente, vitoriosamente, nas belas e surpreendentes páginas da História Vargengrandense, Francisco Mariano Parreira quase totalizou meio século de empreendimentos na terra das várzeas grandes”.
Com tantos feitos para a fundação da “Pérola da Mantiqueira”, como é conhecida Vargem, realmente enche de orgulho ser descendente de um dos principais fundadores de Vargem Grande do Sul. Para seu bisneto Ivan, a cidade fez por merecer todo o trabalho realizado por seu bisavô. Disse que sempre que pode vem a Vargem, que considera uma ótima cidade.
Embora tenha feito tanto para construir a cidade, Ivan ressente que apenas uma rua existe com o nome do coronel Francisco Mariano Parreira, a homenageá-lo. Não tem um monumento, um prédio público com seu nome e ele entende que as autoridades e a população vargengrandense deveriam dar um destaque maior ao seu fundador, por todos os feitos por ele realizado. “Foi graças a todo o esforço que ele fez, numa época muito difícil, que a cidade de Vargem Grande do Sul existe”, afirmou.