Marina Lima – roteirista e escritora, @marinalimasou
É tão simbólico que um filme que conta a história de resiliência de uma mulher que travou uma verdadeira saga em busca do marido, desaparecido pelas mãos do Estado brasileiro, seja o primeiro filme nacional a vencer um Oscar, o prêmio mais prestigiado do cinema mundial. Esta mulher chama-se Eunice Paiva, e o filme, bem, à esta altura é esperado que a maioria de nós, se não assistiu, tenha ouvido falar: “Ainda Estou Aqui”, inspirado no livro homônimo escrito pelo filho de Eunice, Marcelo Rubens Paiva, para eternizar em palavras a luta da mãe não apenas pelo direito de ter reconhecida a morte do marido e poder viver o seu luto, mas também para conseguir seguir adiante. Com um lirismo delicado, o filme do diretor Walter Salles registra cenas de uma família de classe média alta do Rio de Janeiro, Eunice, o marido Rubens, ex-deputado e engenheiro, seus cinco filhos, sua vida bucólica à beira-mar, numa casa repleta de amigos, risadas, comemorações, livros e arte.

Mas, naquela década de 1970, há sempre algo à espreita: o Estado repressor num comboio de camburões que cruza a orla no momento da foto em família, nas hélices dos helicópteros que cortam o céu enquanto as crianças jogam vôlei de praia, na batida violenta da polícia aos jovens ocupantes de um carro em busca de “subversivos”. Até esse mesmo Estado invadir a vida dessa família e transformá-la para todo o sempre. Rubens Paiva é levado de casa para prestar depoimento por suposto envolvimento com a resistência à ditadura civil-militar e nunca mais aparece.

Às vezes, o curso de uma vida se transforma repentina e inexoravelmente por um evento tão definitivo, que faz todas as antigas crenças desabarem como fosse um terremoto. No caso de Eunice, a compreensão da mudança que precisaria empreender foi gradual, mas não menos violenta, porque sua perda foi igualmente irreparável. É difícil mensurar a dor de não poder velar um ente querido. E essa dor que Eunice Paiva suportou com tanta dignidade é a dor de milhares de famílias brasileiras. Mais uma vez: é simbólico que um filme sobre esta dor tenha sido o primeiro a ganhar o Oscar porque o Brasil ainda precisa contar histórias da ditadura para elaborar um trauma que não superamos. Não superamos porque anistiamos os agentes do Estado que mataram e desapareceram com centenas de pessoas.

Se os tivéssemos punido exemplarmente, talvez não fosse prática institucionalizada hoje, e aplaudida por parcela da população, os métodos do Estado de mortes e desaparecimentos em contextos periféricos por todo o país. Se os tivéssemos punido exemplarmente, talvez não ouvíssemos pedidos pela volta da ditadura, talvez as pessoas compreendessem o que é viver sob um regime autoritário. Se os tivéssemos punido exemplarmente, talvez os militares não quisessem ocupar a política hoje e não tentassem um golpe de Estado depois de perder as eleições pelo voto popular. Por fim, o reconhecimento a um filme brasileiro nesse momento histórico é simbólico porque o cinema, e as artes em geral no Brasil, foram castigadas nos últimos anos com um governo que desprezava e demonizava a cultura. Precisamos valorizar a cultura e a importância de contarmos as nossas histórias.

Mas voltemos para Eunice. Estrelada pela incrível Fernanda Torres, mulher de um talento, elegância e inteligência que o mundo agora tem a chance de conhecer, é no rosto dela que se descortina, em grande parte sem palavras, a percepção de que Rubens se foi para sempre. Para o bem de seus filhos e de sua sanidade mental, Eunice recolhe os cacos que fizeram dela, recompõe-se corajosamente, muda-se para São Paulo, onde teria melhores condições de criar os filhos, faz faculdade, torna-se referência na luta pelos direitos indígenas, os verdadeiros donos das terras brasileiras, rigorosamente exterminados desde que o primeiro português chegou por aqui há mais de quinhentos anos. Por anos a fio, Eunice luta pelo reconhecimento da morte de Rubens e, vinte e cinco anos depois do seu desaparecimento, consegue obter seu atestado de óbito.
O meu desejo, neste oito de março, é que não apenas a força dessa mulher sirva de inspiração para nós, mas uma frase sua, dita em meio ao turbilhão de acontecimentos, seja o nosso farol, a despeito de toda e qualquer adversidade: “nós vamos sorrir”.












