Em que mundo é Natal?

Jr Pipers

Existem inúmeros planetas,
mas mundos de verdade, são dois.
O mundo lá fora, feito de pressa, de barulho,
de vitrines que piscam como se soubessem
o que falta dentro da gente.
Um mundo tentando se organizar,
ropeçando em si mesmo.
E o mundo aqui dentro.
Silencioso e profundo.
Nascido de consciência,
habitante de medos que não servem para fotos,
de culpas que não cabem nos stories,
de alguém que expressa, todos os dias,
sua verdadeira humanidade.
Somos um ponto.
Só isso.
Um ponto perdido no infinito,
mas capaz de carregar universos inteiros no peito.
Então diga:
em qual deles é Natal?
Lá fora, o ano acaba.
Aqui dentro, às vezes, nem existe calendário.
Lá fora, luzes e árvores decoradas.
Aqui dentro, um escuro estranho,
porém, mais puro que o céu.
Um vazio que não aceita enfeite.
Para viver lá fora, nos perdemos aqui dentro.
E, para sobreviver aqui dentro,
silenciamos o grito do lado de fora.
É um conflito antigo.
É um conflito eterno.
Lá fora, eu aprendi a rezar de joelhos.
Aqui dentro, quando fecho os olhos,
sou criança.
Corro, dou risada, brinco na calçada,
livre de pecado, livre de pressa,
livre de mim.
Lá fora, ceia, presentes, fotografias treinadas.
Aqui dentro, alguém chega humilde, sem pose,
mas com palavras que enchem a alma
como nenhuma mesa já encheu a barriga.
Se permitido, a ceia verdadeira acontece aqui dentro.
Lá fora, falam em não ter filhos, adiar laços, guardar a vida para depois.
Aqui dentro há um espaço que lateja,
um berço vazio que pede sentido,
uma vida que ainda não chegou
e, mesmo assim, já muda tudo.
O nascimento é um lembrete.
Um convite.
Está em todas as coisas.
Lá fora, um menino no presépio, cercado de reis.
Aqui dentro, Ele cresce.
Anda sobre águas.
Move montanhas.
Acende a visão quando o coração se cansa.
Lá fora, despedidas.
Cada um para o seu lado.
Aqui dentro, o abraço não solta.
O laço não se rompe.
O coração não mente.
Lá fora é realidade.
Aqui dentro é verdade.
Lá fora celebram um nascimento.
Aqui dentro celebramos um reencontro.
E talvez seja esse o milagre:
o instante em que o mundo de fora
para de fazer barulho,
o mundo de dentro para de sangrar,
e os dois se reconhecem.
Nesse instante, algo acende,
algo renasce,
algo volta a respirar.
É quando entendemos que o Natal
não é uma data, nem um presépio,
nem o fim do ano.
Natal é o encontro raro
entre quem somos por dentro
e quem fingimos ser por fora.
Quando esses dois se abraçam,
o mundo inteiro renasce em luz.
E nós também.

Um brinde!

 

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