Por Lu Borges, estudante de direito
O Fórum abriu as portas como em qualquer outro dia.
Passos apressados, vozes contidas, o relógio marcando o tempo de sempre. Nada anunciava que ali, entre paredes conhecidas, algo diferente estava prestes a acontecer.
Para a comarca de Vargem Grande do Sul, era rotina.
Para quem foi convocado a ser jurado, mais um gesto de cidadania: estar presente, ouvir, decidir.
O sorteio começou.
O plenário silenciou.
Um nome foi chamado. Uma mulher se levantou.
Outro nome. Outra mulher.
E mais um. E mais outro.
Sem discursos, sem avisos, sem intenção prévia, as cadeiras foram sendo ocupadas por mulheres. Quando o último nome ecoou, o fato já estava posto: o Tribunal do Júri era inteiramente feminino.
Sete mulheres.
Sete histórias.
Em um país onde, por tanto tempo, mulheres não puderam escolher, decidir ou participar, aquela cena dizia muito. Dizia sem palavras. Dizia com presença.
Ali não estavam símbolos abstratos. Estavam mulheres reais. Da cidade. do cotidiano. Mulheres que ouviram com atenção, refletiram com responsabilidade e assumiram, por um dia, o peso de decidir.
Talvez esse acontecimento nunca volte a se repetir da mesma forma. Talvez passe despercebido aos olhos mais apressados. Mas quem esteve ali testemunhou algo que não se mede em atas ou registros formais.
Naquele plenário, as mulheres vargengrandenses afirmaram, sem precisar dizer, que pertencem a todos os espaços. Que não ocupam por concessão. Que não pedem licença para existir.
Não foi sobre o julgamento.
Foi sobre estar.
Foi sobre permanecer.
Foi sobre não recuar.
E, às vezes, é assim que a história avança: em silêncio, com firmeza, ocupando cadeiras que sempre deveriam ter sido nossas.












