Editorial: A urgência de se preservar várzeas e ordenar o crescimento urbano

Córrego Santana canalizado junto à rua Padre José Valeriano

Os recentes alagamentos registrados em diversos pontos de Vargem Grande do Sul trazem um problema antigo, estrutural e bastante conhecido dos moradores: a ocupação inadequada das margens de rios e córregos, áreas que há centenas de anos cumpriam sua função natural de absorver e escoar as águas das chuvas. Em entrevista à Gazeta de Vargem Grande, o prefeito Celso Ribeiro reconheceu a gravidade da situação e anunciou o início da elaboração de um projeto para drenagem da bacia pluvial urbana, iniciativa de longo prazo que dependerá de recursos estaduais e federais.
Certamente se trata de um passo importante, mas ainda assim é preciso um debate mais amplo e ações mais contundentes também por parte da população. Grande parte das causas das enchentes está na ocupação de Áreas de Preservação Permanente (APPs), protegidas por lei desde o Código Florestal de 1965 e reafirmadas pela Lei nº 12.651/2012, que determina faixas mínimas de preservação — geralmente de 30 metros em cada margem.
Porém, não apenas em Vargem Grande do Sul, mas em praticamente todo país, essas normas foram ignoradas ao longo das décadas. Como resultado, a urbanização avançou sobre áreas de várzea do Rio Verde, do Córrego Graminha e do Córrego Santana, que atravessam a cidade, com construções antigas e recentes erguidas praticamente rente ao leito dos cursos d’água. Mesmo intervenções mais novas, como a abertura de avenidas às margens de córregos, não deixaram faixas mínimas suficientes para conter transbordamentos.
No final da década de 1990 e início dos anos 2000, políticos que passaram a dirigir a cidade buscaram trazer para os projetos municipais a necessidade de se trabalhar com o fluxo do meio ambiente e não tentar conter a natureza com concreto. Áreas verdes foram construídas, a questão de saneamento básico foi focada com a Estação de Tratamento de Esgoto e nova Estação de Tratamento de Água, entre outras ações. Mas ainda é preciso lidar com outros tantos problemas, como a mudança climática, as áreas já consolidadas sobre os pontos de alagamento e também na fiscalização sobre novas intervenções urbanas e os possíveis impactos que poderão causar.
Nesse tema, a Gazeta de Vargem Grande tem participado ativamente do debate, alertando para os riscos da expansão urbana sobre áreas de várzea e defendendo sua preservação, por exemplo. Em edições como a de dezembro de 2000, o jornal denunciou o avanço de construções sobre áreas alagáveis do Rio Verde, antecipando consequências que hoje se confirmam. Ao mesmo tempo, mostrou que o diálogo é possível quando o interesse público prevalece, como no caso das antigas “terras do Zecão”, que darão lugar a lagos e áreas de lazer com a preservação das várzeas.
Incentivando o debate, expondo problemas e cobrando posicionamento e ação do poder público, a Gazeta reafirma seu compromisso histórico com uma cidade mais verde e preparada para eventos climáticos extremos cada vez mais comuns. Preservar as áreas de várzea não é obstáculo ao desenvolvimento, mas é condição para o crescimento urbano responsável.

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