A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de manter a taxa Selic em 15% ao ano no início de 2026 aponta para um cenário de juros elevados que continua a pressionar o setor produtivo no Brasil, incluindo as indústrias da região de São João da Boa Vista, da qual Vargem Grande do Sul faz parte. A Selic, que é a taxa básica de juros da economia brasileira e serve de referência para empréstimos, financiamentos e aplicações, está no nível mais alto em quase 20 anos e tem efeitos diretos sobre o custo do crédito e o ritmo dos investimentos empresariais.
Embora a ata da última reunião do Copom, divulgada no último dia 3, tenha indicado que o Banco Central pode iniciar um ciclo de cortes nos juros já em março, a política monetária deve permanecer restritiva por mais algum tempo, até que a inflação esteja confortavelmente dentro da meta.
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgou pesquisa revelando que 80% dos empresários industriais apontam os juros altos como o principal problema para conseguir crédito. Em parte, isso explica por que muitas empresas adiam planos de expansão ou renovação de máquinas e equipamentos, uma realidade também percebida localmente e que afeta a geração de empregos.
Para Adriano Alvarez, vice-diretor regional do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), a situação se traduz em dificuldade de financiar capital de giro e projetos de modernização, o que limita a competitividade das fábricas da região frente a concorrentes que operam em ambientes com juros mais baixos. Apesar do cenário ainda adverso, ele avalia que o ambiente pode começar a mudar ao longo de 2026, impulsionado pelo movimento internacional de redução das taxas de juros.
“Como o mercado de juros no mundo é um círculo fechado, outros países reduzindo os juros, abre-se espaço para o Brasil diminuir também”, comentou. Segundo ele, o capital internacional busca remuneração, mas também segurança. “Capital procura ser remunerado por juro alto; segurança é o foco quando você compra dívida dos países. E no momento o mundo está cortando juros”, analisou.
Na avaliação de Alvarez, esse movimento internacional cria condições para que o Brasil também reduza sua taxa básica, abrindo espaço para algum alívio ao setor produtivo. A expectativa é de que, com a queda gradual da Selic, empresas industriais passem a ter maior previsibilidade para planejar investimentos, financiar capital de giro e retomar projetos que hoje permanecem represados pelo custo elevado do crédito.
O cenário ainda é incerto, mas, se confirmado, pode trazer algum alívio para o setor industrial, que enfrentou desaceleração no fim de 2025, conforme anunciado pelo IBGE nesta semana. Na avaliação de Rafael Cervone, presidente do Ciesp, o recuo da indústria está diretamente relacionado aos juros elevados e a entraves estruturais que pesam sobre o setor. A produção industrial fechou o ano com crescimento de apenas 0,6%, evidenciando perda de ritmo nos últimos meses.
Cervone destacou que esse ambiente macroeconômico e regulatório acaba limitando os efeitos de políticas públicas voltadas ao fortalecimento da indústria e acende um alerta para 2026. “A indústria é estratégica para a economia, gera empregos de qualidade e inovação. Para retomar o crescimento, é fundamental um ambiente mais favorável ao investimento, com juros menores e menos entraves”, afirmou.










