Quando a Gazeta de Vargem Grande do Sul circulou pela primeira vez, em setembro de 1981, a manchete de estreia já anunciava um problema que o município carregaria por décadas: falta de água em bairros da cidade. Quarenta e quatro anos se passaram. O jornal cresceu, a cidade cresceu, e o desafio de levar água de qualidade a todos os vargengrandenses segue complexo, caro e, infelizmente, mais polêmico do que nunca.
Não é por falta de investimento que a situação ainda provoca preocupação. Ao longo de décadas, obras estruturantes foram realizadas. A primeira estação de tratamento, no Jardim Pacaembu, foi um marco. A Barragem Eduíno Sbardelini assegurou a capacidade de captação. A nova ETA e a Estação de Tratamento de Esgoto modernizaram o sistema. Mais recentemente, a substituição das redes de ferro fundido e amianto de bairros antigos, como a Santa Terezinha, e o início em breve de obras semelhantes na Cohab I e Jardim Paulista, representa mais um passo nessa trajetória.
Serão mais de 500 imóveis que passarão a contar com tubulações modernas em polietileno de alta densidade, instaladas pelo método não destrutivo, sem rasgar o asfalto da cidade. Dois novos reservatórios em construção completam o quadro de investimentos do momento. Tudo isso demonstra, uma vez mais, o esforço continuado em modernizar a infraestrutura hídrica de Vargem Grande do Sul.
Mas as falhas do projeto de fundações de alguns reservatórios novos, que inclusive motivou a instauração de uma Comissão Especial de Inquérito, com base em perícia contratada pela própria prefeitura, e outros pontos preocupantes, como o Projeto de Lei 66/2026, que pede à Câmara autorização para parcelar quase R$ 1 milhão em dívida do SAE com a própria prefeitura (dívida acumulada ao longo de 2025 pelo não pagamento de parcelas de financiamentos cujos recursos foram integralmente aplicados em obras da autarquia), vai mostrando que mesmo com tanta notícia positiva, é necessário seguir com muito zelo e cautela.
No caso da dívida, o próprio Executivo reconheceu que a análise de viabilidade para viabilizar os contratos foi feita com base na capacidade de endividamento da prefeitura, sem considerar a realidade orçamentária do SAE. O resultado é que o pagamento das prestações do montante total contratado compromete mais de 50% do orçamento da autarquia.
É preciso reconhecer e valorizar cada obra realizada em benefício do abastecimento público. A troca das redes antigas é necessária. Os novos reservatórios, quando devidamente construídos, serão igualmente bem-vindos. Mas é preciso que as obras sejam feitas com planejamento técnico rigoroso e fiscalização constante.
Investir em infraestrutura é algo muito necessário. Mas quando o planejamento não considera a capacidade real do ente que vai operar e pagar as obras, quando estruturas são entregues com problemas que as tornam inutilizáveis, esse investimento se transforma em problema. E quem arca com esse ônus é sempre o mesmo: o cidadão, na tarifa, na falta de água, na água suja que chega às torneiras.












