Investimento tem preço, mas água suja tem outro
Os números apresentados pelo Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAE) impressionam. Milhões de reais aplicados na troca de encanamentos antigos, base dos novos reservatórios em fase de licitação e um programa de modernização que promete reduzir perdas e aumentar a confiabilidade do sistema. Não há como negar: investir na infraestrutura de saneamento é investir na saúde pública e no futuro da cidade. Trata-se de um compromisso necessário, que qualquer gestão responsável deveria priorizar.
Mas quem é afetado quando a água deixa de chegar em sua casa ou chega com a qualidade não desejada, tem todo o direito de questionar os investimentos feitos. Mesmo sabendo que de um universo de mais de 16 mil ligações de água da cidade, algumas dezenas ou centenas sofrem com a falta ou qualidade da água servida pela autarquia, mesmo que por um breve período de tempo.
O investimento de milhões de reais na Vila Polar, por exemplo, é uma notícia positiva, mas o morador não vive no futuro, ele segue no presente. Ele vive do que sai da torneira todos os dias, e é ali que a conta realmente é apresentada, muito antes do boleto chegar.
Depois de um dia inteiro de trabalho, o banho deveria ser o momento de descanso. Quando a água chega com cor alterada, esse alívio se transforma em desconfiança. O mesmo vale para quem lava roupa e vê as peças saírem do tanque mais sujas do que entraram, prova concreta de que algo não está funcionando como deveria, por mais que a autarquia classifique a situação como pontual e transitória.
É nesse contraste que o anúncio do reajuste de 15,46% ganha um gosto mais amargo. Pagar mais por um serviço que, naquele instante, não está sendo entregue com qualidade, mexe com o humor de qualquer contribuinte. O aumento é tecnicamente justificável, mas a percepção do morador não se constrói com justificativas técnicas, e sim com a água que ele vê sair da própria torneira.
Os investimentos anunciados são imprescindíveis e devem ser reconhecidos como passos importantes para resolver problemas estruturais antigos. Mas o que o SAE classifica de ocorrência pontual, o morador sente como um problema real. Cabe à autarquia, mais do que investir, aproximar-se de quem depende desse serviço, comunicando com transparência quando e onde os problemas acontecem, e mostrando, na prática, o compromisso com a qualidade da água e do bem-estar do vargengrandense.












