Faltam alternativas para tráfego de carretas, segundo Desetran

Após acidente, moradores pedem o fim do trânsito de carretas na cidade. Foto: Reprodução Internet

A jovem de 15 anos que faleceu após ser atropelada por uma carreta que transportava cana de açúcar na tarde de sábado, 4 de julho, em Vargem Grande do Sul junto ao cruzamento da esquina do Viaduto Miguel Maaz com a Rua Virgílio Forlin, que liga ao Jd. Paulista, teve grande repercussão na cidade, com muitas pessoas questionando o tráfego de caminhões pesados na região urbana da cidade, principalmente as carretas que trabalham para a Usina Cox Bioenergia, antiga Abengoa, situada na Fazenda Lagoa Formosa, às margens da Rodovia SP-344, no município de São João da Boa Vista.
A usina possui forte ligação logística com Vargem Grande do Sul, uma vez que parte dos caminhões que transportam cana-de-açúcar, insumos e produtos utiliza vias urbanas de Vargem para acessar a unidade, especialmente por meio da SP-344.
A reportagem da Gazeta de Vargem Grande enviou várias perguntas ao Departamento de Segurança e Trânsito (Desetran) sobre a questão, dentre elas, indagou se o Departamento de Trânsito estuda tomar alguma medida proibindo ou restringindo o trânsito de veículos pesados na área urbana do município.
A resposta do órgão responsável pelo trânsito da cidade foi que o Desetran já vem estudando e avaliando alternativas para minimizar a circulação de veículos pesados na área urbana, aumentando a segurança e reduzindo impactos no trânsito local.
“No caso específico do veículo envolvido no acidente, trata-se de uma situação em que o trajeto utilizado é, atualmente, o único acesso viável para atendimento às operações da empresa Abengoa, não havendo rota alternativa que possibilite o desvio desse tipo de transporte”, afirmou a direção do Departamento.
Mesmo assim, o Desetran afirmou que continuará realizando estudos técnicos, em conjunto com os órgãos competentes, para avaliar medidas que possam proporcionar maior segurança à população e, “sempre que possível, reduzir a circulação de veículos de grande porte nas vias urbanas”.
Ao afirmar que o trajeto utilizado pelos veículos pesados da usina é atualmente o único acesso viável às operações da empresa e que ainda não existe rota alternativa para desviar esse tipo de transporte, o Desetran sinaliza que uma eventual restrição ao tráfego de caminhões pesados dependerá da criação de um acesso alternativo à usina ou de uma readequação da malha viária local, já que uma proibição imediata poderia comprometer as operações logísticas da empresa.
O jornal também perguntou aos responsáveis pelo Desetran, se podia informar quais as leis que regulamentam o trânsito de veículos pesados na área urbana da cidade e qual a fiscalização que o departamento vem realizando a respeito. Também indagou se há alguma tratativa com a empresa Cox Bioenergia no sentido de evitar o trânsito de carretas na área urbana. Estas questões não foram respondidas pelo Desetran.
Outra pergunta feita pela Gazeta, foi se o órgão podia informar quantos acidentes houve este ano envolvendo este tipo de veículo, sendo informado que “De acordo com os registros do Departamento de Segurança e Trânsito, até o momento foi contabilizado, em 2026, um acidente grave envolvendo veículo de grande porte, sendo este o ocorrido recentemente.
O Desetran disse ter conhecimento de ‘incidentes’ ocasionais relacionados à circulação de veículos pesados, como danos à sinalização viária, placas e semáforos. “Sempre que essas situações são identificadas, a empresa responsável é devidamente notificada e acionada para realizar os reparos e a manutenção dos equipamentos danificados. O Desetran segue acompanhando essas ocorrências e adotando as medidas administrativas cabíveis, visando preservar a segurança viária e a integridade do patrimônio público”, afirmou o órgão.

Danos nas residências
O jornal ponderou que os moradores da Cohab I, reclamam há muito tempo que o trânsito de veículos pesados no bairro, como na Av. Mons. Celestino C Garcia, causa avarias nas suas residências, indagando se o departamento tinha conhecimento de casos como este na cidade e quais providências estavam sendo tomadas. Respondeu o Desetran que até o momento, o departamento não recebeu registros ou reclamações formais relacionadas a avarias em imóveis supostamente ocasionadas pelo trânsito de veículos pesados, incluindo a região da Cohab I.
“Entretanto, o departamento permanece à disposição da população para receber e analisar eventuais manifestações, a fim de avaliar cada caso de forma técnica e, quando necessário, adotar as providências cabíveis em conjunto com os órgãos competentes”, afirmou o Desetran.
Reportagem feita pelo jornal em 2025, mostra moradores do Jardim Canaã reclamando dos impactos causados pelo intenso tráfego de veículos pesados na Avenida Maquis Ranzani, que liga a cidade à região da antiga usina Abengoa. Entre as reclamações estavam vibração constante das casas; aparecimento de rachaduras em imóveis; excesso de poeira; circulação frequente de caminhões, carretas, ônibus e treminhões durante todo o dia. Os moradores relataram que as paredes das residências tremiam com a passagem dos veículos e defenderam a pavimentação da via como forma de reduzir os transtornos.

Vereador propõe rota alternativa para carretas da Usina COX Bioenergia Abengoa
O vereador João Batista Cassimiro, o Parafuso (PSD) protocolou o Requerimento n.º 55/2026, solicitando ao Executivo estudos técnicos para implantação de uma rota alternativa obrigatória destinada ao tráfego de carretas que abastecem a Usina COX Abengoa Bioenergia. A proposta busca afastar os veículos pesados das vias urbanas de maior circulação de pedestres e ciclistas, sobretudo da Avenida Senador Teotônio Vilela.
O requerimento sugere que as carretas provenientes das rodovias SP-215 e SP-344, ao ingressarem no município pela Avenida Max Ranzani, sejam direcionadas pela Avenida Ney Fernandes Bolonha até as vias de ligação da região da Voçoroca, com acesso posterior à área industrial. Entre as medidas solicitadas estão a instalação de sinalização específica, a regulamentação do percurso por decreto e a articulação com a empresa para adequação da logística de transporte à nova rota.
A iniciativa foi motivada pelo grave acidente ocorrido no último sábado, dia 4, em que uma adolescente morreu atropelada por uma carreta na Avenida Senador Teotônio Vilela. O texto do requerimento ressalta que a medida não visa prejudicar a atividade econômica da usina, mas conciliar a operação industrial com a segurança viária e a preservação da vida dos munícipes.

Abaixo-assinado pede fim de trânsito de carretas na cidade
Um abaixo-assinado eletrônico foi criado na plataforma Change.org com o objetivo de chamar a atenção da prefeitura de Vargem Grande do Sul e a direção da Abengoa Bioenergia, pedindo a proibição imediata do trânsito de carretas e caminhões pesados da usina por dentro das vias urbanas do município.
No texto do abaixo-assinado, os criadores da iniciativa apontam que esse tráfego traz insegurança viária, pois coloca em risco a vida de pedestres, ciclistas e motoristas locais. Além disso, provoca danos estruturais, como deterioração acelerada do asfalto, calçadas e tubulações que não foram projetados para suportar essa tonelagem. Por fim, apontam a questão da poluição e transtornos, como excesso de barulho, poeira e congestionamentos em horários de pico.
No texto, os organizadores afirmam ainda que existe uma alternativa viável para o trânsito desses veículos, pela rodovia/pista periférica, que desvia o fluxo pesado da área urbana sem prejuízos logísticos significativos para a usina.
O abaixo-assinado foi criado pela moradora Andressa Navarro de Souza, que no final pede que as autoridades competentes criem a regulamentação necessária, como decretos e sinalização de restrição de tonelagem e que a usina oriente formalmente seus motoristas e prestadores de serviço a utilizarem exclusivamente a pista. Até o final da tarde da quinta-feira, dia 9, a iniciativa havia reunido 412 assinaturas.

Projeto de 2013 previa barrar caminhões de cana
Em meio às discussões sobre a circulação de veículos pesados na área urbana de Vargem Grande do Sul, um projeto apresentado pelo Executivo em 2013 mostra que o tema já preocupava a administração municipal há mais de uma década. De autoria do então prefeito Celso Itaroti Cancelieri Cerva, o Projeto de Lei nº 143/2013 propunha proibir o tráfego de veículos destinados ao transporte de cana-de-açúcar pelas vias urbanas do município.
A proposta estabelecia multa de R$ 1.500 para quem desrespeitasse a proibição, além de conceder ao autuado o direito de apresentar recurso administrativo, em única instância, no prazo de dez dias. O projeto também autorizava o Executivo a regulamentar a futura lei e previa que as despesas decorrentes de sua execução seriam custeadas por dotação orçamentária própria.
Na justificativa encaminhada à Câmara Municipal, o prefeito argumentou que o intenso fluxo de bitrens e treminhões vinha causando prejuízos à infraestrutura da cidade. Segundo o documento, o peso dos veículos contribuía para o desgaste do asfalto, danos às calçadas e até comprometia estruturas de imóveis localizados ao longo do trajeto utilizado pelos caminhões.
O texto também apontava preocupações com a segurança viária. De acordo com a justificativa, a poeira levantada pelos veículos aumentava o risco de acidentes, especialmente em trechos próximos às Cohabs IV e V. O Executivo informou ainda que moradores do Conjunto Habitacional Alceu Morandin e da Avenida Teotônio Vilela chegaram a organizar um abaixo-assinado relatando problemas provocados pelo transporte de cana, entre eles o excesso de velocidade dos caminhões.
Antes de apresentar o projeto, a Prefeitura informou ter buscado uma solução por meio de diálogo com a empresa responsável pelo transporte da cana, mas as negociações não tiveram êxito. Diante disso, o Executivo decidiu encaminhar a proposta ao Legislativo.
Na justificativa, a administração municipal também sustentou que possuía competência para disciplinar a circulação de veículos nas vias urbanas, citando dispositivos da Constituição Federal e do Código de Trânsito Brasileiro, além de entendimento do jurista Hely Lopes Meirelles, segundo o qual cabe aos municípios regulamentar o trânsito urbano por se tratar de assunto de interesse local.

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