Poderia falar muitas coisas sobre meu avô José Cândido Pereira, o “Zé Candinho”, da oportunidade que me levou para conhecer o aeroporto de Congonhas, o Museu de Cera e outros lugares na Capital Paulista; dos ensinamentos sobre reciclagem e ecologia; do amor ao trabalho e respeito pelos funcionários.
Mas, nesta oportunidade limito-me a reproduzir a crônica do Professor Antônio Cesare Babboni, publicada no jornal “VARGEM GRANDE NOTÍCIAS, em 25 de março de 1976, logo após seu passamento.
“Simples, assim
Num sábado comum, no fluir pacato e rotineiro da cidade, uma vida se apagou. Os desígnios insondáveis da eternidade movimenta os destinos dos homens, determinando o ponto final de cada um.
Há vidas que deixam lacunas quando se apagam. Assim foi com José Cândido Pereira, carinhosamente chamado e conhecido por Zé Candinho.
Conheci-o muito pouco, é verdade. Há cerca de oito anos, quando aqui cheguei e, de imediato, passei a ser freguês de seu tradicional estabelecimento comercial. “Padaria e Confeitaria Candinho, de José Cândido Pereira. Fundada em 1922”, assim diz o letreiro simples, de metal, afixado na fachada do prédio.
A princípio, ele me chamou a atenção pela sua atitude, sempre sisuda e austera, de pouco falar e muito trabalhar.
Durante estes oito anos, eu o vi sempre ali: cabelos brancos como seu avental, trabalhando de manhã à noite, para dentro daquela porta de aço, mexendo com os latões e litros de leite, num vai-e-vem constante.
Poucas vezes, conversamos e poucas foram as palavras que trocamos, além dos costumeiros cumprimentos formais.
Contudo, seu exemplo mudo, feito de simplicidade e trabalho comunicaram-me mais que palavras.
Fui, assim, por todos estes anos seu silencioso admirador.
Quantas vezes, de dentro do automóvel, enquanto aguardava as compras em seu estabelecimento, eu o observava, à distância, no seu cotidiano lidar.
O simpático velhinho, sempre simples e austero, era incansável. Sabia e sei que se quisesse, poderia aposentar-se e desfrutar merecido descanso por uma vida longa, toda feita de trabalho. Seu tradicional estabelecimento, com mais de cinquenta anos de existência, próspero e bem montado, de há muito se consolidara; sua família, toda criada, e já à testa dos negócios: todos colocados e bem sucedidos na vida.
Tinha tudo para poder parar e dizer, como tantos, “missão cumprida”. Mas, uma vida afeita ao trabalho recusa-se a isto. E, ali, no posto, ele permaneceu até que breve enfermidade e o peso dos anos acabassem por afastá-lo, definitivamente naquele sábado, aos 76 anos.
Sua presença física desapareceu dali e deixou um vazio. Seu exemplo de trabalho, perseverança, simplicidade e honradez permanecem, pois Zé Candinho foi o protótipo dos heróis anônimos, que somando à tenacidade o esforço de cada dia, constroem, erguem e servem e enriquecem toda uma comunidade. Merece o respeito e a admiração dos que ficam a mirar no seu exemplo, haurindo lições de simplicidade, ternura, perseverança e trabalho.
E quem se impôs a si próprio desafios e os cumpriu sem desvios, não se curva, tomba e repousa enfim sem alarde e sem trombetas na serenidade dos que sabem e na certeza dos que creem.
Partiu silencioso. Com a mesma simplicidade com que viveu e, imagino aqui, também, chegou um dia. Chegou simples, viveu simples partiu simples. Deixou a luminosa esteira de luz de seu exemplo.
Obrigado, Zé Candinho, pela sua vida de trabalho e pela grandeza da sua simplicidade.
E adeus, agora que você adentra as paragens da eternidade.”
Mario Poggio Junior
Advogado e Pesquisador da História da Cidade












