Chico Malagutti
A Estrada Grande, a Boiadeira, a que subia pra Goiás com tropeiro, boiada e poeira da semana inteira, poeira que grudava na roupa, no ouvido, na comida, e que ninguém reparava que ia deixando cidade pelo caminho.
Numa dessas paradas tinha uma porteira de madeira. Dessas que rangem antes de abrir inteiras (um som comprido, de madeira cansada, de coisa que já viu gente demais passar), que sabiam o peso de cada mão, o cheiro de cada tropa, e davam passagem pra Casa Branca, pra Lagoa Formosa, pro resto do mundo dali em diante. Em volta dela foi juntando gente. Primeiro de passagem, depois de pouso, depois de ficar, que é o jeito mais antigo de fundar lugar. O nome veio sozinho, pra marcar: Bairro da Porteira.
Não tinha igreja. Em 26 de setembro de 1874, a primeira missa foi rezada numa casa, a de João Carneiro, na beira de um córrego que descia pro Rio Verde. Gosto de pensar nisso. Que a cidade começou numa sala de família, com o padre vindo de fora, a reza dividindo espaço com o barulho da água e, quem sabe, um cachorro cansado que ninguém convidou.
Depois veio o resto: a capela de Sant’Anna, o café, o nome que mudou mais de uma vez até assentar, a estrada que virou rua, a rua que virou praça, a praça que virou o lugar aonde a gente vai pra não ficar em casa, pra ver amigo, pra crescer.
Cento e cinquenta e dois anos depois, a porteira não existe mais. Ninguém sabe direito onde ficava, de que madeira era feita, quem foi o último a fechar. Mas ela continua aqui, de um jeito meio torto, meio teimoso, insistente. No portão que a gente deixa encostado pro vizinho. Na conversa de calçada que atravessa a noite. Na cadeira puxada pra quem chega antes de perguntar o nome, porque nome se pergunta depois, se precisar.
Tem cidade que nasce de decreto. Vargem Grande do Sul nasceu de uma passagem, e de gente que, passando, resolveu ficar.
Feliz aniversário, Vargem Grande do Sul. A porteira segue aberta. Ainda range um pouco, mas abre.












