Safra da batata enfrentou queda na produtividade, custos maiores e desafios na comercialização

A safra de batata 2026 chega ao fim com resultados aquém do esperado pelos produtores

Excesso de chuvas, doenças e pragas prejudicaram as lavouras em 2026; preços ficaram acima do registrado no ano passado, mas resultado financeiro depende dos custos de cada produtor

A safra de batata de 2026 que termina neste início do mês de outubro, foi marcada por dificuldades climáticas, redução da produtividade e aumento dos custos de produção na região de Vargem Grande do Sul, um dos principais polos da bataticultura paulista. O excesso de chuvas durante o ciclo da cultura, a incidência de doenças e o ataque de pragas comprometeram o desenvolvimento das lavouras e atrasaram a colheita. Apesar das dificuldades, os preços ficaram acima dos registrados em 2025, uma das piores safras nos últimos anos, o que ajudou a compensar parte das perdas de produção.

O presidente Pedro Marão, da ABVGS, pediu maior união dos produtores para enfrentar os desafios da safra. Fotos: Arquivo pessoal/Arquivo Gazeta

As avaliações são de Pedro Marão, presidente da Associação dos Bataticultores da Região de Vargem Grande do Sul (ABVGS), e de Lucas Ranzani, presidente da Cooperbatata. Embora ambos apontem o clima como um dos principais fatores responsáveis pelo desempenho da safra, suas análises também destacam questões importantes para o setor, como a rentabilidade, a comercialização, o planejamento da próxima temporada e a situação financeira dos produtores.
Segundo Marão, a produtividade média chegou a ficar 30% abaixo da registrada no ano passado. A combinação de chuvas excessivas, doenças e pragas prejudicou o desenvolvimento da cultura ao longo de toda a safra. Entre os principais problemas citados pelos dois presidentes, esteve a requeima, doença causada pelo fungo Phytophthora infestans, favorecida pela umidade, além do ataque da mosca-minadora, que danifica as folhas e compromete o crescimento das plantas.
Ranzani também destacou a maior incidência de doenças fúngicas e de insetos nas lavouras. Segundo ele, as condições climáticas dificultaram o manejo fitossanitário e contribuíram para a redução da produtividade. O excesso de chuvas não afetou apenas o desenvolvimento das plantas, mas também o período de colheita, quando o solo úmido dificultou a entrada de máquinas nas áreas de cultivo e atrasou a retirada dos tubérculos.
Para Marão, a safra já deveria ter sido encerrada, mas as chuvas registradas em setembro prolongaram os trabalhos. O dirigente chamou a atenção para o volume atípico de precipitações no mês, que, segundo ele, foi o maior em mais de 80 anos. O calendário de colheita acabou sendo alterado, mantendo produtores no campo por mais tempo do que o previsto.

Custos maiores e rentabilidade desigual
Além da redução da produtividade, os produtores enfrentaram elevação dos custos para controlar doenças e pragas. Marão afirma que a necessidade de utilizar mais defensivos agrícolas fez com que as despesas ultrapassassem, em alguns casos, o orçamento estabelecido na época do plantio.
Nesse cenário, o presidente da ABVGS considera que não é possível classificar a safra simplesmente como boa ou ruim com base nos preços ou no volume colhido. Para ele, o resultado depende do custo de produção de cada propriedade e da rentabilidade efetivamente obtida na comercialização.
Marão exemplifica que produzir mil sacas por hectare não representa necessariamente um bom resultado se o custo da lavoura consumir o equivalente à receita de 950 sacas. Em determinadas condições, afirma, pode ser mais vantajoso colher 800 sacas com despesas equivalentes a 600, pois a margem restante será maior.
A mesma lógica se aplica à decisão de antecipar a colheita. Segundo o dirigente, colher no início da safra pode permitir a venda por preços mais elevados, mas as lavouras ficam mais expostas às condições climáticas e podem apresentar menor produtividade. Por isso, o planejamento precisa considerar quanto será gasto por hectare e qual retorno pode ser obtido, e não apenas a expectativa de preços melhores.
Ranzani também pondera que o resultado varia entre os produtores. Na avaliação do presidente da Cooperbatata, de maneira geral, não houve prejuízo generalizado na cultura, embora alguns agricultores tenham obtido retorno inferior ao esperado. A menor oferta de batata contribuiu para condições de mercado mais favoráveis e ajudou a compensar parte da queda de produtividade.

Preços oscilaram durante a colheita
O comportamento dos preços foi um dos fatores que distinguiram a safra de 2026 da anterior. Segundo Ranzani, os valores estavam favoráveis no início da colheita, quando a quantidade de produto disponível no mercado era menor. Com o avanço dos trabalhos e o aumento da oferta, os preços recuaram, voltando a apresentar melhora no final da safra.
Na comparação com 2025, o presidente da Cooperbatata avalia que o resultado foi melhor quando considerado o valor recebido pelo produto, apesar da produtividade inferior. A recuperação dos preços, porém, não significa que todos os agricultores tenham obtido o mesmo resultado, uma vez que os custos e a produtividade variam de uma propriedade para outra.
Marão também chama a atenção para os riscos envolvidos na comercialização. Segundo ele, a bataticultura movimenta grandes volumes financeiros na região, mas o produtor continua sendo o elo que assume diretamente os riscos do cultivo, como as perdas provocadas pelo clima, as despesas com insumos e a incerteza sobre a produtividade.
O presidente da ABVGS critica a falta de união entre os agricultores e afirma que essa fragilidade reduz a capacidade de organização dos produtores diante das condições de mercado. Na avaliação dele, há participantes da cadeia comercial que obtêm ganhos sem assumir os mesmos riscos da produção e que, depois, transferem suas atividades para outras regiões. Para Marão, os produtores precisam dar mais atenção às relações comerciais e à defesa da própria rentabilidade.
“Tem muito dinheiro ficando na mão de pessoas que apenas atrapalham o mercado e saem com o bolso cheio, as custas dos produtores. O produtor deveria ter mais atenção quanto a isso. Infelizmente a falta de união, acaba deixando o mercado refém de pessoas que só querem saber de ganhar o seu dinheiro, e irem embora fazer comercialização de safras em outras regiões. Isso é uma triste realidade da nossa região”, afirmou o presidente da ABVGS.

Sementes preocupam para o próximo plantio
Os problemas da safra atual também podem produzir reflexos no próximo ciclo. Marão relata que muitos produtores enfrentaram dificuldades com as sementes e que será necessário avaliar possíveis perdas relacionadas ao armazenamento dos tubérculos destinados ao plantio.
A preocupação acrescenta mais uma variável ao planejamento da próxima temporada, que já depende das condições climáticas, dos custos dos insumos e das perspectivas de mercado. Ainda não há definição sobre a área que será plantada em 2027.
Ranzani afirma que, neste momento, a expectativa inicial é de que a área cultivada fique próxima à de 2026, mas ressalta que os produtores ainda precisam avaliar o mercado e as condições de plantio antes de tomar suas decisões. O dirigente considera que o acompanhamento do clima, o controle de doenças e pragas e uma estratégia adequada de comercialização continuarão sendo fundamentais para alcançar bons resultados.
As avaliações dos dois dirigentes mostram que a safra de 2026 não pode ser analisada apenas pela quantidade produzida ou pelos preços alcançados. Enquanto as condições climáticas reduziram a produtividade e elevaram os custos, a menor oferta ajudou a sustentar os valores de comercialização. O resultado final, porém, dependeu das despesas, do desempenho de cada lavoura e do momento em que a produção foi vendida.
Para a bataticultura regional, o desafio permanece em conciliar produtividade, controle de custos e comercialização, sem perder de vista os riscos que recaem sobre quem produz. A próxima safra começará a ser definida a partir dessas variáveis, em um cenário no qual o planejamento econômico terá tanta importância quanto as decisões tomadas no campo.

Cooperbatata destaca solidez da gestão e apoio aos produtores

Lucas Ranzani, da Cooperbatata, comentou sobre o clima e as pragas que atacaram a safra de batata 2026

O presidente da Cooperbatata, Lucas Ranzani, afirma que a cooperativa vem consolidando, ao longo dos anos, uma estrutura sólida, sustentada por um trabalho contínuo de gestão e planejamento. Segundo ele, essa organização permite à instituição manter resultados positivos mesmo diante dos desafios dos cenários econômicos estadual e federal.
De acordo com Ranzani, a avaliação do Programa de Desempenho, realizado pelo Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo (Sescoop), aponta indicadores positivos, baixos índices de inadimplência e resultados satisfatórios. Para o presidente, esses resultados demonstram a solidez da gestão e o compromisso da Cooperbatata com a sustentabilidade econômica da instituição.
O presidente ressalta que a cooperativa mantém sua atuação ao lado dos cooperados tanto nos períodos favoráveis quanto nos momentos de dificuldade enfrentados pelo setor agrícola. O suporte aos produtores abrange diferentes etapas da atividade, desde a assistência técnica até os serviços de armazenagem e comercialização da produção.
Segundo Lucas Ranzani, o trabalho da Cooperbatata busca identificar as melhores estratégias para contribuir com a produtividade, a rentabilidade e os resultados positivos de cada safra, oferecendo serviços e suporte aos produtores rurais.
Ranzani também destaca o compromisso da instituição com os princípios do cooperativismo, por meio da valorização dos cooperados e do fortalecimento das relações de parceria. A proposta, segundo ele, é dar continuidade ao trabalho de gestão e planejamento, contribuindo para o desenvolvimento da atividade agrícola e a prosperidade dos produtores.

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