Houve um tempo em que o lugar onde hoje está São Sebastião da Grama era apenas sertão, mata virgem fechada e silêncio. Em 1871, duas famílias vindas de Minas, as de Manoel Camilo e José Camilo, viram ali solo bom, clima generoso e nascentes de água cristalina, e resolveram ficar. Ergueram um rancho à margem de um ribeirão e o batizaram de Córrego das Anhumas, em homenagem aos pássaros que vinham beber em suas águas. A história de Grama começa nesse gesto simples de quem encontrou um bom lugar para viver.
Nasce também do fim do Ciclo da Mineração, nas trilhas dos tropeiros que abriram caminho até Caconde, atrás da notícia do ouro. Em 1874 chegou João Ribeiro da Luz, vindo de Conceição do Rio Verde, em Minas, e instalou a família à beira do mesmo córrego. Em 1875, os tropeiros passaram a usar o rancho abandonado como pouso, e a água boa e o pasto de gramíneas deram ao lugar seu primeiro nome: Pouso de Grama.
A fé transformou o pouso em povoado. Em 1877, por provisão do bispo de São Paulo, Dom Lino Deodato Rodrigues de Carvalho, levantou-se uma capela com São Sebastião como padroeiro, e o lugar passou a ser São Sebastião da Grama. Em 10 de novembro de 1904, com a presença do engenheiro Domingos Dellepiane e de mestres de obras vindos de Uberaba, foi benzida a pedra fundamental da igreja, concluída em maio de 1908.
A burocracia foi correndo atrás da vida que já havia ali. Em 1896, o povoado virou distrito de paz de Caconde, com o nome de Grama. Em 1898, passou a São José do Rio Pardo e em 19 de dezembro de 1906, já com as primeiras plantações de café, passou a vila. Em 1910, o bispo de Ribeirão Preto, Dom Alberto Gonçalves, fez sua primeira visita pastoral e veio de Vargem Grande do Sul, três horas de viagem. Naquele dia, 970 pessoas receberam o sacramento da confirmação, e a estrada entre as duas cidades já era um laço entre vizinhas.
O passo definitivo veio em 4 de novembro de 1925, com a Lei Estadual nº 2.072, que criou o município de Grama, desmembrado de São José do Rio Pardo. A instalação oficial aconteceu em 20 de janeiro de 1926, com a posse da primeira Câmara Municipal. Em 24 de março de 1948, a cidade recuperou o nome de São Sebastião da Grama. O 4 de novembro foi escolhido para a celebração do aniversário da cidade, que em 2026 completa 155 anos de fundação e 101 anos de emancipação política.
Fotos: Prefeitura de Grama
Café
O café é o fio condutor dessa trajetória. Atraindo imigrantes empreendedores, a cidade tornou-se padrão na produção de cafés finos e, sobretudo, em qualidade de vida: teve os primeiros hospitais e clubes da região e a primeira piscina, construída em 1948. Na Fazenda Recreio, que pertence à mesma família desde 1890, quando a jovem viúva Ignez Bernardina da Silva Dias se instalou ali com quatro filhos, o plantio começou já em 1891. Uma fotografia de 1906 guarda a colheita daquele tempo, com trabalhadores, animais e sacas, e mostra Lindolfo e Jorge Pio da Silva Dias, da primeira geração da família na propriedade.
Mais de um século depois, o café segue sendo a alma da cidade, e o que mudou foi o jeito de contá-lo. De acordo com um Guia Turístico elaborado pela prefeitura de Grama, a Fazenda Rainha tem a maior lavoura da variedade Bourbon Amarelo do Brasil, com cafés famosos pela doçura e pela suavidade. A Fazenda Cachoeira da Grama cultiva café desde meados do século XIX, e o grão sai com o nome da própria fazenda. A Baobá faz torra e moagem de café colhido à mão, e a Recreio, com certificação UTZ, produz hoje café, vinho e espumante. As propriedades também se abrem ao visitante.

Azeite e castanhas
Outras lavouras ajudaram a diversificar a paisagem e a mesa. A Fazenda Irarema ficou conhecida no Brasil e fora dele pelo azeite de oliva, e recebe visitantes com restaurante, brunch, loja de produtos artesanais e trilha ecológica. A Fazenda Córrego das Pedras, o “Mirante das Macadâmias”, faz do plantio, da colheita e do beneficiamento de nozes um negócio de exportação, e abriga cerca de 200 pessoas entre funcionários e familiares.
Sabores e Turismo em Grama
Na cidade, o sabor tem endereço certo. O Bar do Carlão, com mais de 48 anos na Rua do Comércio, serve um torresmo premiado pelo Guia Garfo de Ouro, que já foi parar nas telas da TV Globo e rendeu à cidade o título de Capital do Torresmo. E o Queijos Roni, fundado em 1889 pelo calabrês Pedro Talarico, está na quarta geração da família e vende de Grama ao Mercadão de São Paulo.
Quem passa por Grama encontra ainda cultura e natureza. A Capela de Santa Clara, uma das últimas obras de Oscar Niemeyer, concluída em 2008, tem janelas que emolduram cafezais e oliveiras. O Centro Cultural Arakén Cruz guarda objetos e documentos que reconstituem a memória do município, até os jogos de futebol desde os anos 40. A cachoeira, a 6,5 km do centro, convida ao banho e à contemplação. Os campeonatos interestadual e brasileiro de mountain bike e a Copa Sudeste de off road puseram a cidade no mapa do esporte, e cerca de 10% dos imóveis urbanos servem a férias e veraneio.
Território vulcânico
É essa vocação que dá a Grama relevância regional. A cidade compõe o Território Vulcânico e é um dos polos do Vale da Grama, que dialoga com Poços de Caldas, em Minas, e com vizinhas como Vargem Grande, Caconde e São José do Rio Pardo. O Grupo Técnico de Análise dos Municípios Turísticos da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado reconheceu em parecer favorável a vocação da cidade para o turismo rural, cultural e gastronômico, num projeto de lei que busca classificá-la como Município de Interesse Turístico.
















