Dra. Carolina de Abreu
A infância existe porque o ser humano nasce completamente imaturo, em relação a outros animais. Há fatores biológicos a serem desenvolvidos que dependem exclusivamente do cuidar, do tutelar, do ensinar, que partem de um adulto e que permitem ao ser humano sobreviver à infância. Nesse sentido, família e sociedade exercem função crucial na vida de um novo membro, já que são eles que transmitirão aos mais jovens os ensinamentos da vida e de uma cultura. O ser humano precisa ser ensinado a ser humano.
A maneira como cada um aprende e faz suas conexões é extremante subjetiva, levando em consideração fatores biológicos e como foi tutelado. Sendo assim, não há uma forma única de aprender, de fazer e de ser no mundo. Assim, não há como concebermos o mundo de forma homogênea, sem levarmos em consideração a subjetividade humana. Somos resultados da nossa história pessoal e do modo como vemos o mundo e a nossa cultura.
Porém, vivemos em um momento histórico, onde tudo é fluido, instantâneo e inconsistente. A necessidade de respondermos a tudo, de forma rápida e eficiente, faz com que se estabeleça uma dependência progressiva dos sistemas de algoritmos que em alguns casos nos influenciam e em outros, decidem por nós. Troca-se a qualidade pela quantidade de ações e respostas. Uma avalanche de informações, propagandas, vídeos, cursos e promoções “que você não pode perder!”. Mas é claro que você perde! Não se pode ter tudo. Não pode haver tempo para tudo. A forma com que lidamos com o tempo (ou com a falta dele) pode nos levar a sintomas descritos como contemporâneos, sintomas de uma época.
Estamos imersos em uma era do tempo digital, que transformou como nos relacionamos, como vemos o mundo e como cuidamos uns dos outros. O espaço, o tempo, a comunicação, a informação, tudo está em constante mudança: por que não haveria de mudar a nossa atenção? Vivemos uma atenção desatenta, flutuante, que captura um objeto, mas o substitui por outro facilmente. Não há tempo para a compreensão. A atenção se perde e, ao perder-se, o sujeito volta a atenção para dentro de si, em manifestações hiperativas ou desatentas ao mundo exterior.
O psicanalista francês Jacques Lacan, em um texto de 1945 sobre o conceito do tempo lógico, discorre sobre a importância do tempo para o processamento de uma informação ou experiência vivida pelo sujeito. O processamento de experiências é a base para a constituição do sujeito, para como ele se reconhece no mundo. Segundo Lacan, há três tempos lógicos para se processar uma informação: o tempo de ver – na qual o sujeito capta uma situação; o tempo de compreender – o momento de elaboração, raciocínio e reflexão sobre aquela situação ou informação específica; e, por último, o tempo de concluir – quando o sujeito decide e sustenta uma certeza subjetiva sobre aquela informação, sobre aquela experiência. Estes três tempos lógicos, para Lacan, são a forma de o sujeito agir, de se relacionar no mundo. Nos dias atuais, não há tempo para o compreender.
Pois bem. Como estamos vivendo e nos relacionando no mundo atualmente? Há tempo para o tempo necessário para o processamento das experiências da vida, do dia a dia?
É através dessas respostas que podemos relacionar uma paleta de sintomas da contemporaneidade, que apontam uma desordem da atenção e de comportamento de crianças, adolescentes e adultos. Dentre eles o ADHD (Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder) no Brasil traduzido como TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade). Segundo o DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 5ª Edição), pode se definir o TDAH por um padrão persistente de desatenção e/ou hiperatividade-impulsividade que interfere no funcionamento ou desenvolvimento do indivíduo. Mas a que atribuímos, nos dias atuais, a avalanche de diagnósticos desse transtorno em específico?
Na tentativa de responder a essa questão, faço-o pelo viés da psicanálise, que toma o TDAH, por princípio, como um sintoma social e não como um diagnóstico em si. Uma manifestação sintomática que afeta o corpo, que promove agitação, perda de interesse por objetos do mundo e redução do desejo em relação ao saber e ao conhecimento. Decorrentes de um mal-estar na cultura desses nossos tempos. Uma resposta contra a angústia provocada pelas exigências sociais, pelo excesso de informações, de estímulos e de uma cobrança por produtividade e eficiência.
O TDAH como sintoma contemporâneo pode se manifestar no sujeito pela falta de atenção. Uma forma inconsciente de o sujeito se recusar a estar em um ritmo frenético, hiperestimulado, acelerado e imediatista. Na presença de muitos estímulos, há uma grande dificuldade em se concentrar, naturalmente. Quanto às questões que envolvem a hiperatividade, o corpo se torna local de descarga de tensões e estímulos que não conseguem ser processados. O que não se consegue simbolizar em palavras escapa pelo corpo em um excesso de agitação. Em ambos os casos, no que concerne à falta de atenção e à hiperatividade, a criança ou adolescente encontra um modo possível de estar imerso em um mundo superestimulado, em uma sociedade que incita ao consumo de objetos gadgets (objetos tecnológicos) que criam uma ilusão de satisfação imediata e completa. Nessa lógica, oferecem uma solução rápida e eficiente para preencher a falta e a angústia inerentes ao ser humano. Ao contrário de preencher uma falta, os objetos tecnológicos mantêm o sujeito em um círculo vicioso de consumo. A satisfação proporcionada é momentânea, logo dando lugar a uma nova falta e à necessidade de um novo objeto ou de uma versão atualizada do anterior. Sempre buscando o próximo objeto que, supostamente, trará a completude. A forma com que a criança ou adolescente é entregue sem mediações a um mundo virtual sem fronteiras, com a exposição a estímulos de todas as ordens, é a grande preocupação dos dias de hoje, que está levando a sociedade a sintomas contemporâneos. Porém, é essa mesma sociedade que produz esses estímulos e se apresenta como preocupada com a atenção e com o comportamento das crianças e adolescentes. Soa como uma incoerência. A sociedade produz corpos que precisam estar em satisfação o tempo todo. E o excesso de estímulo contribui para a falsa sensação de um prazer infinito. O discurso vigente e tecnológico promete extinguir o mal-estar social por meio do consumo e da hiperconectividade. O que ele produz, no entanto, são sintomas que refletem o impossível de tentar preencher com isso um vazio estrutural e inerente ao ser humano.
De uma forma resumida, não há como ter uma resposta prêt-à-porter para se chegar a um diagnóstico de TDAH. Uma das linhas de estudos, aponta o excesso de estímulos audiovisuais como desfavorável ao processo de interiorização das experiências. Não há tempo para que se produza um sentido para o que se vive, tempo para pensar, processar e decidir agir sobre o mundo, ocasionando sintomas no corpo (desatenção e/ou hiperatividade). Todavia, as circunstâncias em que esse transtorno acontece e suas incertezas diagnósticas ainda engendram debates que se encontram abertos e multidisciplinares. É preciso que se utilize de um diagnóstico infantil de TDAH de forma ética, exclusivamente para atender ao que se propõe um diagnóstico: orientar na direção de um tratamento, mas ele não pode se sobrepor ao sujeito. Um diagnóstico é uma parte e não o todo. Um sujeito não é TDAH, ele tem TDAH. A psicanálise, para além das questões biológicas, acredita em um sujeito biopsicossocial, considerando que fatores ambientais, pedagógicos e familiares influenciam em seu comportamento. Não há como excluir a particularidade de cada sujeito, apagar sua subjetividade. Cada sujeito é um. Cada caso é um caso.
Uma vez que ninguém nasce atento ou agitado, como dito no início deste texto, a atenção é socialmente construída e o ser humano precisa ser ensinado. Há uma construção de como ser no mundo que precisa ser transmitida à criança, orientada e acompanhada. Todos que se relacionam direta ou indiretamente com uma criança são responsáveis por sua formação. Família, escola, religião e sociedade, todos temos nosso grão de sal para contribuir com essa construção social. Criança é texto no contexto.












