
Doença viral afeta principalmente crianças menores de dois anos e pode evoluir para casos graves; pediatra explica sintomas, tratamento e prevenção

A bronquiolite é uma das doenças respiratórias que mais preocupa pais e profissionais de saúde durante os meses mais frios do ano. Embora possa atingir pessoas de qualquer idade, ela é muito mais frequente em crianças pequenas, especialmente nos primeiros meses de vida, quando o organismo ainda está em desenvolvimento.
Em entrevista ao jornal Gazeta de Vargem Grande, o pediatra Paulo Monteiro, que atua há 37 anos na especialidade, explicou que a bronquiolite é uma infecção viral que acomete os bronquíolos, pequenas ramificações dos brônquios responsáveis por levar o ar até os alvéolos pulmonares.
“A bronquiolite ocorre nos bronquíolos, que são aqueles caninhos bem fininhos por onde o ar passa antes de chegar aos alvéolos. Ela não acontece nos brônquios nem na traqueia e também não é uma pneumonia, que acomete outra região do pulmão”, esclareceu.
Por que os bebês são mais afetados?
Segundo o médico, embora qualquer pessoa possa desenvolver bronquiolite, os casos mais graves concentram-se em crianças menores de dois anos, principalmente nos primeiros seis meses de vida. “O quanto menor a criança, maior a possibilidade de complicações”, afirma.
Isso acontece porque os bronquíolos dos bebês possuem calibre muito reduzido. Quando ocorre a infecção, essas pequenas vias aéreas inflamam, incham e acumulam secreção, dificultando a passagem do ar. Além disso, o pulmão e a caixa torácica dos bebês são mais complacentes, favorecendo o desconforto respiratório.
Sintomas
Os principais sinais da doença são tosse, chiado no peito, dificuldade para respirar e respiração acelerada. Em alguns casos também pode ocorrer febre, embora ela nem sempre esteja presente no início da infecção.
Outro sinal importante é a cianose, quando os lábios ou as pontas dos dedos ficam arroxeados por falta de oxigenação. Apesar da preocupação, o médico tranquiliza os pais ao explicar que a maioria dos casos apresenta boa evolução. “Cerca de 80% a 90% das crianças podem ser tratadas em casa. Apenas uma pequena parcela precisa de internação e um número ainda menor necessita de cuidados em UTI”, explicou o pediatra.
A recuperação também varia conforme cada paciente. Enquanto algumas crianças melhoram em aproximadamente uma semana, outras podem permanecer com tosse e chiado por duas ou até três semanas. As complicações, porém, costumam surgir nos primeiros dias da doença.
Tratamento é de suporte
Não existe um medicamento específico para eliminar o vírus causador da bronquiolite. “Não há um remédio que combata diretamente a bronquiolite. O tratamento é de suporte, oferecendo oxigênio quando necessário, inalações para ajudar na fluidificação das secreções e acompanhamento médico da evolução do quadro”, comentou Paulo Monteiro.
O pediatra explica que esse acompanhamento é importante porque alguns pacientes podem desenvolver pneumonia bacteriana durante a evolução da doença. “Como o organismo fica debilitado pela infecção viral, uma bactéria oportunista pode provocar uma pneumonia. Quando isso acontece, passa a ser necessário o uso de antibióticos”, disse.
Quando procurar atendimento
Para o especialista, o principal sinal de alerta é a dificuldade para respirar. Os pais devem observar se a criança apresenta respiração muito rápida, retração das costelas durante a inspiração, conhecida como tiragem intercostal, ou afundamento da região logo abaixo da garganta, chamado de tiragem supraesternal. “A piora da respiração é o principal motivo para procurar novamente atendimento médico”, orientou.
Também exigem avaliação imediata os casos em que a criança apresenta coloração arroxeada nos lábios ou dedos, queda importante da disposição ou sonolência excessiva. Quando houver medição da saturação de oxigênio, valores abaixo de 90% indicam necessidade de atendimento urgente.
Vírus é o causador
A bronquiolite é causada exclusivamente por vírus. O principal responsável é o Vírus Sincicial Respiratório (VSR), mas adenovírus, vírus da parainfluenza e outros agentes também podem provocar a doença. Segundo Paulo Monteiro, os testes disponíveis normalmente identificam apenas o VSR. “Um resultado negativo não descarta bronquiolite. A criança pode estar infectada por outro vírus, e o diagnóstico acaba sendo feito pelos sintomas e pelo exame clínico”, observou.
Novas formas de prevenção
Nos últimos anos surgiram novas estratégias para reduzir os casos graves da doença. Uma delas é a vacinação das gestantes contra o VSR, permitindo que a mãe transfira anticorpos ao bebê ainda durante a gravidez.
Também está disponível um anticorpo monoclonal para recém-nascidos, principalmente prematuros, oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para crianças nascidas antes de 37 semanas de gestação.
Na rede particular, o medicamento pode ser aplicado em outras crianças, mas o pediatra ressalta que o custo ainda é elevado e a proteção dura cerca de cinco a seis meses. “Eu indicaria principalmente para crianças com imunodeficiência ou cardiopatias, que apresentam maior risco de complicações”, orientou.
Além disso, manter a vacinação em dia, incluindo a vacina contra a gripe, e evitar ambientes fechados e com aglomeração durante o inverno continuam sendo medidas importantes para reduzir a transmissão dos vírus respiratórios.
Sequelas são incomuns
De acordo com o pediatra, a recuperação costuma ser completa. “Normalmente a bronquiolite não deixa sequelas. Existem estudos mostrando uma maior predisposição ao desenvolvimento de asma, mas isso depende também da predisposição genética. Não significa que toda criança que teve bronquiolite terá asma”, disse.
Casos chamaram atenção da população
Embora a bronquiolite sempre tenha feito parte da rotina dos serviços de saúde, o pediatra acredita que a doença ganhou maior visibilidade nos últimos anos após casos graves registrados na região. “Sempre houve muitos casos de bronquiolite. Acho que as pessoas passaram a prestar mais atenção depois das internações e mortes que ocorreram na região”, observou.
Apesar disso, ele afirma que, em sua experiência clínica, observou uma redução no número de casos neste ano, possivelmente como reflexo da vacinação das gestantes. “Particularmente percebi uma queda nos casos de bronquiolite nos últimos meses. Talvez isso já seja resultado da proteção que as mães vacinadas passaram aos bebês”, pontuou.
Ao final da entrevista ao Jornal Gazeta de Vargem Grande, Paulo Monteiro destacou a importância da divulgação de informações por meio da experiência prática dos profissionais de saúde. “Hoje muita informação pode ser encontrada no Google ou na inteligência artificial. Mas conversar com quem vive essa realidade há muitos anos permite compartilhar a experiência do dia a dia e orientar melhor as famílias”, afirmou.











