À minha Vargem Grande do Sul

Victória Mazzarini

Era uma cidade de interior,
pequena aos olhos de muitos,
mas, para mim,
era imensa.

Era a terra onde eu nasceria,
onde meus passos encontrariam suas primeiras ruas,
onde minha história começaria
a criar raízes.

Vargem Grande do Sul,
minha terra querida,
desbravada por viajantes,
erguida sobre a antiga várzea
e marcada, em mil oitocentos e setenta e quatro,
pela primeira missa,
como quem lançava ao tempo
a primeira semente de uma história.

E a história cresceu.

Cresceram as casas,
as famílias,
as ruas,
as crianças.

E, entre tantas famílias que aqui chegaram,
também chegou a minha.
Fez morada,
plantou afetos,
viu gerações nascerem
e outras partirem.

Há lugares que guardam histórias.
E há lugares que são a própria história.

Aqui, cada esquina parece carregar uma lembrança.
Há prédios que o tempo levou,
outros que resistiram,
outros que se transformaram;
mas há algo que permaneceu:

a memória daqueles
que um dia chamaram esta terra de lar.

Hoje, quando caminho por tuas ruas,
vejo muito mais que uma cidade.

Vejo a infância.
Vejo minha família.
Vejo aqueles que vieram antes de mim.
Vejo aqueles que ainda estão por vir.

E talvez seja essa a maior beleza
de pertencer a algum lugar:

saber que, antes de nós,
muitas mãos construíram o caminho;
e que, depois de nós,
outras mãos continuarão a construí-lo.

Quanta sorte a minha
ter nascido aqui.

Quanta sorte poder crescer
onde tantas histórias se encontram.

E, se um dia alguém perguntar
onde está minha casa,
talvez eu não precise dizer um endereço.

Direi apenas:
Vargem Grande do Sul.
Porque há terras onde moramos.
E há terras
que moram dentro de nós.

Parabéns, minha Vargem
Grande.
Que o tempo siga passando,
que as ruas sigam mudando,
que novas gerações cheguem,
mas que nunca se perca
a alma desta terra
que aprendi a chamar de minha.

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