Família foi orientada a procurar a polícia e fazer necrópsia do corpo
A morte do pequeno Gabriel Henrique Pereira de Carvalho, falecido no último sábado, dia 7 de junho, no Hospital de Caridade de Vargem Grande do Sul aos três anos de idade, após ser encaminhado pelo Posto de Pronto Atendimento-PPA onde estava sendo atendido, comoveu os familiares e conhecidos da criança e sua família, como os professores e alunos na creche onde ele era cuidado.
Pelo que apurou a reportagem do jornal Gazeta de Vargem Grande, o médico que atendeu Gabriel Henrique no Hospital não quis dar a Declaração de Óbito (DO) e teria orientado a família a procurar a Polícia Civil e fazer uma necrópsia no corpo da criança.
A DO é um documento muito importante e o único profissional de saúde que pode preenchê-la é o médico. Os dados captados por meio da DO são essenciais para produção das estatísticas de mortalidade, fundamentais para a análise de situação de saúde, vigilância, monitoramento e avaliação de políticas públicas. A DO também tem caráter jurídico, uma vez que é o documento hábil para a lavratura da Certidão de Óbito pelos Cartórios de Registro Civil, sem o qual não se pode enterrar a pessoa que faleceu.
O que levou a Gazeta a elaborar a presente reportagem, uma vez que a morte de Gabriel gerou uma comoção muito grande na cidade e levou a milhares de manifestações nas redes sociais onde o jornal publicou o informe de seu falecimento – até a manhã da sexta-feira, dia 13, no Facebook da Gazeta, haviam sido mais de 300 mil visualizações da notícia, além de 3.417 reações na postagem e 1.363 comentários, e no Instagram, 117 reações, 23 comentários e 5.886 visualizações – foi o fato do médico não ter fornecido a Declaração de Óbito do garotinho e ter pedido a necrópsia do corpo.
Segundo apurou a reportagem do jornal junto a normas do Conselho Regional de Medicina-CRM, havendo suspeita da causa da morte, o médico plantonista poderá solicitar que o cadáver seja encaminhado à perícia do Instituto de Medicina Legal-IML. Atitudes como a tomada pelo médico plantonista do Hospital, têm por finalidade de proteger o profissional de responsabilidade perante a Justiça, caso seja questionado pela família a causa da morte, ou surjam fatos novos referente ao óbito.
Uma das tarefas da necropsia é estabelecer a causa da morte. Após a necropsia, é emitido um laudo pericial, que é um documento oficial com embasamento técnico-científico, pelo qual o perito oficial médico legista informa por escrito o método utilizado, os resultados e conclusões obtidas no exame pericial. O documento é requisitado pela autoridade policial ou judicial, e permite a análise de fatos ocorridos.
Para melhor entender o caso
O jornal Gazeta de Vargem Grande esteve com a mãe do menino Gabriel que faleceu na madrugada do último sábado, dia 7 de junho, no Hospital de Caridade.
Segundo relato da mãe Daliria Aparecida Pereira de Carvalho, 24 anos, a criança passou a semana bem, porém na quinta-feira, dia 5 de junho, teve um pouco de febre e estava com a garganta inflamada.
Logo de manhã ela levou seu filho para o Posto de Pronto Atendimento-PPA, onde foi medicado, realizado três sessões de inalação e um pedido de Raio X, que constou que o pulmão estava limpo, segundo lhe informaram na ocasião.
Após todos os procedimentos, mãe e filho voltaram pra casa. Na sexta-feira, dia 6 de junho, a mãe percebeu que seu filho estava piorando e com falta de ar, então ela ligou para Sirlene Trevizan Russo, que vem a ser madrinha de Gabriel Henrique, isso no horário do almoço. Imediatamente levaram ele até o Hospital de Caridade, onde foram informados que deveriam passar primeiro no PPA.
Ao retornar para o PPA, a pediatra que o atendeu colocou Gabriel no soro, e disse que era um soro com dipirona, segundo relatou a mãe. Meia hora depois do início do soro, disse a mãe que “o Gabriel começou a babar e tremer muito”. Nesse momento levaram ele pra uma sala de emergência ainda no PPA e colocaram no oxigênio, fizeram eletro e foi levado às pressas para o Hospital.
A mãe relata que nenhuma informação era passada pra ela e ela não sabe se seu filho teve uma parada cardíaca no PPA e foi reanimado e levado para o hospital ou se ele teve a parada cardíaca somente no Hospital.
Continuando seu relato, a mãe afirmou que no Hospital ele foi reanimado, entubado e começou uma busca por uma UTI Neonatal. Como a mãe se encontrava desesperada, a equipe médica não permitiu a presença dela e somente à noite o médico do Hospital falou com a madrinha e explicou que o Gabriel estava estável, porém sua diabetes estava alta e que precisava transferi-lo com urgência. Essa notícia pegou todos de surpresa, uma vez que a mãe sempre levou no pediatra e nunca soube sobre diabetes.
“O Gabriel era saudável, uma criança esperta que gostava de brincar, jogar bola, andar de velotrol … ele amava dançar as músicas da Ana Castela e assistir desenhos, nunca teve problemas”, informou sua mãe ao jornal. Porém, ela disse que as professoras da creche suspeitavam que ele pudesse ter autismo. “Na terça-feira levei ele na primeira consulta com a neuro, sempre cuidei dele e levava nos médicos e dava toda atenção necessária”, afirmou Daliria.
Por volta das 23h, Daliria conseguiu entrar no Hospital para ver o filho, ele estava aparentemente bem. “Eu comi e acabei passando por um cochilo na cama ao lado do meu filho…”, relembrou. Mas, foi acordada por volta da uma hora da manhã com as enfermeiras e o médico puxando a cortina e pedindo para ela sair e ligar para sua tia, que era a madrinha dele.
“Eu não entendia, perguntava e ninguém falava nada, ninguém me falou nada o tempo todo, um empurrava pro outro. O médico pedia pra falar com a enfermeira, as enfermeiras diziam que era com o médico. Sai e liguei pra minha tia, quando ela chegou fomos informados que ele havia morrido. Eu gritei e chorei muito. Sou mãe solo, ele era meu companheiro, dormia comigo agarradinho”, desabafou a mãe, que afirmou que após o ocorrido, já não consegue mais dormir na cama, dorme no sofá da sala, mas não liga a tv, pois seu filho gostava de ver tv.
Continuando seu relato, a mãe esclareceu que foram atrás dos preparativos para realizar o enterro, o médico do Hospital teria se recusado a assinar a declaração de óbito e pediu para que a família fosse até a Delegacia fazer um Boletim de Ocorrência, sendo então, que foram até São João da Boa Vista, uma vez que a delegacia de Vargem estava fechada.
“O médico do Hospital disse que mandaria o corpo de Gabriel Henrique para Mococa, mas o delegado de São João da Boa Vista pediu para levar o corpo para São João”, afirmou a mãe. Sempre acompanhada da madrinha da criança, disseram: “Não sabemos o que aconteceu, não tivemos informações concretas de nada, lamentamos a demora por transferir, queríamos que aqui tivesse uma UTI Neonatal pra ninguém mais passar por isso”.
A família foi informada que o laudo médico do IML de São João da Boa Vista só deverá sair daqui 40 dias, e dependendo do que conter, eles pretendem procurar por Justiça. “O delegado já pediu pra gente procurar um advogado, ainda não fomos, vamos em breve”, ressaltaram ao jornal.
O velório de Gabriel Henrique Pereira de Carvalho aconteceu somente no sábado, às 17h e o enterro foi no domingo, às 9h da manhã, após o corpo ser liberado pelo IML de São João da Boa Vista.
O que diz o Hospital e o PPA
A reportagem do jornal procurou o Hospital de Caridade e através do provedor José Geraldo Ramazotti, tomou conhecimento que a entidade só vai se pronunciar após o laudo emitido pelo IML. Também procurou o Posto de Pronto Atendimento-PPA e segundo Adriana Aparecida Espósito Conceição, enfermeira técnica responsável pelo PPA, a criança passou em atendimento na quinta-feira, dia 5 de junho, foi realizado acolhimento, consulta médica e medicada na unidade, recebendo alta após a melhora.
Na sexta-feira, dia 6 de junho, a mãe retornou com a criança para atendimento às 12h40, também foi realizado acolhimento e atendimento médico imediato, coletado exames e medicada na unidade, solicitado observação no leito. Às 15h, a criança evolui para quadro mais grave, sendo encaminhada para sala de urgência, realizadas as intervenções necessárias para manutenção da vida e após, Gabriel Henrique foi encaminhado ao Hospital de Caridade para sequência no atendimento.












