Especialistas analisam dados da Educação de Vargem

O professor doutor vargengrandense Nelson Pirola, da Unesp, foi um dos ouvidos pela reportagem. Foto: Arquivo Pessoal

Colaboração Thaís Barion

As escolas de Vargem Grande do Sul tiveram destaque no último Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), divulgado em setembro. A cidade alcançou a média de 7,1 para as escolas municipais em 2017, muito superior ao previsto pelo Ministério da Educação, que era de 6,4. A média também foi superior a meta para o ano de 2021, de 6,8.

Todas as unidades da rede municipal tiveram uma nota maior que o esperado pelo órgão. A Escola Mário Beni foi a que apresentou maior crescimento desde a última pesquisa, com 1,2 pontos. Passando de 6,1 em 2015 para 7,3 pontos. Seguido por Darci Troncoso Peres de Carvalho, com crescimento de 1,1 pontos. Passando de 6,9 para 8 pontos.

No âmbito estadual, apenas a escola José Gilberto de Oliveira Souza atingiu a meta esperada para o ano, de 4,8. Benjamin Bastos, por exemplo, teve a maior pontuação, de 5,5 pontos, mas o previsto para a escola era de 6,1. Já no Alexandre Fleming, a meta era 5,1, mas o número de participantes foram insuficientes para a divulgação dos dados e a última meta alcançada foi em 2011.

Conforme a pedagoga Eliana Marques Zanata, professora doutora da Universidade Estadual Paulista (Unesp), seria necessário uma avaliação pontual e regional para entender esta diferença nos índices das escolas municipais em relação às estaduais. “De qualquer forma, podemos apontar questões mais gerais como a proximidade das políticas públicas e a unicidade das unidades escolares centradas em um único município. Assim, as propostas de formação continuada de professores, elaboração e discussão de metas contam com a proximidade dos professores e gestores nos municípios, condição esta que muito difere nas tratativas no âmbito estadual”, explicou.

O que mais impacta o Ideb são as médias de desenvolvimento dos alunos nas áreas de língua portuguesa e matemática, adquiridas por meio das provas e o fluxo escolar. “Os alunos têm o nível 0 e 1 em língua portuguesa e matemática. Isso representa que estão no nível considerado mais inferior, em relação ao desempenho escolar, ou seja, eles têm apenas aquelas habilidades mais elementares nestas áreas. Isso é bastante preocupante e acaba interferindo nos dados do Ideb”, pontuou o professor doutor em Educação da Unesp, Nelson Pirola. Para ele, as escolas estaduais mesmo sendo uma rede grande não tem tanta diferença que o município. Pelo menos tem dado conta de elevar os números do Ideb.

Distorção idade-série

Apesar dos bons índices do Ideb, a taxa de distorção idade – série em Vargem necessita de melhoras. O número de crianças em atraso escolar é de 11,9%, correspondente a 661 alunos nas redes municipais e estaduais. Na rede Municipal são 141 alunos (5,8%) e na rede estadual 349 (18,9%). Já no ensino médio são 171 alunos (13,7%) em ano escolar diferente do esperado para sua idade. Os dados são da estratégia Trajetórias de Sucesso Escolar, mapeamento da situação em todo território a partir dos dados do Censo escolar em união à Unicef.

No panorama nacional, são 7 milhões de estudantes com dois ou mais anos de atraso escolar. Quase 5 milhões no ensino fundamental e mais de 2 milhões no ensino médio. Os alunos mais atingidos são os de camadas sociais mais baixas. Este cenário é propenso para o abandono escolar, já que os alunos buscam entrar no mercado de trabalho para complemento de renda.

Segundo o Ministério da Educação mais de 1 milhão de jovens de 15 a 17 anos estão fora do ensino médio e não trabalham. E a maioria dos que concluem o ensino médio não entram na universidade. O doutor em Educação da Unesp, Nelson Pirola, também aponta como uma das causas de abandono escolar a gravidez na adolescência, por parte das meninas.

Evasão

A evasão escolar está diretamente ligada à distorção idade-série. O déficit educacional acaba por desmotivar o aluno e consequentemente leva ao abandono. Muitas crianças e jovens possuem dificuldades em determinadas disciplinas e vão repetindo os anos escolares até a desistência dos estudos.

Segundo dados do Pnad, 97% das crianças de 6 anos de idade estavam frequentando a escola, o que mostra que as crianças entram na escola na idade correta. Mas logo nos primeiros anos no ensino fundamental o cenário começa a mudar. Conforme o Censo Escolar 2017, 12% dos estudantes dos anos iniciais do ensino fundamental têm dois ou mais anos de atraso escolar. Nos anos finais do fundamental (6º ao 9º ano), o índice passa a 26%, o equivalente a 3,1 milhões de alunos com dois ou mais anos de atraso. Já no ensino médio, os números chegam a 2,2 milhões.

Este cenário é resultado de um conjunto de fatores sociais, culturais, políticos, familiares e pessoais. Um deles é o acesso limitado dos alunos à escola. Mesmo com o aumento de vagas, muitas crianças e jovens não conseguem escolas perto de suas residências, necessitando de transporte. “Soma-se a esses fatores a facilidade de obtenção de recursos com o tráfico, a falta de perspectiva na escola como fator determinante de sua condição econômica e social futura, o desestímulo que os alunos têm frente às práticas educativas e muitos outros”, elencou a pedagoga e doutora em educação especial, Eliana Marques Zanata.

A desigualdade também existe na questão de cor e raça, segundo a Unicef. Os dados são obtidos pelo registro de cada escola, mostrando que as taxas de distorção idade – série de negros (29,4%) são maiores em relação a brancos (12,6%). O maior índice é de indígenas (33,1%), seguido de pardos (23,4%) e amarela (17,1%). O índice de não declarados chegou a 21,3%,  todos na zona urbana conforme dados do Censo Escolar, Inep 2017. Da mesma forma que os outros alunos, ocorre o aumento da taxa de atraso conforme os anos para os alunos com deficiência física. Nos ensinos iniciais é de 42%, em comparação a média nacional que é de 12%. Já no ensino fundamental a média nacional é de 26% e o índice de deficientes com atraso é de 57%.

Pessoas que têm necessidades educacionais especiais acabam abandonando a escola por causa da acessibilidade, porque boa parte das escolas não se adaptaram a estas necessidades. Outro fator apontado por Nelson que demonstra a responsabilidade do professor na sala de aula é a forma de ensino. “Muitas vezes o que é ensinado na escola não é atrativo e não tem nada a ver com a realidade do aluno. É distante da expectativa que estes têm. Quando perguntam pra que vai usar aquilo, formas paliativas são colocadas aos alunos, que acabam despertando desinteresse pela escola”, acrescentou.

Consequências sociais

As consequências dos índices de déficit educacional e evasão escolar repercutem tanto na vida de cada criança e jovem, como também na sociedade. Segundo a especialista em psicologia da educação, Rita Melissa Lepre, “no âmbito pessoal a baixa escolaridade causada pela evasão e repetência pode comprometer a construção da consciência crítica, envolvendo o entendimento dos direitos e deveres, além de limitações para a vida profissional. No âmbito social, os prejuízos ocorrem em torno da dificuldade em construir uma sociedade mais justa, democrática e igualitária em que todos tenham direito ao acesso e permanência a uma educação de qualidade”, pontuou Melissa.

Dentro da sala de aula as disciplinas escolares precisam ser mais atrativas. Além das disciplinas tradicionais é necessário o desenvolvimento de outras áreas em relação à realidade dos alunos, como a educação financeira. O professor deve incentivar a participação do aluno e estabelecer um ambiente sócio-moral de respeito e cooperação. Segundo Melissa, “a escola pode investir em programas que promovam a parceria escola-família, assim como em programas de acompanhamento de frequência e aproveitamento escolar”, pontua.

Estes índices educacionais interferem diretamente na vida de cada pessoa. “Quanto menos escolarizada for uma sociedade menor será sua capacidade de reflexão e compreensão dos rumos do desenvolvimento desta população. Decisões equivocadas, enganadas ou mesmo condicionadas são muito mais frequentes e, estas por sua vez, nem sempre estão direcionadas a estabelecer uma melhor condição de vida para a população como um todo”, argumentou a pedagoga Eliana Marques Zanata.

Políticas governamentais

A qualidade da educação brasileira fica na 76ª posição entre 129 países de acordo com a Unesco, perdendo até para países africanos como Zâmbia e Senegal, além de estar abaixo de todos os países da América do Sul. Além da escola, o governo tem papel fundamental na melhora destes índices. A pedagoga Eliana elenca medidas mais específicas no âmbito nacional como programas de  transporte escolar, merenda, livro didático e bolsa família.

O professor doutor vargengrandense Nelson Pirola, da Unesp, foi um dos ouvidos pela reportagem. Foto: Arquivo Pessoal

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