Tadeu Fernando Ligabue
Década de 70, clima de ditadura militar no Brasil, tínhamos poucas referências aqui em Vargem Grande do Sul do que acontecia no país e no mundo. Goiaba foi uma das pessoas que com seu jeito irreverente, ligado na Contracultura, universitário da USP de Ribeirão Preto, onde cursou enfermagem, nos trouxe um pouco de luz no tocante a novas músicas, o que se produzia no cinema brasileiro, fotografia e mais coisas ligadas ao mundo da arte.
Não que fosse um artista em si, mas foi um disseminador de novas ideias e atitudes, pelo menos junto a algumas pessoas que procuravam pensar um pouco fora do contexto da época do “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Tive pouco contato com José Luís Avanzi (Goiaba), era mais jovem e ele era de outra turma, sete anos mais velho.
Meu contato maior era com seu irmão, o Tiãozinho, que era amigo do Sebastião Nikimba, que conhecia o Mito Cipola, que era ligado ao Muterle, ao Sebastião Miranda, ao Marco Aurélio Perroni, a Cristina Bedin, a Zezé Miranda, a Dôra Avanzi e por aí formava-se um cordão de pessoas que comungavam com alguns ideais ligados à política, às artes, música, cinema, fotografia, leitura, jornalismo.
Vargem Grande na época tornava-se pequena para quem queria ter mais conhecimento, estudar fora era a opção. Éramos jovens e o mundo se descortinava para nós e São Paulo nos chamava com mil promessas. A maioria foi para a capital paulista e por lá permaneceu, eu fui e voltei para Vargem Grande do Sul lá pelo final da década de 70.
Das minhas lembranças do Goiaba, ainda guardo com carinho o álbum de foto do meu casamento com a Fátima em 1981, que ele gentilmente fotografou com a esposa Célia Ranzani. Depois a política foi nos afastando, pouco ou quase nenhum contato mais tivemos.
Mas, quem conviveu mais com o Goiaba, certamente pode desfrutar de todo o seu conhecimento, de tudo que manjava de música, cinema, além do seu lado voltado para uma vida mais junto à natureza. Certamente foi esposo dedicado, bom pai e um vovô querido, fase que agora nós, que éramos jovens em 70, estamos a vivenciar.
Foi com surpresa que tomei conhecimento que estava com a Covid-19, que eu saiba, era até recatado e não se expunha muito e foi com tristeza que recebi a notícia de sua morte. Que tenha uma boa acolhida no céu.













Gostei do texto e quero acrescentar alguns comentários. Meu convívio com o Goiaba, em Vargem Grande, aconteceu principalmente na década de 1960. Fizemos parte do movimento estudantil secundarista, ele mais do que eu. Eu acho que, no interior do estado, nossas ações eram bem modestas e com conotação de revolta cultural, em busca de saber e em contraposição à camisa de força e à escuridão lançada pela cruel ditadura militar. Ele foi um parceiro inspirador e muito colaborativo. Tenho saudade.
Goiaba,Celia… cantavamos essa musica e,
apos 45 anos ainda sei de cor…
Robertinho Chiachiri. Onde anda vc..
Fado Tropical
Chico Buarque
Oh, musa do meu fado
Oh, minha mãe gentil
Te deixo consternado
No primeiro abril
Mas não sê tão ingrata!
Não esquece quem te amou
E em tua densa mata
Se perdeu e se encontrou
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal!
Sabe, no fundo eu sou um sentimental. Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo (além da sífilis, é claro). Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar, o meu coração fecha os olhos e sinceramente chora.
Com avencas na caatinga
Alecrins no canavial
Licores na moringa
Um vinho tropical
E a linda mulata
Com rendas do alentejo
De quem numa bravata
Arrebato um beijo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal!
Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto
De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado, eu mesmo me contesto
Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito
Me assombra a súbita impressão de incesto
Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadora à proa
Mas meu peito se desabotoa
E se a sentença se anuncia bruta
Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa
Guitarras e sanfonas
Jasmins, coqueiros, fontes
Sardinhas, mandioca
Num suave azulejo
E o rio Amazonas
Que corre trás-os-montes
E numa pororoca
Deságua no Tejo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um império colonial!
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um império colonial!